heteronímia

Uma construção de seres

Cacau Barros

Ariana, dona de vários apelidos, acredita que foi abençoada com um grande coração e em contrapartida um pavio bem curto. Sua melhor definição são os excessos.

13 Reasons Why: Não desvie o olhar. Encare, de frente.

"Precisa melhorar. O modo como nos tratamos e cuidamos um do outro. Precisa melhorar de algum jeito." Nó na garganta para uns, ameaça para outros.


13 reasons why é um seriado original Netflix, baseado no livro homônimo escrito por Jay Asher e produzido por Selena Gomez. A atual sensação/polêmica das redes sociais conta com 13 episódios e rumores de uma segunda temporada.

[Alerta Spoilers]

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Entenda melhor

Ao voltar da escola, Clay Jensen encontra na porta de casa um misterioso pacote com seu nome. Dentro, ele descobre várias fitas cassetes. O garoto ouve as gravações e se dá conta de que elas foram feitas por Hannah Baker - uma colega de classe e antiga paquera -, que cometeu suicídio duas semanas atrás. Nas fitas, Hannah explica que existem treze motivos que a levaram à decisão de se matar. Clay é um desses motivos. Agora ele precisa ouvir tudo até o fim para descobrir como contribuiu para esse trágico acontecimento.

É nesse cenário que iremos desenvolver alguns questionamentos. Talvez, ouso dizer, inicialmente, que a síntese de todo seriado esteja resumida na frase em destaque abaixo, dita pelo personagem Clay Jessen lá próximo do final da temporada.

"Precisa melhorar. O modo como nos tratamos e cuidamos um do outro. Precisa melhorar de algum jeito."

Pra tentar explicar por qual motivo acredito nessa síntese vou falar um pouco das minhas considerações.

Muitos vão dizer que a série é uma ode à violência. Uma abordagem irresponsável sobre temas de muita relevância, um cenário que não é comum ao nosso país, mas eu te questiono: Será mesmo?!

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Será que já não chegamos em um nível em que a única saída para gerar empatia é o impacto? Será que a não abordagem de assuntos como o suicídio faz ele realmente viver no campo das hipóteses? Será que não sabemos a dimensão desses fatos justamente pela ausência de informações? Bom, vou deixar vocês pensarem sobre isso, mas já te adianto que comigo, ao assistir 13 reasons why, esses questionamentos foram poucos perto das inúmeras questões que a série me despertou.

A série retrata diversos tipos de violência que estamos sujeitos ao longo da nossa construção de personalidade, ou melhor dizendo, na adolescência. Nos primeiros episódios faz um retrato, acredito que proposital, quase que banal dos motivos que levaram Hannah Baker ao suicídio. Com o caminhar do seriado e consequentemente as ações desenfreadas que envolviam a personagem você entende a razão da banalidade inicial e os porquês que podem nos levar a atos extremos. Para muitos é aí que mora o perigo. Gatilhos. O suicídio é visto como uma opção, passa a ser justificável. Mas sendo realista, sempre foi e sempre será uma opção. Não falar dele não diminui isso, tratar uma suposta motivação sim. Também é aí nesse caso que você percebe outras histórias, Jessica, por exemplo, teve uma prespectiva diferente sobre tudo que passou. Cada personagem terá uma perspectiva alheia ao outro e o importante da série é reconhecer essa questão. Reconhecer que uma realidade omissa, seja de educação, empatia, apoio, família ou amor traz o risco de diversos traumas.

Ainda tentando entender o propósito do seriado percebo que é necessário se isentar de uma opinião (momentaneamente) e demorar mais analisando a construção dos personagens, a necessidade de um roteiro que passe pela realidade de cada um, e consequentemente, até a ausência de alguns personagens podem te falar algo. Você lembra de ter visto os pais do Bryce em algum momento? Pense que isso também pode querer te dizer algo em relação às consequências de uma criação sem regras. A questão maior aqui é que todos descritos ali não são necessariamente vilões ou mocinhos. São pessoas reais, com traumas, vezes oprimido, vezes opressor. São pessoas comuns iguais a mim e a você, construídas através de uma realidade que vai do banal ao cruel, e que claramente, tudo isso traz consequências horríveis e que junto com a falta de limites pode te transformar no suicida ou no estuprador. O futuro de Tyler, após você assistir a cena dele se arrumando para depor, qual pode ser? É pesado.

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É a partir do retrato de cada um em seu âmbito pessoal que eles, os personagens, tentam se destacar/sobreviver no egocêntrico período da adolescência. Eles se perdem entre o limite do aceitável, do abuso e do crime. Clay ao excluir a pasta de pornografia dele optou por uma ação preventiva. Sentiu-se envergonhado. Me pergunto se no caso desses jovens a saída não deveria ter sido preventiva também. Olhar mais para dentro de si mesmo e para dentro do outro com amor, com empatia. Acreditar, como Hannah fazia, no outro ao invés de julga-lo. Se você é da turma dos que diz que o amor não salva, será que não deveríamos ao menos tentar?

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Todos os dias assédio, estupro, machismo, abuso de drogas e tantas outras mazelas são perpetuadas no nosso mundo. Alguns usam a droga como escape para sua própria realidade, outros, além das drogas, usam da opressão para intimidar ou se auto afirmar. Acontece, é real. Já dizia Paulo Freire: "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor". E vejam só, uma frase oriunda de um contexto nacional sendo usada para ilustrar um contexto teoricamente alheio ao nosso país. Isso mesmo, mas esse contexto não tem nada de alheio. A frase se adapta ao seriado por ele falar de temas reais e que não têm fronteiras. Que precisam sim, URGENTEMENTE, serem abordados, e talvez, com cenas que dão a sensação de soco no estômago, why not? Não é empurrando a poeira para d'baixo do tapete que as pessoas irão começar a discutir assuntos tão importantes para o desenvolvimento humano. Já passou a época de acreditar que a lei da assimilaridade (Repetição do ato após a divulgação dele) tem mais força que os próprios casos. O Brasil, por exemplo, é o quarto país latino-americano com o maior crescimento no número de suicídios entre 2000 e 2012, segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS). No intervalo desses anos, foram quase 15 mil suicídios só no Brasil, e o número só cresce. Você ainda acha que não devemos falar sobre isso?

Por fim, ouso afirmar que 13 reasons why não é uma série sobre suicídio, apesar da narrativa vir desse contexto. No desenvolver da história de Hannah Baker, que não encontrou saída, outras histórias vão se desencadeando, outras vidas vão se perdendo. E pasmem, o fim não é necessariamente a morte. Alguns irão, bem vivos, carregar seus traumas ao longo da vida, jorrando fragmentos desses mesmos traumas nos outros. Gerando ao bater de asas de uma borboleta, ainda mais caos e assim sucessivamente. Repito: 13 reasons why não é uma série sobre suicídio é definitivamente uma série sobre omissão.

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“Todos que você conhece estão passando por uma batalha que você não sabe nada a respeito. Seja gentil, sempre.”


Cacau Barros

Ariana, dona de vários apelidos, acredita que foi abençoada com um grande coração e em contrapartida um pavio bem curto. Sua melhor definição são os excessos. .
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