homo atlanticus

Homo Atlanticus

Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado.

A noite das noites

Natal é noite maior e a mais aguardada por mais gente em todo o mundo. É de paz, é de alegrias, é de amor, é de paixão, é de religião. Natal é também de tristeza por quantos se foram e já são apenas memória, boa mas com uma saudade que não tem cura. Ele aí vem de novo e com ele regressam todas as euforias.


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Vem aí o Natal, o momento de felicidade, de família, o momento de angústia e nostalgia e de falta de tanta gente e de falta de família. O momento da presença de todos, em volta de mesas cheias, mesmo em casas vazias. O de ausências vazias, mesmo em casas cheias.

O Natal quando chega une e separa. Antes mesmo de ele vir, uns andam eufóricos, na dimensão mesma da adivinhada angústia de tantos outros. Porque é de presença, de riso, de grandes e belas conversas, de partilhas, mas é-o também da falta que tudo isso faz, a quem já não pode ter, não sabe ter, ou nem mesmo como estar assim, no calor de uma mesa, frente a lareiras fortes, a corações exaltados, a crianças encantadas pelo movimento, as luzes, as músicas e as ansiadas prendas.

Uns criticam o Natal, pelo consumo que ela traz consigo. Outros, pela impossibilidade do mesmo consumo. É assim o Natal, une e separa. Mas é um momento forte.

Anos atrás, em tantos lares de tantas famílias, o Natal juntava os que vinham de longe a casa de família, celebrar isso mesmo, a família e o prazer dela, acima de tudo. Casais felizes e apaixonados tinham um Natal maior, e têm, porque a noite é deles, muito depois de já ser de descanso para todos os outros. Anos atrás, regressavam os de longe e os de perto, em ceias e dias de comida em excesso, de bebida em excesso, risos à farta, histórias ainda por partilhar e esse era o momento da euforia e das histórias, agora em família, nesse calor humano inesquecível. Assim que entravam por casas de famílias, eram os aromas da tradições culinárias, mais o rebuliço de crianças dos que antes haviam chegado, mais os avós velhotes com um sorriso a fazer um esforço mais, por mais um Natal, por mais um ano, antes de se apagar de vez, um dia, entre natais.

Anos depois, os que antes riam, regressavam às mesmas casas, mais cansados, contando as histórias de idas a médicos e hospitais, dos seus divórcios, ou evitavam contar do fim de algum namoro pós-divórcio, que as tristezas nunca resolvidas não devem ter lugar a mesas de Natal de gente que se quer feliz. Gente cansada de lutas, marcada de rugas e de feitios alterados, menos tolerantes e mais impacientes, quase estragavam o Natal, com atitudes e respostas, ensombrando a tez dos avós, exaltando os pais, preocupando irmãos.

Gente só, limitava-se a chorar num silêncio por ninguém mais sentido, pelos Natais de alegrias que pareciam não irem ter fim, pelos Natais em que parecia que tudo se ia desmoronar, pelos problemas carregados até essa noite feliz, com tudo menos felicidade. Gente só pode não querer ter Natal. Pode ser um peso difícil de suportar. Cabelos muito grisalhos, problemas de esqueleto ou de glândulas, finanças pessoais em estado quase insustentável, também existem no Natal, e se uns têm uma fulgorosa noite, outros preferem esquecer que ela exista. E tudo acontece a cada Natal, em todas as noites de Natal, mudando a magia da noite, em noite ensombrada, mais negra do que uma noite escura normal. E, de súbito, numa volta mais do planeta e da vida, o Natal negro renasce com a mesma luz de anos atrás, nas mesmas pessoas e famílias onde antes tudo era negro, mesmo num dia de Natal rico em sol.

Com esta noite regressam memórias de gente feliz de outrora, de lares cheios que não voltam, de tempos de euforia que deixaram de o ser. A saudade existe também e dói e faz parte da mesma noite da alegria e da paz. Os que nos deixaram têm um lugar especial à mesma mesa do que os cá ainda estão. E alguns olhares em volta a cada mesa, podem encontram essa nostalgia, de espaços antes ocupados por quem já não está ali mais. Outros espaços, a outras mesas são promessas de futuro, um regresso em força de novos momentos de felicidade, partilha e paz.

O Natal pode ser uma noite normal, mas nós o fazemos qualquer coisa de muito mais especial. E especial pode ser muito bom, ou ser profundamente triste. Porque especial é tudo o que foge ao normal. O Natal é sempre fora do normal.

Vem aí o Natal e mesmo aos que ele custa, a esperança de ser tão bom quanto outrora, pode renascer. Mesmo aos não religiosos, o Natal pode trazer esse calor de uma grande família, como o ainda mais intenso calor de um grande amor e de uma noite romântica bem mais especial. Porque isso é o que nós fizemos do Natal, um momento para vermos alguém tornado feliz por nós, pouco ou muito, nem que seja apenas um pouquinho mais.

O Natal deste ano também vai haver por paragens onde a guerra ou a fome não permitem paragem. Essa noite de encanto, que nós a fizemos assim, vai estar ainda nas camas de hospital, nos lares de velhos abandonados, tal como nas casas cheias de crianças a correr entre a azáfama de adultos em stress de preparações festivas. Mas devemos lembrar-nos todos que todas as noites são, afinal, assim. As mesmas alegrias e insanáveis tristezas existem todas as noite que não a de Natal. Mas nessa noite tudo ganha uma outra dimensão, para exaltações ou depressões, porque nós assim o quisemos. E só assim pode ser.

Um Feliz Natal, é sempre o que se deve desejar. Apenas porque um desejo só pode ser coisa boa. E para a noite mágica de tantos e mesmo para a triste de outros, o desejo de noite feliz é a única coisa verdadeiramente comum a todos.

A noite de Natal tem tudo dentro de si e provavelmente mais alguma se lhe pode comparar.


Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado..
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