homo atlanticus

Homo Atlanticus

Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado.

O medo e o limite

O medo é o inimigo-antídoto do lado melhor da vida. O risco traz satisfações e prazeres que nunca serão conhecidos por quem sempre procura a segurança e afasta o risco, em tudo o que faz.


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Alguém disse que o medo era um dos piores sentimentos humanos. Gurbaksh Chahal, da Chakal Foundation e fundador e líder de outras empresas, um empreendedor experimentado, escreveu que "tudo o que sempre desejou está do outro lado do medo". No contexto económico, é frequente aceitar-se o risco como parte da definição de negócio, mesmo sem inovação inerente, pois o ambiente de vida de uma empresa terá sempre de levar em conta o que outros decidiram e empreenderam sem que fosse, frequentemente previsível. Mesmo quando o é, os factores não estarão todos no controlo dos agentes envolvidos num sector de mercado.

Mas o medo é inimigo em muitas outras situações. Antes de avançar mais, há que ressalvar que o medo é, tradicional e ancestralmente um dos nossos maiores amigos. Possuímos estruturas cerebrais primitivas que nos alertam para perigos, como a amígdala, no centro e base do nosso órgão principal. Mas assim como o é, o fundamental é termos presente que os alertas activados a nível das estruturas cerebrais mais primordiais, são-no por razões evolutivas, pelas circunstâncias de vida dos primeiros homens, um meio de defesa natural contra os imprevistos que inimigos na luta pela sobrevivência foram gerando.

O medo existe hoje de formas nunca previstas nos primórdios da evolução da nossa espécie, porque o Homem se foi transformando e é hoje bem mais armado de estruturas psicológicas do que alguma vez o foi. As nossas lutas são hoje bem mais a nível mental do que físico. E o medo é outro, ou os medos.

Temos medo em ambiente laboral e, esse hoje começa a tornar-se tão normal, quanto rotineiro perdendo a importância que teve há apenas alguns anos, à medida que a segurança laboral se foi perdendo. Paradoxalmente, as empresas que usaram de estratégias aliadas ao medo começam gradualmente a sentir a necessidade de inversão, com a necessidade de retenção de recursos humanos, de talentos ou de de gente especialmente empenhada, por outra necessidade compatível e complementar da entidade empregadora, a de uma ainda que relativa, segurança pessoal e familiar.

O medo teve um contexto e uma interpretação, provavelmente ainda terá, na dependência de cada contexto, e tem hoje outros. Nas relações amorosas, o medo é, por um lado o que sempre foi, por outro ganhou importância, com a libertação sentimental que as sociedades foram conquistando. Quando antes os casais se prendiam por razões muito mais sociais, e família é uma unidade social, ou de pendor religioso, ou apenas por uma escassa coragem em efectuar mudanças radicais na vida, hoje, cada vez mais a precariedade das relações está presente e o medo da perda de alguém é um factor presente, outrora desprezado.

Mas há outros medos, ou outras razões para sentir insegurança, uma vertente do medo. Há-os em relação ao país e sociedade em que nos inserimos e, por consequência, em relação ao futuro, nosso e dos nossos menos preparados.

Interessa-me aqui deixar a ponta livre de um pensamento sobre a importância do medo na mudança e na reflexão sobre o que nos é importante, ou mesmo absolutamente fundamental. E, ao reflectirmos, talvez concluamos que efectivamente, na mesma linha de raciocínio usado em economia, ou mais particularmente em gestão e negócios, o medo é o lado da decisão que devemos agarrar. Sem medo, provavelmente nos deixamos ficar pelo mais fácil, talvez mediano ou medíocre, talvez muito mais insatisfatório. Pense-se no medo de muitos homens em relação à sua mulher bonita e universalmente assim considerada, mais ainda quando ela for ousada. Pense-se no medo que sentimos no risco tomado por um filho que se muda para outra sociedade, longe de uma (pseudo) protecção familiar. Pense-se no medo associado a inovações, das quais lembro as manipulações genéticas. E no medo, simples, das novas ideias, filosóficas puras, políticas, sociais e religiosas. Neste particular, a religião é, generalizadamente, o bastião da segurança, o anti-medo mais ancestral.

Mas o prazer na vida vem com o recusar o medo, com o arriscar, o que não podemos fazer em tudo na vida, mas devemos fazer em uma ou mais vertentes e situações das nossas vidas.

O lado bom da vida, o mais aliciente e mais enriquecedor está no oposto ao medo. E não é fácil agarrar a coragem e ir determinadamente em frente.

O limite, em diversas circunstâncias, associa-se ao medo, por ser ter frequentemente essa sensação de limite no que não se sabe muito bem o que é, onde está e quando chega. Medo de atingir um certo limite e de se chegar, eventualmente a um ponto sem retorno, é mais vulgar do que se imagina. Mas como não sabemos o que é um limite, embora se mencione com assiduidade, não se percebe bem se já lá se chegou, ou se estamos longe ainda. Sabe-se, demasiadas vezes, querermos fugir desse limite. Ou seja, temos medo dele. Não em tudo, mas em quase tudo. E, novamente, no limite de uma situação se existir um dia, pode estar o nosso máximo prazer ou satisfação. Ou, estrategicamente, o reservamos para posterior momento, mas devia chegar esse dia, ou nunca saberemos se sequer nos aproximamos. E só contrariando medo o poderemos saber. Ou não?


Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado..
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