Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo

A megalomania de Pablo Escobar exposta na série Narcos

Como a mãe de Pablo Escobar contribuiu da pior maneira para a fascinante história do homem mais temido da Colômbia, tema da série Narcos, do Netflix.


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Lançada em agosto de 2015, Narcos, série de ficção do Netflix baseada em fatos reais, desponta não só por ter produção, direção e atuação brilhantes, mas também por contar a pesada saga de um dos maiores traficantes do nosso tempo: o megalômano Pablo Escobar. Intercalada por imagens reais, Narcos traz a história de um personagem real e ambíguo, que sonhava ir além do império do tráfico que construiu com o apoio de sua família.

Nascido em Medellin, segunda maior cidade colombiana, Escobar iniciou sua carreira como contrabandista e traficante de maconha. Percebeu que os ganhos poderiam ser muito maiores quando introduziu a cocaína nos Estados Unidos, droga em ascensão na década de 70. Fez tanto dinheiro que foi preciso escondê-lo debaixo da terra, em paredes e móveis falsos. Em 1989, foi apontado pela Forbes como o sétimo homem mais rico do mundo.

Mas Escobar era um homem de poucos luxos. Vestia-se de maneira simples, não dirigia carrões. Tinha casas confortáveis, zoológico particular e gostava de dar o melhor à sua família. Mas expressava melhor sua megalomania de outra maneira. Para ele, era pouco estar por trás de um negócio bilionário. Queria o país aos seus pés, atribuindo a si o título de pai dos pobres ou Robin Hood. Escobar sonhava em ser acolhido pela população geral. Construiu estádios de futebol, melhorou a vida dos bairros pobres de Medellín. Tornou-se deputado federal suplente, mas foi expulso do congresso do Palácio Nariño, em Bogotá. Foi uma situação humilhante, que não deixou passar barato: encomendou o assassinato daquele que o denunciou em público, Rodrigo Lara Bonilla, então Ministro da Justiça.

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Na série, é cristalina a demonstração da atuação da mãe de Pablo e sua influência na constituição psíquica do ditador-terrorista que tornou-se seu filho. Dona Hermilda Escobar era uma aparente boa mãe, avó carinhosa, protetora dos primos de Pablo, quase uma perfeita madre de família. Era devota religiosa, mas também era capaz de encobrir todas as atrocidades do filho e tratar como naturais os assassinatos, os sequestros, as bombas plantadas em Bogotá e os pedidos de Pablo para despistar os investigadores que tentavam enquadrá-lo.

É genial como a série coloca a importância do papel da mãe na formação de Pablo e ressalta sua relação de admiração e celebração das atividades horrendas do filho. Não é o foco principal da série, mas Narcos expõe a origem da falta de senso crítico de Escobar e dá indícios que seus valores e métodos violentos e perigosos são fruto da convivência com uma figura materna que a todo tempo passava as mãos na cabeça de Pablito para que jamais tivesse dúvida de seguir em frente com suas escolhas. Demorou muito para que sua mãe tomasse consciência da gravidade das atividades do filho e colaborar com a polícia para a tentativa de sua captura. A megalomania pode ser considerada uma psicose, pois é um estado constituído desde muito cedo na vida dos indivíduos. É fruto de um investimento materno quase sufocante. Deixa a criança num estado eterno de celebração, tratada como "Sua majestade, o bebê", ainda quando adolescente ou adulta. Se não se estabelece o corte saudável neste amor quase sufocante, torna-se difícil para o ser humano se lançar ao mundo e almejar uma ocupação na sua cultura. O eterno bebê acomoda-se na posição continuamente enamorada pela figura materna. Quando adulto, o megalômano, que não aprendeu o que é a Lei, ressente-se daqueles que dele discordam. Não consegue enxergar-se como um ser humano sujeito aos limites e aos mesmos deveres e direitos de outro semelhante. Não sustenta relações amorosas longevas e, nas situações em que ocupa posições e poder, torna-se o mais puro tirano quando tem à disposição métodos concretos de aniquilação das diferenças. Foi este o caso de tantos ditadores na história da Humanidade, como Hitler, Stálin e Pol Pot. E era este também o caso de Escobar.

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A partir de sua expulsão humilhante do Congresso Nacional, a série elucida o ódio que o traficante passou a nutrir pela sociedade que o rejeitou. Pablo resolve ter o país de joelhos diante de si de forma violenta. A criança pobre que cresceu e tentou se formar em Ciência Política, mas não teve dinheiro para concluir seus estudos, agora tinha recursos suficientes para comprar todos aqueles que estavam à venda. Mas, apesar da história de corrupção que marca a Colômbia, nem todos tinham seu preço. E isso foi devastador para o megalômano. Pablo travou uma luta para manter sua liberdade e fugir da temida extradição aos Estados Unidos, onde pegaria prisão perpétua. Explodiu um avião de passageiros da Avianca em pleno ar para tentar assassinar um presidente irredutível a seus subornos, forjou sua captura e passou um tempo dentro de um presídio que ele próprio construiu como um clube de campo, de onde continuava a exercer seu poder e influência, competindo com o discreto Cartel de Cali - aliás, Cali detestava Pablo pelo fato de ele não se restringir ao universo do narcotráfico. Era grande sua insistência de aceitação nacional e foi duro para ele perceber que nem todos estavam dispostos a lhe engolir. Foi morto numa ação da polícia em Medellín. Seu legado ao crime foi o modelo de exportação de cocaína. Aos filhos, a vergonha do pai e o asilo em Buenos Aires. E à história, uma persona cujo exemplo de comportamento desumano é preciso reprimir.


Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo.
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