Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo

Adeus ao Corpo

Le Breton, antropólogo francês, adverte: o contato intenso com o corpo nem sempre é a melhor maneira de validar a nossa existência.


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O entusiasmo mundial pelo Projeto Genoma Humano é grande. Um dos benefícios mais apontados é a alavancada que pode dar à medicina e à ciência. O progresso do estudo possibilitaria ajustes nos genes e a prevenção daquilo que considerarmos ruim ou “a evitar”.

Quando se fala da origem do que é mau para humanidade com pesquisadores do Genoma Humano, eles são categóricos: a matriz está impressa no biológico. Ou no corpo. É ele quem queremos dominar por duas fantasias que talvez não possam ser mapeadas pelas ferramentas da ciência, mas que de fato estão presentes em nosso imaginário. Uma delas é consciente: nos diz que o corpo biológico está cada vez mais disponível ao conhecimento do homem. A outra, inconsciente, busca o resgate das marcas impressas no nosso corpo simbólico como forma de validação da nossa existência particular que, aparentemente, perdemos.

Adeus ao Corpo, escrito pelo antropólogo francês David Le Breton, foi publicado pela primeira vez em 1999, às vésperas da passagem para o século XXI. O livro elabora o processo de retorno ao corpo biológico como forma de resgate da identidade humana. Afinal, uma das tendências que se desenham para a primeira metade deste século em que vivemos é saber administrar e domar o corpo e a mente supostamente perdidos. E as ferramentas hoje disponíveis são muitas: terapias cognitivas, introspectivas ou holísticas, atividades esportivas diversas, conexão mundial com a medicina de diferentes partes do planeta e, como não poderia deixar de constar, a grande marca definidora do apogeu científico: a medicina ocidental e alopática.

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Em capítulos que atravessam o biológico e o simbólico, o antropólogo coloca que o controle da carne, hoje tão almejado, vem do seguinte pensamento acadêmico e científico: comportamento e pensamento são derivados de dados genéticos. Identificá-los minuciosamente seria a condição da ciência humana para um suposto progresso da humanidade. O corpo tornaria-se, assim, mais um instrumento para controle de processos e sentimentos que ainda não temos clareza quanto à melhor forma de lidar.

Por ser um homem da área de humanas, o autor adverte que esta tentativa de resgate ao biológico também é simbólica: sentimos que há processos tangíveis e intangíveis que não dominamos e, por isso, temos a sensação inconsciente de ter perdido nosso corpo. Ao lado da intervenção química e mecânica, Le Breton enumera outras formas de nos certificarmos que o corpo que nos comporta é realmente nosso e é nossa interface e limite entre nós e o outro. A tatuagem, os piercings, a corrida, os esportes de alto impacto ou radicais, a ioga, o sexo, o controle da fertilidade: todas estas são tentativas de resgate das marcas que um dia foram impressas em nossa carne e que constituíram quem somos e os nossos sentimentos. O corpo ativo, saudável, vivo, utilizável - e mesmo o corpo danificado nos atos de auto-destruição - nos remete de volta ao significado do indivíduo que entendemos que somos.

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Este corpo que poderíamos controlar nos dá a ideia dos limites que perdemos num mundo que oferece tantas possibilidades. Se nossa cultura valoriza o fato de a carne dizer quem somos, não surpreende o entusiasmo diante de qualquer possibilidade que podemos ter ainda de manipulá-la a fundo. A interferências nas profundezas do biológico é a interferência em nossos próprios limites. à luz do que consideramos o bem estar ideal: longevidade, eliminação de doenças degenerativas, conhecimento. Para aplacar a angústia, alguns escolhem a religião. Outros escolhem medicamentos. Outros, caminhos terapêuticos. E outros escolhem esta volta ao corpo como identidade e prova real de que, “sim, talvez eu exista”.


Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo.
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