Roxane Teixeira

Jornalista, escritora e fã de livros. Dizem que se mudou para a Suíça por um grande amor, mas pode ter sido pelo chocolate.

Rota de fuga

Em contos que surpreendem pela densidade psicológica, Alice Munro investiga o desejo de escapar – de um relacionamento infeliz, um trabalho pouco valorizado ou mesmo de si mesmo. Com a coletânea “Fugitiva”, a autora apresenta personagens angustiadas em sua busca pela liberdade. Uma série de histórias sobre autoconhecimento, transformação e sobre a força de mulheres que se lançam rumo ao desconhecido.


Alice Munro 1.jpg A autora canadense já ganhou mais de 20 prêmios literários – dois deles por “Fugitiva”

“Fuga”. Um termo que nos faz pensar em criminosos escapando da polícia em uma perseguição desenfreada ou em bandidos engenhosos saindo do cárcere. Ao passarmos mais tempo com essa palavra, no entanto, nos lembramos de outras fugas, mais discretas – escapes de quem não suporta mais uma relação opressora, uma expectativa impossível de atingir ou um lugar repleto de lembranças ruins. Esse fugir, muito mais íntimo, é o que agrada Alice Munro. Nos contos do livro “Fugitiva”, ela traz mulheres as quais, por fora, parecem equilibradas, mas, por dentro, sentem-se sufocadas e a ponto de explodir. Elas querem deixar tudo para trás.

Munro, laureada com o Nobel da Literatura em 2013, consegue desenvolver como poucos a personalidade de suas personagens. Suas histórias, apesar de curtas, trazem uma profunda investigação psicológica e exploram o que há de extraordinário em pessoas comuns. O trabalho é minucioso e cativante, e a abordagem casa muito bem com a temática da fuga.

Alice Munro 2.jpg Detalhe da edição brasileira. O livro é publicado no país pela Biblioteca Azul, um selo da Globo Livros

“Fugitiva” traz oito contos, todos protagonizados por mulheres deliciosamente reais. Há a moça que abriu mão de uma vida confortável por amor e agora se vê presa em um casamento infeliz. A brilhante jovem de comportamento impecável que não suporta mais ser uma menina-prodígio. A mulher de meia-idade que, quando isso ainda era motivo de escândalo, vê sua amada filha engravidar sem ser casada. Tramas sem fantasias ou exageros, e certeiras em seu retrato dos sentimentos humanos:

“Ele vai na direção dela e ela se sente revirada de cima a baixo, avassalada de alívio, tomada de felicidade. Que desconcertante, isso. Que próximo da aflição.”

Alice Munro 3.jpg Publicada pela primeira vez em 2004, a coletânea já teve diversas reedições

Outras histórias da coletânea mostram uma adolescente que teme ter sido adotada na infância, uma mãe cuja filha desaparece – por vontade própria – sem nunca dar explicações e uma série de desencontros amorosos. Todas as narrativas são construídas com riqueza de detalhes e seguindo o mesmo molde: as protagonistas vivem suas rotinas, enquanto, internamente, “cozinham” suas angústias. Então, algo acontece; algo de grande valor emocional. Nesse momento, há uma epifania, e a personagem passa a enxergar um pouco mais de si mesma:

“Ela espera do jeito que as pessoas que já aprenderam sua lição esperam por bênçãos imerecidas, remissões espontâneas, coisas desse tipo.”

“Fugitiva” é um alento para quem deseja escapar – das demandas alheias, de relacionamentos doentios, do cotidiano maçante. Munro mostra, de forma concisa, porém profunda, que não estamos sós em nossa vontade de cortar as amarras.


Roxane Teixeira

Jornalista, escritora e fã de livros. Dizem que se mudou para a Suíça por um grande amor, mas pode ter sido pelo chocolate. .
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