Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo

Pratique o nadismo

Dê um espaço para a sua mente: não leia, não veja TV, não a estimule com nada. Para o neurocientista Andrew Smart, isto é altamente benéfico.


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Que tal não fazer nada nesse fim de semana? Não ler, não meditar, não ver TV, não ouvir música, não assistir a um filme, não interagir com ninguém… Enfim, não fazer nada de verdade. Os praticantes do nadismo, em algumas cidades do mundo, combinam o ato de ir a um parque, levar uma toalha, esticar-se na grama sozinhos e não fazer absolutamente nada. A prática é altamente saudável. E é promovida no livro-manifesto do neurocientista Andrew Smart, Autopilot, publicado em 2013 pela editora americana especializada em livros polêmicos, a OR Books.

Autopilot é simples de ler, além de rápido, divertido e, acima de tudo, criterioso. Smart, que hoje trabalha na Novartis, aponta todos os elementos científicos e positivistas que comprovam que não estimular certas partes do cérebro todo o tempo é muito importante para o desenvolvimento da humanidade. Para simplificar a neurociência do autor: vivemos num mundo altamente estimulante ao córtex pré-frontal. O córtex pré-frontal é a parte do cérebro mais associada às tomadas rápidas de decisão, aos momentos passageiros, à administração dos estímulos com senso de urgência e, também por isso, é a área que menos tem registro de tempo, fruição e conexão com emoções passadas. Sabe quando a gente passa o dia inteiro atendendo a demandas do trabalho, respondendo a mensagens no WhatsApp e tentando dar conta das atividades do dia? Estamos estimulando muito esta região e, por isso, temos a sensação de que o dia voou e mal o sentimos passar. E não é difícil imaginar porque meses, anos e toda a nossa vida voa se acumulamos dias e mais dias vivendo desta forma.

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Já o hipotálamo é a parte do cérebro que se conecta ao passado e a emoções mais profundas. Contém memórias adquiridas na infância que nem sempre sabemos como lidar ou nomear. É a partir delas que temos a conexão com o que imaginamos para o nosso futuro. Pensar o futuro é querer resgatar algo que está bem construído no passado ou que, de alguma forma, sentimos falta por já termos de certa maneira vivido ou desejado. Aconchego, segurança, notoriedade: tudo isto está em conexão com sentimentos mais primitivos que tentam evitar qualquer sensação de desamparo. Acionar o hipotálamo traz a sensação de resgate de quem somos e, por isso, nos dá a sensação mais lenta da passagem de tempo. Não é raro ver executivos, artistas ou amigos buscando introspecção, silêncio, retiros e spas. Muitos deles não sabem o que buscam, mas buscam, no fundo, a marca do tempo de maneira mais profunda e real. Também não é difícil de ouvir, entre eles, os que pularam fora do retiro muito antes do prazo que combinaram consigo para a atividade, tamanha foi a angústia de estar num espaço sem se dedicar a estímulos rápidos dando respostas instantâneas.

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Em 2013, o comediante americano Louis C.K. explicou durante o talk show de Conan O Brian por que não daria celulares para seus filhos, que ainda não estavam nem no colegial. Louis dizia, sabiamente, que seus filhos perderiam a capacidade de empatia se não olhassem os olhos de outros seres humanos quando falassem de emoções. Para ele, como suas crianças iriam entender se o que os outros expressavam era bom ou ruim se não pudessem dar a atenção devida ao ser humano à sua frente por estarem focados numa tela de smartfone? O reconhecimento das emoções no outro é o que nos faz nomear nossas próprias emoções e nos ajuda a nos constituir enquanto indivíduos que podem entender nossa própria maneira de atuar e saber pelo que estamos passando a cada momento, seja ele bom ou ruim.

Entrar em contato com emoções passadas que não tivemos tempo de entender enquanto crianças e, com a nossa história, elaborar, é de fato angustiante. É por isso que é tão interessante praticar o nadismo. Deixar a angústia aparecer não é ruim. O importante é não pulá-la ou querer rapidamente taponá-la, mas, sim, com ajuda, querer saber entendê-la, nomeá-la e conviver da melhor forma com quem você é.

Para saber mais: www.clubedenadismo.com.br


Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. É jornalista, publicitário e psicanalista do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo.
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