Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo

Gente doida dá trabalho!

O louco é uma expressão escancarada da parte doente do meio em que você vive.


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Você certamente tem a sensação de que convive com gente maluca todo dia. Em casa, no trabalho, na rua: sempre tem gente que, pelo simples fato de você não conseguir prever as ações, ou por não compartilharem dos mesmos valores que os seus, rapidamente ganham rótulo de doidas. E, pelo fato de serem tão diferentes de você, é difícil lidar com elas. Então, confesse: você preferiria que estas pessoas sequer existissem.

Esse modo de pensar vai além de você, indivíduo. Já reparou que, na sua comunidade, há elementos que a maioria concorda que sejam doidos? E se você e outras pessoas partilham de opiniões em comum, é provável que estejam desejando juntos, de forma politicamente incorreta, afastar os malucos do convívio.

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Segundo Michel Foucault, em seu livro A História da Loucura, os loucos, antes de serem entendidos como sintomas da sociedade, são impelidos a serem rapidamente tratados e convertidos. Hoje, por exemplo, uma das coisas que mais nos irrita nos outros é o ócio. Se trabalhar e produzir são os valores máximos do nosso modo de viver, aqueles que não aderem a esta maneira de funcionar nos incomodam. Mendigos, deprimidos e libertinos seriam alguns dos atuais loucos. Afinal, não produzem, não consomem, não seguem normas, não trabalham… Mas dão trabalho!

Na história recente, as instituições que se propunham a tratar destes loucos tinham como meta institucionalizar o sujeito. Mas como colocar alguém no jogo se ele não quer jogar? Se ser louco, aos olhos de nossa cultura, é estar doente, atente-se: o doente não é a exceção da sociedade. Ele é mais uma de suas expressões. Aquilo que podemos denominar de a loucura dos deprimidos, dos libertinos e dos mendigos faz portanto parte da paisagem social. Não é obscenidade.

Lembremos que nossa sociedade também é louca: foi dominada pela teoria evolucionista, com pessoas ou nações mais e menos desenvolvidos. Se na Antiguidade predominava a ideia de que o homem era perfeito e se degenerou, na Contemporaneidade ele veio inacabado e, por isso, precisaria progredir e evoluir. Curar o maluco seria, então, trazê-lo para um melhor estágio na evolução social. Mas a melhor noção que conheço de sanidade é aquela que adverte: doença não é “não produzir”; doença é estar contra o nosso desejo.


Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo.
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