homo atlanticus

Homo Atlanticus

Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado.

A idade de Adaline

A idade de Adaline, um filme estranho com um segredo que muda a vida de uma mulher, até o momento em que algo surpreendente lhe muda a vida uma segunda vez. Um acontecimento de grande impacto pode mudar a nossa vida, ou mesmo um acontecimento mais normal, mas que nos impele a uma mudança decisiva no que somos até esse momento.


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"A idade de Adaline" é um filme diferente, estranho, mas emotivo e algo de desconcertante. Adaline Bowman é a personagem representada por Blake Lively, num filme realizado por Lee Toland Krueger com desempenho de Michiel Huisman, Harrison Ford, para além da actriz principal.

Uma jovem que nasceu na mudança do século XIX para o século XX sofre um acidente, causado por um surpreendente nevão que lhe provoca um despiste. Fica emersa em água gelada por um tempo, em hipotermia e em morte aparente (catalepsia), até que um (improvável) relâmpago atinge a superfície aquática onde se encontrava e se desencadeia um processo de desfibrilação, o que lhe, segundo o argumento do filme, lhe altera a estrutura do DNA e as suas células pararam de envelhecer nesse preciso momento. Adaline vive, a partir desse momento, sem que se verifique qualquer evidência de idade, após os seus 29 anos, do momento do acidente.

Conhece várias pessoas, amigos e colegas de trabalho e apaixona-se por mais de uma vez, sem poder assumir, nem amizades íntimas, ou muito menos uma relação sentimental, na impossibilidade de revelar o seu segredo e assumir a verdade.

Ao ver este filme, interpretei o essencial do argumento, como a forma de vida em que se vive e persiste escamoteando e verdade aos outros e, pela continuidade e aceitação de nova forma de vida, a si mesma. No fundo, é um filme sobre a resistência à revelação da verdade sobre um segredo. É sobre a impossibilidade de assunção de uma verdade escondida anos e anos, seja a quem for. Se reflectirmos, quase todos temos segredos que não conseguimos assumir, segredos que nos custam, que sabemos não serem aceites pelos outros, ou que apenas assim julgamos.

E vivemos na fuga à revelação da verdade, primeiro a nós próprios, depois a todos, ou quase todos os outros que nos rodeiam. O processo, ou seja, é mais a ausência de um processo, antes sendo a ocultação do mesmo, mas a conservação em recônditos da mente. Podemos viver longos anos sem a consciência plena desse escamoteamento da verdade. As verdades mais escondidas, ou relegadas para um passado que desejamos não reviver, ou alguma verdade sobre a nossa essência, que não é compatível com o meio em que vivemos, ou com a imagem que queremos passar de nós, aos amigos, ao ambiente de trabalho, e mesmo aos mais próximos, como a pessoa das nossas relações sentimentais, ou a toda a família, essas sim podem constituir um problema.

Ou, como acontece com imensas pessoas, mesmo, ou principalmente figuras públicas, há algum lado de nós, da forma de ser, da nossa natureza, ou de algo que fizemos, que sempre queremos nunca se revele. Há mesmo quem se identifique tanto com a falsa imagem criada que nem mais algum dia entenderá a dúvida ou desconfiança de outrem, ou muito menos a aceitará.

O filme de Krueger não tem de ser considerado um grande filme em termos de padrões de realização, de argumento mesmo, ou de direcção de actores. Os filmes não têm sempre de ser uma obra de arte para que alguma mensagem nos alerte para o mundo que conhecemos, para o meio em nosso redor, ou apenas para uma experiência contada por alguém ou lida algures. As mensagens podem até ser subliminares, e serem-no marcantes, em todo o caso.

Entendi este filme com esta mensagem e com a reviravolta que ela surge no mesmo, e que nos pode levar a reflectir em pontos de inflexão ou de viragem na forma de ser de alguém, ou na nossa mesma personalidade. Acredito que todos mudamos, contrariando quem muito diz e insiste que ninguém muda. Já muitos amigos e conhecidos mo disseram assim. Mas a mudança acontece mesmo, por vontade ou de forma bem mais subtil e muito inconsciente. Ela vem com alguma coisa que se torna fundamental ou inevitável na nossa vida. E essa mudança é marcada por algo de profundamente decisivo.

Adaline Bowman foi tocada sentimentalmente por um homem muito especial para ela. Um jovem inteligente e sensível que a cativou. Num primeiro momento ela o rejeitou. Um dado fim de semana com os pais de Ellis (Michiel Huisman) ela conheceu o pai dele William (Harrison Ford), nem mais nem menos do que um antigo apaixonado e alguém que a marcara de forma inesquecível. Logo ao primeiro contacto visual, uma memória antiga despoleta recordações em William e em Adeline, que se identifica como Jenny, uma de tantas identidades que ela usara para não ser reconhecida ou criar algum laço com alguém. As sensações e desconfianças, a par de recordações levam William a estar alerta com tudo o que respeita a Jenny (Adeline). Um acaso, e recordação de um ferimento na mão do tempo do romance dos dois, William e Adeline, leva-o a procurar em antigas fotografias, onde confirma a cicatriz na mão de Jenny, e a confronta-la com a sua revelação, ao que Adeline não resiste mais e se confessa, e ao seu segredo.

O "trigger", esse gatilho que se dispara na nossa mente com um detalhe apenas, pode ser considerado o momento de uma viragem, o momento da verdade.

Pode acontecer-nos, a qualquer um de nós. Um momento fundamental, um acontecimento, ou uma pessoa pode levar-nos a um despoletar de recônditos da mente, um gatilho que pode ser (ou não o ser ainda assim) o instante da viragem, a partir do qual a verdade toda se pode revelar.

Se em algum de nós um processo deste tiver um dia lugar, essa libertação de um ou mais segredos pode ser o Tal momento. A partir dele, a vida toda pode ser diferente e a pessoa, se de alguém se tratar, passar a ser a única que conhece o nosso segredo, e com quem partilhamos algo de muito único. E tornar-se a tal pessoa, essencial, única que nunca teríamos esperado conhecer e ter desencadear em nós essa profunda mudança.

No filme, Adaline tenta uma fuga de Ellis e de todo aquele mundo. Uma fuga mais. Mas logo terminada por um novo acidente, em que o carro que conduzia é abalroado e ela fica em morte aparente uma vez mais. É despertada pelo processo de desfibrilação da equipa médica que a socorre e, no hospital, decide revelar-se e ao seu segredo a Ellis. Definitivamente, passou a ser mortal e a envelhecer como toda a gente.

O momento da verdade pode chegar de muitas formas, ou nunca acontecer. Muitas pessoas vivem toda uma vida de fachada e de mentira, criando de si uma imagem falsa com que os outros a conhecem. Vivem e morrem assim. E nada de especial lhes acontece.


Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado..
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