Roxane Teixeira

Jornalista, escritora e fã de livros. Dizem que se mudou para a Suíça por um grande amor, mas pode ter sido pelo chocolate.

Tecnologia desumanizadora

“Homem-máquina”, de Max Barry, é apavorante. Mescla de ficção científica e thriller, o livro traz cenas intensas e descrições perturbadoras de dores físicas. Mas o que realmente aterroriza é a trama: o homem está perdendo o controle sobre a tecnologia. Viciado, dá mais valor à modernidade que à vida e está a ponto de anular a humanidade como conhecemos. Assustador, acima de tudo, porque pode virar realidade.


Homem máquina 1.jpg O autor australiano posa com o manuscrito de “Homem-máquina”, cujos direitos para o cinema foram adquiridos pela Mandalay Pictures

Quando começou a postar uma nova história de ficção em seu blog pessoal, Max Barry ainda não enxergava um livro pronto para ser publicado. Os capítulos eram comentados pelos leitores, e assim o conteúdo era retrabalhado. Ao concluir a narrativa, o escritor fez uma última edição, alterando os trechos mais criticados, e resolvendo questões mal solucionadas na primeira versão. Surgia, oficialmente, “Homem-máquina”, lançado no original em 2011.

O romance traz a trajetória de Charles Neumann, um engenheiro que não socializa fora do ambiente virtual e é dependente de seus gadgets. Ao perder o celular, ele mal consegue raciocinar e, tentando recuperar o objeto, acaba em um terrível acidente. Charles perde uma perna e passa a usar uma prótese. Os fracos resultados obtidos pelo membro protético levam-no a desenvolver um novo modelo – e este dá uma resposta tão fantástica, que Neumman amputa sua outra perna, trocando-a por mais uma prótese. Logo, o engenheiro começa a criar conceitos para substituir diversas partes do corpo humano. Partes melhores. Mais eficientes. Muitos o enxergam como um maluco, mas a empresa na qual ele trabalha vê nessa novidade um ganho em potencial: se ele pode construir super-humanos, certamente também pode moldar supersoldados, capazes de movimentar fortunas na indústria de armamentos.

Homem máquina 3.jpg Durante a concepção do romance, o escritor postou em seu blog imagens sobre seu processo criativo – de diagramas a fotos de textos editados. Aqui, uma nuvem de palavras mais usadas

A partir daí, a narrativa traz alguns elementos novos: um conturbado romance entre o protagonista e sua fisioterapeuta, sua complicada interação com o time de estagiários e a tentativa de livrar-se da empresa que agora o controla como um bem de valor. Esses aspectos da história são, no entanto, meros panos de fundo para uma questão central bem mais interessante: estaremos todos virando “homem-máquina”?

Os três grandes motivos que levam Neumann a querer se reconstruir são a dependência da tecnologia, a falta de contato social fora do ambiente virtual e a vontade de atingir a perfeição propagada pela mídia – conceitos profundamente enraizados na vida moderna. Nossa geração está acostumada a usar uma ferramenta de busca para ter todas as respostas na ponta dos dedos, em segundos. Gadgets e aplicativos são utilizados para “simplificar” até as coisas mais tolas, como listas de supermercado. E em muitos casos, confiamos mais nas máquinas do que nos humanos que as construíram; já estão aí os robôs especializados em operações de alta precisão e os primeiros carros sem piloto.

A dificuldade em travar contato fora da esfera virtual também faz parte do nosso cotidiano. As redes sociais nos permitem angariar centenas de “amigos”, os quais, apesar de nunca nos verem pessoalmente, podem agraciar nossas páginas com curtidas e comentários elogiosos. Tudo muito mais fácil de alcançar do que uma interação mais profunda, mais real. Basta um filtro bonito em uma foto bem pensada para um carinho no ego.

Homem máquina 5 Designer Matt Roeser.jpg Os leitores da página oficial de Max puderam escolher a capa do romance. Foram apresentadas seis opções, todas do designer Matt Roeser

Ainda no mundo online, é fácil perceber nossos ideais estéticos absurdos. Alterar digitalmente o próprio rosto é rotineiro – existem dezenas de programas para isso. Todo mundo quer parecer com a modelo da revista, ignorando completamente o fato de que aquele retrato é uma combinação de luz, maquiagem, Photoshop. Não é real. E, no entanto, nós perseguimos os mesmos resultados (sem estúdio, nem maquiadores profissionais), e terminamos frustrados com nossas fotos tão... Humanas.

Se Neumann está preso em uma teia maluca, nós também estamos. Nossos celulares precisam ser do último modelo – afinal, há sempre uma pequena novidade, certo avanço. Certo? Pois, no romance, nosso protagonista faz exatamente o mesmo, só que consigo mesmo. Ele almeja a próxima geração, o novo produto que a humanidade pode ser – e isso fica bem claro quando, ao experimentar suas tecnológicas próteses, ele vibra com a ideia: “Aquilo não era perda. Era transição”.

Charles Neumman talvez seja a perfeita personificação moderna do mito de Ícaro. Personagem da mitologia grega, ele encontra-se preso com seu pai, o artífice Dédalo, no labirinto de Creta. Para escapar, o inventor monta um grande par de asas com cera de abelha e penas de aves. Ícaro é avisado para não voar perto demais do sol, pois o calor derreteria a cera, destruindo a engenhoca. No entanto, ao alçar voo, o rapaz fica fascinado pela sensação de voar. Ele vai cada vez mais para o alto, alucinado pelo poder. As asas são destruídas, e o jovem cai no mar, onde morre afogado.

Homem máquina 2.jpg Max Barry posa com a capa campeã – a mesma da edição traduzida para o português. No Brasil, o título é publicado pela Editora Intrínseca

O fascínio de Ícaro pela capacidade sobre-humana é compreensível, porém perigoso. Aliás, o ente mitológico nomeia um termo da psicanálise: determinado por Henry A. Murray, o complexo de Ícaro descreve pessoas cujas ambições vão tão além de seus limites, que, inevitavelmente, elas terminam em queda. É a personalidade do jovem com seu par de asas e de Charles Neumann com suas “partes melhores”. Mas, talvez, também seja um pouco da personalidade de todos nós, cada vez mais isolados no mundo virtual, e sempre em nossa busca frenética pela novidade.

“Homem-máquina” termina triste – e, no entanto, sua narrativa torna tal desfecho inevitável. É o resultado do comportamento doentio de seu protagonista, e é, também, um alerta: nós, Ícaros, estamos voando perto demais do sol.

* Todas as imagens são conteúdo de divulgação e estão disponíveis no site oficial do autor: www.maxbarry.com


Roxane Teixeira

Jornalista, escritora e fã de livros. Dizem que se mudou para a Suíça por um grande amor, mas pode ter sido pelo chocolate. .
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