homo atlanticus

Homo Atlanticus

Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado.

A expressão pública dos afectos

A expressão pública da homossexualidade é ainda dificilmente aceite. Mas a expressão dos afectos em geral, também é condenada, com uma veemência que surpreende, em pleno Século XXI.


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A propósito de uma reportagem na Televisão portuguesa, na SIC, sobre a homossexualidade e a aceitação pela sociedade, pela família e pelo espaço público. A propósito de um tema, que, para a ainda maioria das pessoas, não vem nunca a propósito. A afirmação do amor em aberto, em público.

O programa na SIC era sobre a homossexualidade. E sobre a aceitação ou o moralista e, como tal, rejeição, mais ou menos afirmada de uma sexualidade entre pessoas do mesmo sexo. Interessante a reportagem, mas infelizmente pela negativa. Discutia-se a "coisa" como algo estranho, algo que necessita de esforço da maioria de nós para se "aceitar". Como se se tivesse de aceitar, uma opção, um caminho de alguém. E nem de opção se trata, mas apenas de seguir com naturalidade a sua preferência sexual. E nem isto...explica bem uma forma de viver sentimentos e prazeres, pois não é uma questão de escolha perante o que nos surge na vida. Escolhas fazemos todos, ou aceitamos quando somos escolhidos

A referida reportagem era sobre a aceitação da homossexualidade e sobre a sua expressão, mesmo que tal expressão não difira da equivalente num casal de namorados heterossexual. E, sobre esta vertente da expressão sexual, ou sentimental, melhor dizendo, a aceitação pública é tão difícil, ou uma impossibilidade mesmo, em homo como em heterossexuais. As sociedades tidas como mais evoluídas não conseguem aceitar a simples e natural expressão dos sentimentos, em público. Foram, na reportagem, situações encenadas, com uma mulher que se insurgia e insultava os supostos homossexuais, mas que era uma actriz, e com reacções genuínas de pessoas numa paragem de autocarro. Mas a autenticidade das situações não foi ferida pela montagem do programa. Entendeu-se perfeitamente o incómodo de algumas pessoas, mas bem mais contra a expressão de sentimentos, ou afectos apenas, do que contra a opção sexual.

Na referida reportagem, muitas pessoas se exprimiram contra as "intimidades", literalmente inexistentes, de casais, neste caso, homossexuais. Os intervenientes nesta peça televisiva aceitaram melhor a opção sexual, do que a manifestação pública de afectos e mesmo de afecto manifestamente amoroso.

O que é interessante analisar é não apenas a reacção sobre a homossexualidade, mas a reacção, frequentemente veemente e de forte rejeição ofendida sobre a expressão sentimental em público. E é manifestamente estranho que, em pleno Século XXI, ainda não sejamos capazes de aceitar os afectos em público, mesmo quando em situações coloquiais os defendamos. Os afectos dos outros, a expressão do amor em púbico - e não me refiro à expressão sexual mais ou menos explícita- incomoda muito a generalidade das pessoas. Um dia, como a dita reportagem quase indicava, aceitaremos uma expressão de sentimentos de homossexuais, com muito mais facilidade do que o faremos, e fazemos, em relação a casais heterossexuais.

Somos sociedades estranhas, na nossa expressão social e nas nossas opções e opiniões. Somos sociedades que se recusam a evoluir, num sentido de nos questionarmos sobre o significado do que pensamos, e bem mais do que exprimimos. Somos frequentemente impulsivos, e muito pouco reflectimos sobre nós, ou sobre os outros, e com tremenda facilidade e ligeireza condenamos, com os piores moralismos e as mais excitadas reacções.

Houve um tempo em que a heterossexualidade era crime. Passamos gradualmente por tempos em que ela é suavemente aceite e abertamente discutida e em que mesmo o termo aceitação já constitui um exagero e um despropósito, mas do qual nem nos damos conta.

Estamos a chegar ao tempo em que a homossexualidade é tida como tão natural quanto a eterno expressão sexual. Mas o incómodo público sobre a manifestação de afectos, de sentimentos, do amor... é ainda uma forma normal de rejeição dos outros, dos que deveriam ser admirados e mesmo invejados, ou desejada a sua condição de apaixonados.

A Civilização Ocidental mede-se em vinte e um ciclos de cem anos, mas a humanidade é bem mais antiga. As Civilizações Orientais são tidas como bem mais antigas. Todas elas, porém, parecem ainda querer manter-se bem próximo do momento do seu surgimento, por persistirem na rejeição dos outros na mais nobre expressão humana: o Amor.

Somos estranhos e somos ainda muito retrógrados.


Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado..
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