mariamariaalice

Cheia de opinião e não muito articulada. Apaixonada por gatos, relações interpessoais, retratos e geleia de maçã. Amo rock, leio clássicos, mas depois da segunda cerveja danço Backstreet Boys e falo sobre astrologia.

Filtro de Lembranças

Esquecer não é só deixar alguma dor passar. Esquecer é saber continuar enxergando aquilo que em algum momento foi bom, ainda que finito.


O funcionamento da mente e do corpo humano sempre me encantou. Dentro de cada um de nós existe um sistema completo que opera com perfeição, exceto por uma fatalidade qualquer ou ocorrência genética que o impeça. E de tudo que nos compõe, ainda acho que o mais incrível é a memória e nossos pensamentos. Nosso maior instrumento de liberdade, esconderijo de opiniões secretas e devaneios incontrolados. Nossa essência, pura e simples, ali habita. Sem freios ou convenções sociais, sem máscara ou boas aparências. Apenas pensamentos, opiniões e lembranças vagando soltos, construindo quem somos e constituindo nossas personalidades.

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Dia a dia, ano a ano, enchemos nossa cabeça com mais e mais vivências, informações e memórias. Resta ao nosso cérebro se livrar de algumas não tão importantes – ou até mesmo importantes, mas que de alguma forma devem ser descartadas. Tenho reparado faz já algum tempo que a tendência é guardarmos aquilo que foi bom. Mesmo de um trabalho sofrido, a partida de alguém querido, o fim de uma longa relação. Passam-se os anos e, de forma quase inconsciente, optamos por deixar no passado o que nos machucou. Vão-se os amores, as dores, e fica o gosto doce do que foi bom.

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Deixamos ir as discussões sem fundamento, a ausência que imperava no relacionamento já desgastado, os telefonemas recheados de saudade doída. Também se vai o anseio inquieto para um próximo encontro sem previsão de data, o ciúme bobo de uma amiga qualquer, a implicância com o cheiro da acetona.

Depois de um tempo acaba acalmando a irritação incontida com um ex-colega de sala, um professor da faculdade, um chefe meio sem tato. O choro engasgado com a partida de um amigo vira “só” saudade.

Viram passado os filmes nas salas de cinema vazias, as caminhadas pela rua aos domingos de manhã, as piadas sem graça e papos sem compromisso na calada da noite. Os bilhetes passam a morar escondidos na gaveta. Fica para trás o CD com as músicas bonitas, a vida dividida e os registros de um amor. Os dias já não são mais com os colegas de trabalho que eram verdadeiros irmãos, nem existem mais as piadinhas descontraídas no intervalo da faculdade. Às vezes, até morre um pedaço da gente quando mudamos de um lugar para outro, uma cidade para outra.

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Nossas frustrações e angustias, por vezes, se transformam em um sentimento estranho ou até ruim. Tristezas podem virar raiva em algum momento. O afastamento torna-se necessário e até irrecuperável. Mas, no fim, sobra o carinho por quem dividiu com a gente tantos momentos bonitos. Fica uma saudade que já não dói mais, e a gente prefere chamar de nostalgia. Cada dor que vira pretérito é um pouco mais de força que passamos a ter. Os relacionamentos ocasionalmente acabam, mas passados os meses, passada a dor, passado o tornado que remexeu todo nosso coração e espalhou os sentimentos, a calmaria vem. E vem com ela um gosto doce das lembranças filtradas. Dos grãos que valem a pena serem guardados. Do carinho e do querer bem. E sobram dentro da gente todas essas memórias que não morrem nunca, porque vale muito mais a pena pensar no que foi bom – ainda que finito – do que ficar mastigando por anos o gosto amargo de um rancor tão sem propósito.

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Cheia de opinião e não muito articulada. Apaixonada por gatos, relações interpessoais, retratos e geleia de maçã. Amo rock, leio clássicos, mas depois da segunda cerveja danço Backstreet Boys e falo sobre astrologia..
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