Roxane Teixeira

Jornalista, escritora e fã de livros. Dizem que se mudou para a Suíça por um grande amor, mas pode ter sido pelo chocolate.

A fragilidade e o fim do mundo

“A idade dos milagres”, de Karen Thompson Walker, é um livro sobre uma catástrofe: a rotação da Terra começa a desacelerar, e logo os dias se tornam tão longos, que a sobrevivência humana é ameaçada. A obra é, no entanto, mais do que mera ficção científica. Com uma escrita sensível e uma protagonista livre de ideias pré-concebidas, o foco da autora não está no desastre natural, mas em como as pessoas reagem a ele. O resultado é uma interessante investigação sobre a condição humana.


age of mir 1.jpg Com um único romance publicado, a autora volta ao spotlight. O motivo? Seu livro vai virar filme

Karen Thompson Walker é um exemplo de persistência. Formada em inglês e escrita criativa, ela trabalhou por anos editando os livros de outros autores, apenas sonhando em publicar sua própria história. Ideia para um romance ela já tinha – o problema era a falta de tempo. Então, Karen traçou um plano: escreveria um pouquinho por dia, durante o trajeto de metrô entre a casa e o trabalho. O processo durou quatro anos, mas valeu a pena: publicada em 2012, a obra “A idade dos milagres” tornou-se um sucesso imediato e teve seus direitos de publicação comprados em diversos países.

O apelo do romance está em sua premissa cativante: narrar o colapso do planeta (fruto da desaceleração da rotação da Terra) de uma forma realista e acessível, sem termos incompreensíveis para o leitor. E para mergulhar nos efeitos do desastre sem precisar esmiuçar os detalhes da causa, a autora lança mão de uma boa estratégia: sua protagonista, Julia, é uma garota de apenas onze anos, com uma compreensão ainda limitada do mundo. A narração, no entanto, é feita por uma Julia já mais velha. É uma forma inteligente de mesclar um texto bem escrito com uma percepção descomplicada.

age of mir 2.jpg Detalhe da edição brasileira, publicada no país pela editora Paralela

Há, claro, descrições sobre a desaceleração. No início, cada dia tem cerca de 55 minutos a mais. Conforme o processo avança, os períodos de luz deixam de estar em sincronia com os horários marcados pelo relógio. A gravidade da Terra torna-se mais intensa, e as tardes atingem picos de calor, enquanto as noites são frias como nunca. Os fatos “científicos”, no entanto, não são o foco principal do livro. A autora dá mais atenção a como os indivíduos reagem aos dias mais longos – física e psicologicamente.

Julia começa a perceber que, mesmo em seu pequeno meio social, as pessoas não constituem um grupo tão homogêneo quanto ela imaginava. Alguns nem acreditam na desaceleração, alegando que o governo está tentando ganhar algo com isso. Outros têm certeza absoluta de que o fenômeno é um castigo de Deus. Muitos concordam com a decisão oficial de seguir com o horário do relógio, ignorando se lá fora está claro ou escuro. E os poucos que se mantêm fiéis ao “horário real” – respeitando os novos períodos de sol – são segregados pela maioria e fogem em busca de comunidades alternativas.

age of mir 3.jpg A obra foi traduzida para diversos idiomas. As capas acima são das edições espanhola, holandesa e italiana

Os problemas físicos, entretanto, afetam a sociedade como um todo. Com dias que chegam a 40 horas, as pessoas começam a sofrer com distúrbios do sono. A gravidade mais intensa causa náuseas e mal-estar. Por conta das alterações no campo magnético do planeta, a Terra recebe cada vez mais radiação. Todos entram em pânico.

Aqui, há grande dedicação da autora em mostrar como o medo do desconhecido leva o ser humano a agir por impulso. Pessoas antes controladas, exemplos de boa conduta, agora aceitam comportamentos criminosos – afinal de contas, a humanidade parece caminhar para seu fim, e cada instante é vivido como se fosse o último. Julia percebe essa mudança de comportamento dentro de sua própria casa, ao descobrir que o pai está disposto a largar tudo e fugir com uma jovem para uma comunidade distante:

“Antes da desaceleração, ninguém poderia prever que meu pai fosse do tipo que abandonaria esposa e filha. Ali estava um homem que estava sempre presente, um homem que trabalhava e todas as noites voltava para casa. Ali estava um homem que administrava crises e pagava suas contas em dia. Muitos estudos se dedicaram a medir os efeitos físicos da síndrome, porém muito mais vidas do que a história jamais registrará acabaram transformadas pelas sutis mudanças psicológicas advindas da desaceleração."

age of mir 5.jpg A página oficial da obra no Facebook divulgou esta imagem, explicando que todos esses livros foram autografados pela autora. O processo durou dois dias

Ao explorar a reação do indivíduo em todas as suas particularidades, Karen Walker torna sua narrativa madura e sensível. Vistas pelos olhos de uma menina, que ainda não é totalmente assertiva em seus julgamentos, as mais variadas posturas aparecem com prós e contras e, em certa medida, são compreensíveis. É um prato cheio para a reflexão.

“A idade dos milagres” é, sim, uma ficção científica – mas é, também, um convite para repensarmos a condição humana em toda sua fragilidade. Um lembrete de que a nossa vida depende da saúde da Terra e só seguirá estável enquanto o próprio planeta seguir estável. Basta uma alteração no delicado equilíbrio à nossa volta e nós, impotentes, terminamos igualmente desequilibrados.


Roxane Teixeira

Jornalista, escritora e fã de livros. Dizem que se mudou para a Suíça por um grande amor, mas pode ter sido pelo chocolate. .
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