happy days

"If you don't know where you are currently standing, you're dead."

Marta Bonito Cunha

"Sometimes I am wrong. (Smile.) But not often. (Smile off.) Sometimes all is over, for the day, all done, all said, all ready for the night, and the day not over, far from over, the night not ready, far, far from ready. (Smile.) But not often. (Smile off.)"

O corpo como arquivo - (UNTITLED) (2000) de Tino Sehgal

Pensar o corpo como um arquivo individual e artístico através da peça de dança (UNTITLED) (2000) de Tino Sehgal.
O que guardamos cá dentro?


estátua.jpg Copyright DreamDiscoverItalia.com

não podemos mudar de corpo. podemos mudar a forma como cuidamos dele, podemos retocá-lo, podemos pintá-lo, podemos ignorá-lo, podemos protegê-lo, podemos amá-lo, podemos ultrapassar limites no desejo utópico de o transformar noutro. podemos muita coisa, mas não o podemos deixar. o corpo é a casa que nos calhou e por muita vontade que dê, não podemos simplesmente fazer as malas e mudar de casa.

como é próprio das casas, no corpo habitam inúmeras memórias, quer sejam aqueles gestos quotidianos que aprendemos por repetição, quer sejam imagens e aprendizagens passadas que emergem aparentemente do nada. sabemos exatamente o que fazer quando temos um copo à nossa frente: estendemos a mão, moldamos os dedos e a palma da mão ao copo, pressionamos e trazemos o copo aos lábios. mas quem é que se lembra de ter aprendido pela primeira vez este gesto que fazemos todos os dias?

se nos colocarmos em frente a um espelho e acrescentarmos ao gesto do copo outros, mas sem os objetos ou pessoas correspondentes a cada um, acabamos por construir um pequeno arquivo de gestos quotidianos. se pensarmos que esta pequena sequência coreográfica fosse executada por mais do que uma pessoa, de certeza que teríamos pequenas variações e atualizações dos gestos comuns a todos.

é mais ou menos neste propósito de pensar o corpo como arquivo que o artista Tino Sehgal concebe o solo (UNTITLED) (2000), apresentado recentemente no auditório do Museu de Serralves no Porto (Portugal), nas versões de Andrew Hardwidge, Frank Willens e Boris Charmatz.(UNTITLED) (2000) foi apresentada há quinze anos atrás pelo próprio Tino Sehgal.

a peça é uma viagem pela história da dança do século XX apresentada de um modo teatral, ou melhor, performativo. um corpo nu, no palco também despido de aparato, de um museu de arte contemporânea, as luzes de palco e de público acesas, a ausência de música e uma relação honesta, de visibilidade, entre performer e público. a peça foi apresentada três vezes, por cada um dos performers, separadamente: Andrew Hardwidge dançou às 17h, Frank Willens às 18h e Boris Charmatz às 19h, ao longo de 50 minutos cada. talvez um espectador bastante familiarizado com o universo da dança reconheça muitas das imagens que vão sendo lançadas pelo performer, mas não é necessário esse constante reconhecimento uma vez que a peça vale por si só, é uma evocação do passado em atualização no presente e reinterpretada por cada um dos performers. a sequência é a mesma das três vezes, mas das três vezes vemos coisas diferentes, a relação com o público constrói-se de forma diferente, mais ou menos fria, mais ou menos irónica, mais ou menos poética, mais ou menos violenta, daí o seu caráter performativo.

estamos perante uma relação entre o conceito de arquivo e dança contemporânea, transmitida a uma audiência necessariamente ativa através do dispositivo corpo. não há explicações prévias nem folhas de sala e tudo se constrói a partir do mínimo essencial. voltamos à ideia do corpo como arquivo num duplo sentido: se quando ordenamos os nossos gestos quotidianos, "brincamos" às coreografias, tal como estes performers nos apresentam essa viagem pela dança contemporânea; ao vê-los, sem qualquer outro suporte que não seja o nosso olhar, fazemos também parte dessa organização física do arquivo artístico e da memória cultural através do testemunho e da presença. desta ideia pode-se concluir que, como é óbvio, um arquivo (seja do que for), só é arquivo na medida em que foi organizado segundo uma ou várias perspetivas. assim, um corpo-arquivo-performático, só se torna de facto arquivo dançante quando está na presença de uma nova reorganização do espectador.

Tino Sehgal questiona se a sociedade poderia mover-se, tal como a dança, numa constante sequência de movimentos, interrupções, readaptações e versões. este seu trabalho é conhecido como um museu da dança.

não será cada um de nós um museu efémero e aquoso num mundo que ainda nos é ensinado como firme e determinado, regido pelas ideias intransponíveis de espaço e tempo?


Marta Bonito Cunha

"Sometimes I am wrong. (Smile.) But not often. (Smile off.) Sometimes all is over, for the day, all done, all said, all ready for the night, and the day not over, far from over, the night not ready, far, far from ready. (Smile.) But not often. (Smile off.)".
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