há mar e mar

Reflexões de uma comunicóloga “meloucómica”.

Marlene Babo

Sou a Mar, para os amigos. Divorciada do Direito, numa relação séria com a Comunicação. Comunicóloga “meloucómica”, criadora de neologismos em dicionário próprio, com um cão chamado Kafka que me observa - ou apenas ressona - enquanto escrevo.

Manual de Instruções para um filme nada banal

“Manual de Instruções para Crimes Banais” (1992) é um falso documentário repleto de humor negro, ao qual é impossível ficar indiferente. Crime, violência, sensacionalismo dos média, voyeurismo: alguns dos ingredientes deste filme - amado por uns, odiado por outros - que, após 24 anos, continua na lista das obras de culto do cinema.


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“Manual de Instruções para Crimes Banais” (1992), originalmente “C'est arrivé près de chez vous “ ou, para os anglo-saxónicos, o conhecido “Man Bites Dog”, é um filme belga, um falso documentário repleto de humor negro, ao qual é impossível ficar indiferente.

Não se trata de uma novidade – pelo contrário! -, contando-se mais de duas décadas desde o seu lançamento, o filme sobrevive à passagem do tempo graças ao seu pendor satírico, provocador e aos elementos que se mostram cada vez mais actuais. Intemporalidade, nem mais. Desde logo, pelo tema central: crime. Ben é um serial killer que mata, não só por dinheiro, mas também por prazer, ao melhor estilo psicopata. É seguido por uma equipa de televisão que se encontra a fazer um documentário sobre o seu quotidiano. Sim, o de um criminoso niilista (provocador o suficiente, para começar?).

Se, a princípio, a equipa mantém a imparcialidade requerida em tal trabalho (e, claro, sabemos que, ao tratar-se de uma comédia negra, ser imparcial neste contexto já se torna estranho), apenas registando a actividade criminosa de Ben, logo se inicia um envolvimento não intencional na mesma, esbatendo-se os limites, num escalamento da violência em contexto de influência de pares e da própria banalização do acto criminoso.

O nosso amigo Ben, sujeito relativamente afável e comunicativo, que nos mostra a família e o seu “trabalho” com a naturalidade de um qualquer outro cidadão que faz pela vida, traz a si tudo o que se espera de uma sátira. Tão banal, mas tão diferente. Ensina os seus melhores truques para afundar os corpos no rio, com as devidas proporções tidas em conta; recita poesia; deambula em pensamentos filosóficos e tem uma capacidade obtusa de se divertir com o que ele próprio diz, sempre orgulhoso da sua esperteza e know-how. Narcisismo exponenciado pelo facto de ser o elemento central de um documentário; os limites da vaidade e do ego (avisei ou não que estava cada vez mais actual?).

Ao mesmo tempo, pretende-se ainda mexer com os média e a sua actuação, a sedução do sensacionalismo. No fundo, e em sentido metafórico, os “cúmplices” do que vai mal. Quão longe se vai para obter um conteúdo que agarre as massas – porque não o dia-a-dia de Ben? E até onde se é imparcial? Quando a equipa fica sem financiamento e o próprio “objecto” do documentário se oferece para continuar a pagar os seus minutos de fama; quando se tornam cúmplices – e, mais tarde, co-autores dos mais bárbaros homicídios; quando a violência se entranha até ser apreciada numa vertigem.

Este não é um filme confortável, se assim podemos dizer. A preto e branco; com típico grão na imagem; os solavancos da câmera ao ombro e as sobreposições de personagens em situações inquietantes – tudo contribui para passar, exactamente, esse sentimento de que algo está mal, está errado, ou, pelo menos, a sensação de insegurança. Mas sendo isso que o torna bom, enquanto produto cinematográfico. Arrisco a dizer que há muita vulnerabilidade envolvida, principalmente na personagem central, o que pode parecer antagónico, mas não é. Não pensei que custasse tanto enfrentar “a vida tal como ela é”, como o escritor Nelson Rodrigues tão bem explica. É que, neste filme, até o ridículo, de tão ridículo, se sente mais real.

Qualquer semelhança com a reality TV não será mera coincidência, uma vez que, de facto, “Manual de Instruções para Crimes Banais” acaba por antecipar o fenómeno, alavancando-se no voyeurismo naturalmente presente no ser humano, e potencial espectador. Tudo é gráfico, tudo é demasiado (mas resulta). Não admira, então, que tenha sido vencedor em Cannes, nem que, por outro lado, tenha sido banido na Suécia.

Quanto às críticas, que o referem como demasiado óbvio e simplista, creio que nada seria mais adequado ao caso. Acredito que tenha sido intencional, mais do que acidental.

Ame-se ou odeie-se, o certo é que o controverso “mockumentary” - escrito, dirigido e produzido por Rémy Belvaux, André Bonzel e Benoît Poelvoorde – conquistou o seu lugar nos chamados filmes de culto e, passados 24 anos, continua a ser um murro no estômago para todos os que ousam assisti-lo, talvez um sinal de que o visceral também pode ser útil à reflexão.


Marlene Babo

Sou a Mar, para os amigos. Divorciada do Direito, numa relação séria com a Comunicação. Comunicóloga “meloucómica”, criadora de neologismos em dicionário próprio, com um cão chamado Kafka que me observa - ou apenas ressona - enquanto escrevo. .
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