Roxane Teixeira

Jornalista, escritora e fã de livros. Dizem que se mudou para a Suíça por um grande amor, mas pode ter sido pelo chocolate.

Parafusos a mais

“Gonzos e parafusos”, de Paula Parisot, é um romance com jeito de diário. Narrado pela protagonista, a jovem psicanalista Isabela, o livro é uma mescla de memórias com fatos que acontecem no presente. E entre flashbacks e revelações, a moça descobre novas facetas de si mesma e passa a encarar seus medos por outra ótica. É quase uma sessão de terapia – na qual o terapeuta é o leitor.


Gonzos 1.jpg Paula Parisot é uma autora brasileira. Mestre em Belas-Artes, ela trabalhou como ilustradora para diversas revistas antes de se dedicar à escrita

Isabela trabalha com psicanálise em um consultório próprio, é sócia de seu melhor amigo e leva uma vida confortável, cercada de pessoas prestativas e carinhosas. Isso é o que as pessoas enxergam na superfície. Mas, quando ela começa a narrar sua própria história, descobrimos que essa carcaça estável esconde um histórico de depressão, terapias com eletrochoque e tentativas frustradas de suicídio.

Ao relembrar sua trajetória, ela aborda seus temores atuais. Isabela confunde os pacientes com personagens de livros. Ouve vozes. Vê números em asas de insetos. Teme estar enlouquecendo. Ela também divide conosco fatos de sua infância, traumas e impressões. Descobrimos que ela odiava o pai, e que sua mãe também o detestava. Sua bisavó, uma alemã nazista, ficou marcada em sua memória para sempre por afogar os cachorrinhos mestiços de sua cadela de pedigree. E a avó paterna, com a qual a jovem cresceu, era uma senhora fascinada pela morte, desiludida com o casamento e certa de que a vida não vale a pena ser vivida.

Gonzos 2.jpg Detalhe da capa do livro, publicado pela Leya e disponível também em formato digital

É interessante a construção feita pela autora: não há aqui um romance estruturado com começo, meio e fim. O livro é uma coletânea dos recortes mais íntimos de sua protagonista, e o leitor ganha a chance de investigá-la. Isabela analisa seus pacientes, e nós analisamos Isabela. Ao descortinarmos seu passado, tentamos entender as raízes de seu comportamento presente. Quantas “certezas” são, na verdade, crenças tomadas como verdadeiras quando ela ainda era criança? Estaria sua baixa autoestima relacionada com o fato da bisavó se recusar a tocá-la? É possível que o conturbado relacionamento dos pais tenha influenciado sua problemática vida amorosa? E quão funda é a ligação de suas tentativas de suicídio com o desejo da querida avó de acabar com a própria vida?

Parisot não faz julgamentos acerca de sua personagem, mas suas pistas nos mostram que Isabela vive presa em velhas questões familiares. E, conforme a narrativa segue, descobrimos que a protagonista também se deixa amarrar por todas as possibilidades do futuro.

Gonzos 3.jpg Para o lançamento de “Gonzos e parafusos”, Paula criou algo especial: por sete dias e noites, a autora viveu como sua protagonista, em um cômodo de acrílico dentro de uma livraria

Isabela não sabe se quer ter filhos ou não. Se vale a pena investir em um relacionamento cheio de companheirismo, porém, sem amor. Diversos “e se...?” passam por sua mente, a todo instante. Ela oscila entre lembranças antigas e medo do que está por vir, sem se permitir viver o presente. Um comportamento do qual a moça não consegue se livrar, e que exaure suas forças – até o momento em que ela não aguenta mais ser quem é.

Aqui, há uma passagem interessante: em vez de, novamente, tentar o suicídio, Isabela deixa-se levar pela ideia de ser outra pessoa. Apaixonada pelos quadros de Klimt, ela encarna uma de suas modelos, a baronesa Bachofen-Echt. Interna a si mesma em uma clínica de repouso, copia o cabelo e o vestido do retrato e pede para ser chamada de baronesa. Seus familiares e amigos estão certos de sua loucura, mas seu médico sabe que ela está lúcida. Apenas perdida, exausta e desesperada por uma fuga:

“Não podia continuar ali, sem comparecer aos compromissos daquele dia e do dia seguinte e do dia depois do dia seguinte, mas talvez porque aquele dia fosse aquele dia e eu, no caso a Isabela, me chamasse Baronesa Elisabeth Bachofen-Echt, mandei tudo para o inferno.”

Gonzos 4.jpg Durante a performance do lançamento, a escritora não falou com ninguém, mas dançou, escreveu nas paredes e desenhou. A ilustração acima foi feita no evento

O retorno de Isabela à sua própria realidade é de uma singeleza singular. Através de um gesto simples do dia-a-dia, ela percebe que o tempo de ser a baronesa na clínica passou; que todos nós temos ideias assustadoras e traumas, mas lidar com eles ainda é a melhor alternativa. Porque fugir cansa. Fingir cansa.

“Eu, um ser humano, sabia que naquele instante podia desfazer o meu passado, e a minha verdade se tornara um truísmo: viver o agora.”

Com essa máxima, a protagonista de Parisot finalmente inverte os papéis com o leitor. Após seguirmos suas confidências como terapeutas que tentam compreender a personalidade à sua frente, nós é que vamos para o divã. Isabela é, novamente, a psicanalista. Ela sabe – e nos mostra – que alguns comportamentos indicam distúrbios reais, os quais carecem de acompanhamento profissional. Mas ela também ensina que muitos dos nossos problemas são causados por nós mesmos, por nossas âncoras no ontem e temores sobre o amanhã.

O agora é o remédio, diz Parisot. O agora é um bote salva-vidas, prova Isabela. “Vivamos o momento”, é a mensagem que o romance nos deixa – porque o presente não conserta todas as peças quebradas, mas ainda é a melhor forma do humano-engrenagem lidar com seus gonzos e parafusos.


Roxane Teixeira

Jornalista, escritora e fã de livros. Dizem que se mudou para a Suíça por um grande amor, mas pode ter sido pelo chocolate. .
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