homo atlanticus

Homo Atlanticus

Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado.

A luta de Karl Ove Knausgård

Um dia, um escritor, aparentemente perdido, no vazio antes da criação da obra, decide escrever sobre a sua vida. A obra, em seis volumes, de Karl Ove Knausgård, é gigantesca, uma epopeia, não uma saga, à esmagadora dimensão de Proust, consegue a proeza de nunca nos cansar, mas antes de nos surpreender A autobiografia é o seu percurso e a sua própria aprendizagem, e um fresco cultural ainda, da literatura nórdica e de alguma filosofia . O primeiro volume é também o primeiro da sua vida e fala-nos do pai e das marcas indeléveis que lhe deixou.


“Lemos, aprendemos, experimentamos, corrigimos. Então, um dia, chegamos ao ponto em que todas as distâncias necessárias foram determinadas, todos os sistemas necessários foram estabelecidos. É aí que o tempo começa a acelerar. Já não encontra qualquer obstáculo, está tudo determinado, o tempo passa rapidamente pelas nossas vidas, os dias sucedem-se num piscar de olhos, e, antes que nos apercebamos do que está a acontecer, temos quarenta, cinquenta, sessentas anos…O sentido requer conteúdo, o conteúdo requer tempo, o tempo requer resistência.”

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Algo mais impressionantemente próximo da ideia do tempo e da distância que uma análise requer, dos nossos passados, seria difícil conseguir. E algo mais belo, quase impossível.

Um dia, um impulso despoletado por um qualquer estímulo, um filme, uma música, um aroma, um local, uma pessoa, uma palavra, um objecto, um prato favorito ou partilhado, uma roupa que se escolheu nesse dia, um acontecimento ao nosso lado, a conversa na mesa ao lado no café, um pensamento que apenas nos assalta e captura… a memória de um momento que nunca mais regressou, regressa, em força e nos deixa reféns, melhor, órfãos da melhor das memórias, a dos dias que nunca vieram, porque apenas chegaram os que se demoraram muito pouco, foram demasiado escassos, mas seguramente os que, tristemente, levaremos silenciosamente até ao último dos dias.

Sobre isto, sobre a coragem em si mesma, do que se recusara a pensar, do que sempre tivera medo de assumir, a morte do pai que, a um tempo, não o choca, que o alivia, porque o liberta dessa vergonha agrilhoada, sobre a vergonha de assumir a vergonha do pai, por ter sido um alcoólico e pela morte dele, subitamente esperada, sobre uma não assumida frustração de não ter tido essa referência que a maioria de nós tem num pai, escreve Karl Ove Knausgård. Escreve, descobrindo um tema rico, não um novo, mas a sua própria pessoa e as visões e experiências que lhe vão acontecendo. Descobriu-se a ele próprio e a tudo o que tem vivido, como material inesgotável de uma maratona literária.

A escrita translúcida, mas com uma espessura sofrida, de Knausgård, agarra-nos, pelo que ele fez de si e pela mesma razão de não termos feito nós por nós.

Este primeiro livro é uma denúncia. Da sua capacidade narrativa e da sua temporária dificuldade que um dia se inverteu e jorrou e produziu milhares de páginas em seis volumes. Se um dia lhe faltou tema, não lhe escasseou a veia e a coragem. Os pensamentos vertem-se sucessivamente, sobre o que sentiu e viu e é todo um mundo visto de dentro da sua janela pessoal. Derrama pensamentos muito sentidos, profundos, ou magoados por entre descrições luminosas e vivas do que o rodeia. É um terrível e excelente observador de tudo o que o circunda, pessoas e coisas.

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A Morte do Pai, o primeiro dos seis volumes de A Minha Luta, é uma escrita apaixonante de onde menos se podia esperar que viessem sentimentos assim, pela imagem que temos tido do Norte da Europa, terra de frio, tida como de gente fria.

Esta obra é ainda uma viagem a essa Europa antiga e gelada, através da sua descoberta do mundo dos adultos, das primeiras cervejas, os encontros destrambelhados com amigos e as quase, quase namoradas, o desejo da primeira bebedeira, o desapaixonamento pela vocação, fosse pelo que fosse, um sintoma e símbolo geracional, também.

Lança-nos pelas suas memórias dentro, da adolescência inquieta como todas o são afinal, pelas suas descobertas do que pensa de si, do que vê no seu mundo, do que espera de alguém, ou do que já nem espera de nada, nesse tempo, ainda de vidas vividas a grande velocidade.

Yngve, o irmão distante que mais tarde nos reaparece como um dos mais próximos familiares, talvez mesmo o único. A mãe que nem tem quase presença na sua demanda jovem. O pai, central neste primeiro volume, uma sombra indesejada de que se sentia distante a um tempo e, mais tarde, se revela uma memória dolorosa, sofrida por tal distanciamento. Fica-nos a impressão subliminar de que Karl Ove Knausgård não reteve bem a ideia do que o seu próprio pai lhe era efectivamente. No livro, estranhamente, não damos pelos nomes do pai e da mãe.

Começamos assim com a crua e autêntica relação dos vivos com a morte dos outros: “Para o coração a vida é simples: bate enquanto pode. Depois pára”. Logo nas primeiras linhas. Um sinal. A vida terá para Knausgård dois sentidos, ou duas expressões. Esse, da fria verdade biológica. E outro, que mais tarde nos é revelado, em súbitos e inesperados ataques de choro, quando ia a caminho do funeral do pai.

Como se meteu esse homem das terras do frio e do silêncio a escrever sobre si, e desta forma, perguntamo-nos a dado momento. Contando pensamentos e acontecimentos com a coragem que lhe podia trazer tantos dissabores.

Um escritor denuncia-se e não ganha fragilidade, mas ganha admiração pela nudez da sua vida, exposta em tão elegante forma. Será este escritor apenas "um de nós"? Ocorre-nos também o ser... temerário. Que nos pode fazer regressar a um passado, completo, incompleto, a que não queremos regressar, ou a que adoraríamos voltar?

Este homem escreve verdade, de si e dos seus. Assim, a cru. Encarregou-se de decorar os seus factos com a beleza própria e a elegância que serão a sua marca. Desta vez o escritor entra em nós, pela entrada que fazemos nele. Leva-nos às nossas próprias memórias, pela nudez que nos dá das dele. Com a sua filosofia muito própria, as revelações dos seus gostos e das suas antipatias.

Knausgård, o autor que diz que “escrever é ver-se livre da vergonha”, que afirma que “só quem escreve rompendo com os limites do gosto pode forjar uma identidade comum” e que “defende quem escreve o que não deve, não tem de ser ou não pode ser escrito”, conseguiu deixar-nos numa elevada probabilidade de uma espera curiosa sobre os seus próximos volumes a publicar por cá. Pois, ele próprio se meteu a caminho a escrever sobre o que talvez não devesse, ou não tinha de escrever. 9c8f4c3ebc12ebe7575ed30a0bba5498de70dcfc427f8021d9b48fc0ab762786.jpg


Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado..
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