Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo

A Vida Sem Crachá

Como uma alta executiva atravessou uma queda vertiginosa de poder para se recolocar como pessoa num mundo que parece não gostar de insucessos


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Vivemos num mundo em que a maioria das pessoas quer ser vista e reconhecida. O nível de reconhecimento é que varia. Somos bombardeados pelos rostos frequentes daqueles que estampam os espaços revistas e sites de celebridades, que buscaram a fama e dela muito parecem gostar. E, se nos esforçarmos mais um pouco, não será difícil ver também as estrelas que estão por trás de empresas e marcas. São pessoas que, mesmo involuntariamente, acabam notadas pelo papel corporativo que exercem e dele parecem gostar.

Para muitos destes executivos, a divisão entre tempo livre e tempo de trabalho, que deveria ser comum - digamos - entre a maior parte da população economicamente ativa, é uma exceção. Eles parecem de fato encontrar sentido e prazer em suas vidas ao exercer o cargo ou a situação que ocupam numa grande corporação, dentro e fora dela. A pessoa jurídica que representam se adapta facilmente à pessoa física que são. Sabe o que isso significa? Que o papel que exercem embute sentido genuíno às suas vidas pessoais.

A jornalista e empresária Claudia Giudice, de 49 anos, mestre em Comunicação pela Universidade São Paulo, trabalhou por 23 anos na maior editora do Brasil. Era diretora de uma unidade que fora importante na empresa. Foi demitida em agosto de 2014 diante do encolhimento da receita do grupo, certamente pelo compromisso dos acionistas em manter a rentabilidade de outrora em um cenário de retração da mídia impressa. Como o negócio não ia mais tão bem, a lógica do capital não poderia ser diferente: havia que manter o coeficiente de rendimento dos sócios, mesmo diante da necessidade de cortar seus melhores recursos humanos.

A demissão rendeu alguns meses de momentos vertiginosos à jornalista e executiva. Claudia os relata no livro A Vida Sem Crachá, recém lançado no Brasil pela Editora Agir. A fossa em que nadou, o mal-estar que sentiu, o fato de “a terem arrancado a pele”, como diz, traduzem ao leitor o que pode ser a temida dor de uma demissão. Ser desligado, no caso da autora e de muita gente, pode significar reviver uma possível rejeição do passado. Ou seja: para muitos, perder o emprego está além de um problema pragmático de holerite.

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Em tom de mea culpa, a jornalista assume o quanto a persona de seu trabalho, do qual vestia a camisa e que tanto amava, era parte de si ou assim se tornou. A generosidade de Claudia foi abrir a sua história ao nosso mundo competitivo e que tanto julga. É um mundo que nossa identidade e qualidade pessoal estão pautadas pelo olhar do outro. E se o outro não nos vê mais como competentes, inteligentes ou construtivos, nos resta o desemparo ou o desafio de remontar nossa história. No caso da jornalista, constituir-se ao olhar do outro é necessário. E é legítima esta necessidade.

O fascinante do livro é notarmos que levou quase um ano para a autora entender que a parte da sua vida dedicada àquela empresa não foi em vão. Esse extrato de vida compõe sua atual identidade e faz parte da experiência rica de ser o é. Está além do mestrado e do cargo que ocupou. A grandeza do livro está nas entrelinhas. Percebemos durante a leitura que, apesar das mudanças naturais de geração, o jeito que nossa identidade se constrói não muda através do tempo. Miramos na narrativa dominante e nos cercamos de valores e normas da nossa cultura, que tem sido tão severa com aqueles que não se enquadram em seu imperativo de felicidade e sucesso. Tentar se acomodar novamente a este olhar acoplando signos vitoriosos não é fácil e não é para qualquer um, muito menos num contexto em que o novo parece ter mais apelo que o mais experiente.

Ao ser demitida, Claudia relatou sua primeira queda, seu choro, sua raiva, sua indignação. Passado o impacto, reagiu. Tentou se readequar ao mercado em sintonia com sua experiência profissional e formação acadêmica. Atualizou suas redes sociais, principalmente aquela em que todos celebram as profissões e habilidades corporativas, ou, se não, as invejam... Mas em seguida ela nos conta sobre uma segunda queda que veio poucos meses depois. Sua conclusão é que seria ainda mais desafiador se reinventar. Mas era preciso.

A executiva reconhece o quanto se deixou levar pela vida corporativa que a representava. Atribui o engano, como admite, ao amor que tinha pelo espaço, pelas pessoas e pelo seu dia a dia na empresa. Não tinha e-mail pessoal, só usava o contato profissional. Trabalhava por altas horas, abraçava projetos impossíveis, mas ainda assim, lúcida, cuidava vagarosamente de um plano B: uma pousada a Bahia, que foi construída aos poucos e com prazer.

Findo o turbilhão emocional da sua demissão, é talvez na parte mais pragmática do livro que a jornalista nos lembra de termos todos um plano B e dá dicas para estruturá-lo de forma mais planejada. Claudia admite que foi mais intuitiva. Mas a moral de sua história, que não está escrita, não foi entender que foi a pousada, à qual se dedica hoje, que deu contorno à sua vida atual. Claudia é o que é pela possibilidade que teve de escrever sobre si. Sua escrita foi a demarcação de sua história. E foi também um ato de abertura de seus sentimentos para um contexto social carente de exemplos de que é possível sim ter uma experiência frutífera de vida sem crachá. Seu livro valoriza, acima de tudo, os processos de sorte e infortúnios inerentes à história de todos nós. É por isso que toca aqueles que, sobretudo, ainda se permitem serem humanos.

Site recomendado: www.vidasemcracha.com.br


Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo.
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