mariamariaalice

Cheia de opinião e não muito articulada. Apaixonada por gatos, relações interpessoais, retratos e geleia de maçã. Amo rock, leio clássicos, mas depois da segunda cerveja danço Backstreet Boys e falo sobre astrologia.

Amor ou liberdade?

Qual o preço que pagamos pela liberdade sexual, tão reivindicada pela geração anterior à nossa? Como lidamos com o desapego característico e gritado a alto e bom tom por todos à nossa volta? O que sobra quando deitamos a cabeça no travesseiro, sozinhos, ao final do dia?


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Desde os meus 15 anos ouço minha mãe suspirar que os encantos da liberdade sexual da minha geração custam um preço alto àqueles que são donos de corações sensíveis - os românticos incuráveis. Durante a adolescência, vivendo descobertas diárias, nunca dei muita bola para essas palavras. Achava que eram ideias de alguém que teve uma criação completamente diferente da minha, e viveu em uma sociedade conservadora. Entendia seu ponto, mas pensava que era apenas o olhar de mãe querendo que eu seguisse seus mesmos passos – casamento aos 25, filhos e um emprego bacana.

Afinal, a liberdade sexual foi reivindicada e gritada a plenos pulmões pelos jovens dos anos 60. Quem ousaria reclamar de suas conquistas batalhadas e dos sutiãs queimados pelas feministas? Na minha cabeça isso beirava a ingratidão. E desde que sejamos todos sinceros uns com os outros, não há por que temer. Corações acontecem de se partir, mas essa é apenas a vida seguindo seu curso. Feliz ou infelizmente, faz parte chorar por alguém que não sente o mesmo que nós, e nem todo mundo é obrigado a corresponder aos nossos sentimentos em igual intensidade.

Pena que não nos avisaram que com o combo da liberdade, vem também uma boa porção de enganos e até algumas mentiras. A banalização do sexo fez com que boa parte de nós se torne insensível ao sentimento do outro. Insensível, sem se preocupar com os impactos de nossas palavras e ações. Colocamos a culpa das expectativas alheias naqueles que o sentem, e nos negamos a acreditar que somos responsáveis por qualquer sentimento de outra pessoa. Quem ousaria se apegar tão facilmente em tempos como os nossos?

IMG_1932.JPG Só que existe uma boa parte de nós que mistura, sim, sexo com amor, simplesmente porque essas duas coisas têm tudo a ver uma com a outra! São as mesmas pessoas que esperam uma ligação no dia seguinte, bem como esperam gentileza e consideração daqueles com que se envolvem. Aqueles que criam expectativas. Pessoas que são tratadas como ingênuas por agirem dessa forma. São os que amam de coração aberto, que buscam companhias inteiras e não apenas sentimentos pela metade. Que se sentem sozinhos e não se acham no meio desse "ninguém é de ninguém". Que podem até esconder os sentimentos por vergonha, porque, nos dias de hoje, quem pega não se apega, certo?

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Temos tudo ao nosso alcance. Paixões, beijos, casos de uma noite. Nos apaixonamos perdidamente por longas 24 horas, e depois viramos a página como se nada tivesse acontecido. Falamos de amor, e depois mudamos de ideia como se este fosse um sentimento finito qualquer. Colocamos o ponto final em lindas histórias com uma facilidade gramatical. Temos relacionamentos inteiros no espaço de uma semana. Namoros que terminam com duas pessoas que parecem nem se conhecer. Temos também traições e enganações que já são consideradas normais. Temos casais que se amam e abrem mão de toda uma história depois de uma briga qualquer, e no espaço de alguns dias já estão com novos pares. Temos os desistentes, que se conformam facilmente com o final do sentimento, porque tem sempre alguém novo para amar andando por aí.

Não acho que devemos retroceder nas conquistas, e retornar à criação repressora dos nossos pais ou avós, tampouco acho que devemos ser pessoas que se privam de seus próprios desejos. Mas da mesma forma que acho errado passar vontade de qualquer coisa por medo de como seremos julgados, também acho que a liberdade subiu à cabeça e nos fez criar dentro de nós algo como um egoísmo sentimental, onde só importam as nossas vontades, sem levar em consideração o impacto que isso causa no outro. Somos cada vez mais imediatistas, buscando no outro a perfeição, e a partir do momento que nossas necessidades são sanadas, descartamos automaticamente a pessoa, porque tudo ficou um tanto entediante. E, por outro lado, também as descartamos da mesma forma se nossas expectativas não se atenderem em questão de semanas. Falta persistência, falta permitir-se viver um amor bem grande e repleto de realidades, defeitos, brigas e superações.

Existe um meio termo entre os anos 1920 e 2015. Não sei se os jovens que criaram a cultura do "paz e amor" estariam contentes com o tipo de amor que nós estamos aplicando. Amor é mais que sexo. Amor também é consideração e respeito, é saber cuidar e persistir. E, no final do dia, será que vale a pena poder estar com todo mundo e deitar a cabeça no travesseiro sem estar com ninguém?


mariamariaalice

Cheia de opinião e não muito articulada. Apaixonada por gatos, relações interpessoais, retratos e geleia de maçã. Amo rock, leio clássicos, mas depois da segunda cerveja danço Backstreet Boys e falo sobre astrologia..
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