Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo

O Lobo da Estepe: sobre os vários EUs que existem em nós

O Lobo da Estepe, romance do alemão Hermann Hesse, é atemporal por tratar de uma condição ainda presente em muitos de nós: a disputa entre dois lados da mente pelo domínio de nossas atitudes e pensamentos.


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Muitos de nós temos a sensação de que viemos de fábrica com um conjunto de vários EUs. A cada momento, ou no percorrer da vida, percebemos que mudamos de personalidade conforme a situação, de forma não necessariamente planejada. Ainda assim, pouco nos abalamos por isso. É o caso, por exemplo, de termos uma atitude formal no trabalho, uma conversa muito casual com o grupo de amigos e uma orientação maternal diante de nossa família. É a vida exigindo que ocupemos de ótima forma todos esses papéis enquanto extraímos do psiquismo as referências e forças para a nossa melhor atuação.

Mas alguns outros de nós temos a nítida sensação de sermos habitados por exatamente dois lados. Nem um, nem três, nem muitos: apenas dois EUs. E estes dois lados não se dividem de acordo com os territórios da vida. Ou seja, não é o caso, por exemplo, de personificarmos um EU no trabalho e outro EU em casa. É diferente. Os dois EUs disputam constantemente qual irá se sobrepor na consciência e tomar as rédeas de nossa atuação em qualquer que seja o território. Aí, acontece que, no trabalho, um dia estamos domesticados, felizes e complacentes. No outro, temos vontade de jogar tudo para o alto e somos ríspidos com os que nos incomodam. Em casa, há dias de paciência para a família e para as atividades do lar. E há outros dias em que almejamos a total solidão dentro de quatro paredes tamanha é a dificuldade de estabelecer espaço para o outro.

O livro O Lobo da Estepe, romance de 1927 do escritor Hermann Hesse, é aclamado até hoje por ser atemporal. E perpassa anos sem envelhecer por falar dessa divisão dos sentimentos que acomete muitos de nós. Isto se chama cisão, o que significa que há uma disputa interna entre nossos EUs para saber qual terá domínio de nossas atitudes diante das demandas da vida.

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Na história do Lobo da Estepe, Harry Haller é um sujeito culto e auto-suficiente. Não acredita nas relações humanas, Despreza as pequenezas da vida burguesa. Não tem vontade de se envolver com ninguém. É um lobo solitário, um niilista que vive na Berlim do início do século XX, e resolve um dia acabar com sua vida diante da dificuldade de enxergar sentido no mundo. Mas é bem neste dia em que resolve se matar que conhece uma mulher que lhe traz lampejos de fé na humanidade. Ao decidir viver e relacionar-se com ela, Harry é então tomado por ataques de pânico e por crises fortes de angústia. Afinal, estava abrindo mão do isolamento e da arrogância defensiva que, diante do que agora experimentava, já não lhe funcionavam mais. O homem onipotente e auto-suficiente virava um menino imaturo ao entender que era mais um ser humano como outro qualquer.

A cisão do EU é este mecanismo dual presente no personagem de Hesse e em muitos de nós. Diante das dificuldades em lidar com a angústia que sentimos ao entender que não somos tão especiais como gostaríamos de ser, é possível que nosso psiquismo estabeleça inconscientemente um corte para, de um lado, negar este desamparo, e do outro, acomodar-lhe. Assim, uma parte nossa pode manter a crença de que somos únicos e especiais, e que nada de mal nos acontecerá: nosso avião não vai cair, nossa sorte será fortuita, nossa vida será tranquila, quiçá especial. Por outro lado, também entendemos que, se não formarmos bons laços e não percebermos que somos tão frágeis como outros seres humanos, não conseguiremos nos sustentar de forma auto-suficiente por muito tempo. É a realização de que temos que engolir muitos sapos. Temos que pegar a mesma fila que todas as outras pessoas para fazer valer nossos direitos. E estamos suscetíveis aos mesmos perigos que os outros e, por isso, precisamos tomar os mesmos cuidados.

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Harry, o lobo solitário de Hermann Hesse, sofridamente abre mão da crença em sua magnitude em função da aposta na vida e na relação com os outros. Sofre uma queda vertiginosa de sua posição defensiva onipotente ao entender o quanto precisava das pessoas. Neste momento, tornou-se fundamental reinventar-se. Era questão de sobrevivência. E, ao conformar-se com o fato de que sua singularidade era tão especial quanto a dos demais seres humanos, passou a escolher os momentos da vida em que, sim, poderia sentir-se único e os outros em que deveria entender que era mais um na multidão. Discriminar de forma objetiva os territórios que mais lhe importavam conquistar o ajudariam a escolher que lado do seu psiquismo iria privilegiar. E, assim, não mais iria se deixar ser dominado pela luta eterna entre dois EUs que não conversam.


Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo.
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