heteronímia

Uma construção de seres

Cacau Barros

Ariana, estudante de cinema e dona de vários apelidos, acredita que foi abençoada com um grande coração e em contrapartida um pavio bem curto. Sua melhor definição são os excessos

3%: Quando a igualdade é uma ilusão conveniente

"Você acha que está lutando contra todas as injustiças do mundo, e que, destruindo o processo você terá igualdade, mas a verdade é que não existe nem heróis e nem vilões. Nem injustiçados, nem desigualdade. Porque a gente sabe que existe uma única diferença entre as pessoas. As que têm mérito e as que não têm. E ponto."


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3% é a primeira série original Netflix totalmente produzida no Brasil, com 8 episódios, no último dia 25 foi distribuída para 180 países. Muitos já tiveram a oportunidade de conhecer o episódio piloto, feito de forma independente, que está disponível no YouTube desde 2011, e apesar do tema distopia ser comum já há alguns anos sempre chama atenção e gera expectativa.

Com 3% não é diferente, o seriado se passa em uma realidade distópica em algum lugar do Brasil. A maior parte da população mora no Continente (97%), um lugar miserável, e todo cidadão aos 20 anos de idade tem direito de participar do Processo. O Processo é uma seleção que tem como objetivo identificar habilidades e características dos participantes, porém, apenas 3% são considerados qualificados e merecedores de habitar o Maralto, lugar paradisíaco onde há riqueza e não existe crime, violência ou até mesmo injustiças (?!).

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Porém, a série aparentemente vai se perdendo no meio do caminho por tentar mostrar mais os conflitos internos dos personagens do que, de fato, imergir nos mundos apresentados na trama (Continente e Maralto/"lado de lá" e o "lado de cá").

Sempre quando leio ou assisto algo relacionado a distopia costumo pensar que o protagonista da trama sempre será o estado e a forma como ele é governado, já que essa construção é um dos principais pilares para caracterizar uma distopia. Já na construção do personagem que irá protagonizar a trama, por mais tradicional que seja, seguindo os passos criado por Joseph Campbell em "A jornada do Herói", por exemplo, dá rumo a trama e normalmente casa com o contexto, vide "Admirável mundo novo" de Aldous Huxley, mas não é o caso aqui, vale lembrar!

Suspeito que 3% usa um modelo de distopia raso justamente para se aproximar dos dias atuais e fazer não só uma crítica social, mas nos fazer um alerta através da grande metáfora que o seriado pode ser considerado, alerta esse que virá dos questionamentos que ele propõe, principalmente nos episódios finais. A partir disso, também poderíamos entender melhor o desenrolar das provas e as motivações do responsável pelo processo, Ezequiel (João Miguel), nas provas que saem do controle. Nesse caso o processo em si não iria se tratar apenas de um teste de habilidades, mas um observatório das ações do homem, um estudo sobre até onde vai a capacidade do ser humano dentro de uma sociedade quando o foco é atingir seus objetivos. E é aí que começam os questionamentos sobre a tão falada meritocracia, atrelado, claro, aos questionamentos sobre justiça social: Todo mundo que merece tem? Todo mundo que luta para merecer consegue ganhar? Todo mundo que ganha mereceu ganhar? Entre outros...

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Sendo assim ouso dizer que o processo não é cruel como todos que conhecem dizem. O que torna ele cruel são os atos que as pessoas que estão no processo estão dispostas a fazer. Ou seja, no final das contas o processo é um separador de crenças. Pessoas que acreditam que devem fazer tudo para ir para o Maralto e pessoas que não acreditam, que por sua vez, podem, por isso, permanecer no Continente.

Mas, vale lembrar que no final das contas ninguém é vilão e ninguém é bonzinho, que nem sempre aquele que diz lutar pelas injustiças do mundo tem isso como real motivação. E vice versa. Por mais que o seriado mostre um pouco da vida de alguns candidatos antes do processo isso não é suficiente para legitimar os valores morais de cada um. Aliás, é na flexibilidade conveniente desses valores que está o ponto alto dos personagens, apesar do baixo rendimento da maioria das atuações, o espectador algumas vezes concorda e outras vezes repudia o mesmo personagem que pode mudar sua conduta a qualquer momento, construindo assim, perfis mais complexos. São esses contrapontos que fazem a trama evoluir e ganhar profundidade, principalmente nos últimos episódios.

Em resumo, é uma boa série e que vale a pena ter paciência para assistir até o final, quem conseguir será presenteado com a boa perspectiva de que teremos uma segunda temporada mais firme, intrigante, com desfechos e jogos inteligentes e, assim espero, evitando episódios longos demais em questões pouco relevantes. Enfim, que venha a segunda temporada!

Piloto ainda independente postado em 2011:


Cacau Barros

Ariana, estudante de cinema e dona de vários apelidos, acredita que foi abençoada com um grande coração e em contrapartida um pavio bem curto. Sua melhor definição são os excessos.
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