Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo

Deprimido, eu?

O livro O Tempo E O Cão, de Maria Rita Kehl, lança luz sobre um tema tabu: a depressão, que cresce num mundo viciado no excitante encurtamento das durações.


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Na fila do restaurante, se ouvia a seguinte frase: “43 anos… e se dos 40 para os 50 passarem tão rápido como dos 30 para os 40, daqui a pouco estou com o pé na cova”.

O que o cidadão observava é sabido por grande parte da população urbana: vivemos hoje o encurtamento dos momentos. E, para garantir que eles existam, recorremos sobretudo aos registros fotográficos. O que a sabedoria popular desconhece é que essa crença tem fundamento psicanalítico: o tempo não encontra registro na mente pelo fato de ela estar se ocupadando de atividades excitantes, que demandam atenção apenas das estruturas neurais e psíquicas condicionadas a responder de forma rápida à urgência do outro.

Mas quem é esse outro? O outro é a nossa cultura, nosso meio social, composto de leis e valores. Entre os valores atuais, o da eterna felicidade, o do dinheiro e do trabalho como fins em si, e o das recompensas materiais e dos remédios como tampões ideais para o vazio. O lema é, acima de tudo, preencher-se de uma euforia que não permita espaço para a tristeza.

O fenômeno é recente, talvez contemporâneo. Mas vem se desenhando há algumas décadas. Este curto-circuito da velocidade de recompensas estimulantes à qual nos submetemos na tentativa de afastar a tristeza é decupado no livro O Tempo E O Cão - A Realidade das Depressões, obra de Maria Rita Kehl vencedora do Prêmio Jabuti em 2010 como Melhor Livro Brasileiro de Não-Ficção.

Para quem não a conhece, Kehl é, em suas palavras, jornalista, psicanalista e, não menos importante, mãe de Luan e Ana. Com um título que assusta aqueles que não são muito iniciados no universo psi, por incrível que pareça O Tempo E O Cão, apesar de utilizar conceitos da psicanálise, descreve a depressão com olhar antropológico. A linguagem de fácil acesso da autora permite conexão direta com um leitor que quer entender o que está por trás da doença do novo século, tabu na família e no trabalho e perseguida pela medicalização dos sintomas.

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A visão freudiana do deprimido é daquele que não responde è demanda do outro por não ter registro de que, em algum dia, foi importante para alguém. Prefere refugiar-se numa melancolia em busca de um colo materno, certamente porque, quando este colo foi mais necessário, não recebeu a atenção devida. Sabe quando a gente alerta eventualmente para o quão importante é a presença de uma figura materna em uma primeira infância? É exatamente para dar este amparo para que todo ser humano tenha introjetada a coragem para lançar-se ao mundo.

A proposta de Kehl vai além de Freud. A autora observa que a depressão hoje é a recusa em se adequar a um mundo de recompensas pelo simples fato de tudo durante a infância já ter sido antecipado. Ou seja: não houve tempo para o indivíduo elaborar sobre o que deseja, criar sobre o vazio de forma construtiva e sustentável. Restou-lhe ocupar o tempo com recompensas estimulantes, pois assim foi acostumado.

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O deprimido de Kehl opta por não estar inserido num universo de estímulos excitantes. Aproxima-se da visão clássica do melancólico de Freud por não enxergar sentido nas conexões com o social. Sente-se vazio, mas não se encobre com bens de consumo, drogas e experiências excitantes. Porém tampouco busca realizações pessoais mais edificantes. Por isso, este novo depressivo seria o sintoma social mais importante da atualidade: demonstra que nem todo mundo se acalma com shopping, açúcar, jogos ou drogas. Este depressivo não acredita na sucessão das experiências rápidas e mecânicas que fazem o tempo voar. E, a exemplo do melancólico clássico, também não crê na necessidade de se conectar com o outro.

O alerta mais alarmante do livro é a constatação, nas entrelinhas, que uma geração deprimida está hoje fora de contato com o seu desejo íntimo ou seu tempo interior. Com uma vida que não acomoda experiências capazes de provocar registros psíquicos, essa geração apega-se ao êxtase frugal ofertado em todas as esferas sociais, que promove, acima de tudo, o encolhimento da duração. É esse encolhimento que não deixa a marca necessária para termos achado que a vida tem valido a pena ser vivida. E é esse encolhimento que nos faz perceber, nos poucos momentos em que não estamos sendo estimulados, que talvez a vida venha passando rápida demais e vazia de sentido.


Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo.
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