homo atlanticus

Homo Atlanticus

Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado.

Chega?

Devia haver um dia para cada um de nós dizer "basta" ou "chega", aos conceitos obtusos que nos foram condicionando como humanos pensantes e gente saudável e livre. Mas o dia surge para alguns apenas e esses serão sempre os que tresmalharam do rebanho bem comportado.


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Sempre pensei desta forma: algum dia tem de ser! 

Um dia temos de usar dessa força que nos vem de dizer "chega!" e dar um murro numa mesa. Para nós mesmos. 

Levamos anos com promessas a nós mesmos, com hesitações por relações com outros e problemas com tudo e alguma coisa mais. E "chega!" nunca dizemos, literalmente. Até um dia.

Pode então ser uma música que não ouvíamos há uns tantos, muitos, anos. Pode ser um livro que lemos há tantos anos quantos os que levamos sem ouvir a tal música especial. Ou pode ser alguém que nos tocou tão profundamente em cordas que já nem sabíamos se vibravam e a coragem de pensamentos tantas vezes recusados, ou não totalmente assumidos, assome-nos para não mais nos deixar.

O processo pode ser individual, no que devia ser colectivo, mesmo que essa impossibilidade roce a utopia.

São séculos de memórias e de constrangimentos socialmente induzidos, de proveniência muito em parte religiosa, mas não apenas. O Ocidente reclama-se de ter sido subjugado e condicionado por uma religião grande que se impôs desde Constantino o Imperador, até hoje, sem parar. Mas ela começa a encontrar obstáculos que durante demasiado tempo foram sendo derrubados, pela sua brutalidade. O maior crime de uma religião não está no comportamento a que obriga os seus seguidores, que foram quase a totalidade dos vivos (e parece que dos mortos) no local e sociedade onde se desenvolveu. O maior crime, o crime absolutamente imperdoável, para mim pelo menos, é o do constrangimento do pensamento humano, o de decapar alguma forma de pensar, sequer, que possa divergir do que ela, religião preconiza, e que os mortais crentes não conseguem vislumbrar como um interesse da instituição e atribuem a um deus desconhecido um interesse inexistente.

A Culpa é um fenómeno religioso puro. Existente em todas as religiões, mas muito desenvolvido pela religião de Roma, a Culpa é um dos maiores problemas criados a qualquer mente que ainda tenha ousadias de ser livre e, assim se começa com idades muito tenras a introduzir o conceito, para que sempre nos sintamos em dívida, neste caso sempre com deus. E a Culpa é também um problema psicológico, uma patologia, se também nas ciências da mente tivesse havido a mesma honestidade (que hoje já podemos confirmar).

E com a culpa, vem tanto disparate. Desde os mais “graves”, associados ao prazer humano. O nosso corpo, dotado de zonas mais sensíveis e até ditas erógenas, tem vindo a ser contrariado pela culpa e pela vergonha e castigado pela humilhação e a frustração, quando mesmo pela depressão. O nosso corpo reflecte a punição que damos à nossa mente. E, sim, a religião é grandemente, ou totalmente, responsável.

Não que se defenda uma libertação total dos actos, pela extensão natural da nossa origem animal ou pela defesa, que seria normal e saudável, de seguir a “natureza das coisas”. Teremos sempre de viver em ambiente condicionado, por regras sociais que não se podem ou não se devem questionar apenas por uma vontade de libertação total daquilo que somos de mais espontâneo, ou mais animal. Para além de cada um de nós, há todos os outros. E para além disso, as regras não têm necessariamente de restringir liberdades, mas até permiti-las.

Mas se pensarmos em exemplos que outrora nem mencionar se podiam, e hoje ainda que nada pacíficos, se ouvem crescentemente vozes que gritam o “chega” cada vez com maior frequência, logo entendemos melhor.

Um rapaz não pode gostar de cor-de-rosa, não pode brincar com bonecas, não pode chorar como uma menina (tem de fazer essa aprendizagem estúpida da perda de sensibilidade e de ganho crescente de indiferença e frieza). Um homem, não pode apreciar flores, não pode cuidar de flores, excepto um biólogo especializado. Um homem não deve emocionar-se, muito menos publicamente. E todos devemos ter culpa em alguma coisa, em tanta coisa e senti-la e com ela viver. O pecado é para ser vivido e alimentado, não teremos fuga possível. A nossa remissão está em deus, e só em deus, como dá tanto a jeito à religião, pois claro. E há assuntos que não podem ter remissão perante esse deus implacável, que perdoa um assassino mas nunca uma traição amorosa, ou sequer um divórcio.

Pior do que tudo são as imensas “vergonhas”, os horríveis pecados, relacionados com a vida sexual. Vá lá que hoje já se aceita, mas não se fala, da possibilidade da vida sexual, onde outrora era a actividade de procriação tão só. Mas, mais do que isso é sempre depravação, é taradice, é abominável. Totalmente condenável, já não apenas pela religião de cada um, mas por cada um assim educado por essa religião. Por isso, a monstruosa realidade (realidade, desde que existe Homo sapiens) de sexo em grupo, de pornografia, de qualquer actividade que não o “convencionado” e socialmente aceite. Alguém que faça vida profissional na indústria milionária (como é possível ser milionária e sê-lo no país mais púdico e hipócrita do Mundo, os Estado Unidos?) do sexo, da pornografia, será sempre alguém rejeitado e uma espécie de marginal da sociedade, a mesma que consome essa pornografia nas noites silenciosas em casa, solitariamente ou em companhia, mas sempre com o problema da “culpa” católica agarrado à parte de trás do cérebro.

E continuamos a precisar do dia do “chega” e do murro na mesa. A culpa não aparece nunca associada a crimes financeiros extremamente graves, e nunca um banqueiro milionário que levianamente destrua a sua instituição e a vida dos que confiaram nela e tudo perderam, será colado a uma Culpa sem remissão. Pode até ser condenado, embora aconteça apenas em dois ou três países neste mundo hipócrita, mas a riqueza tudo apaga. Quem tem dinheiro sempre terá o respeito, mesmo que seja bem mais prostituto ou prostituta na sua actividade e profissão, do que um actor ou actriz porno. O dinheiro é sempre igual, mesmo que provenha de branqueamento de capitais, que na origem ou pelo trajecto até ao processo de lavagem tenham provocado morte, miséria ou a literal destruição de muitas vidas, ainda que vegetem algures em parte incerta, sem voz e sem vontade e muito menos sem discernimento, mas sempre com algum merecido sentimento da nobre culpa que a todos nos deve assistir, para abrirmos a porta do reino dos céus.

Um político corrupto está tramado, mas apenas se não tiver as influências necessárias que os árabes descrevem bem como “wasta”, ou dinheiro de origem incerta, ou certamente suja, ou mesmo que seja apenas bem-falante e de bom aspecto. E nesse caso a sua culpa será minorada, face à de alguém sexualmente “promíscuo”.

Durante demasiados anos, o sexo feminino estava muito mais associado à Culpa católica (e árabe) do que os homens. A mulher era, decididamente a tentação, a Culpa personificada. E ninguém se interrogava que ainda que fosse a mulher a tentação, era-o na cabeça dos homens, que assim deviam arcar com uma culpa e castigados por um pecado. Tudo era ridículo, afinal. Sempre o foi. Seria hilariante, não tivesse esta forma de ver o Mundo e regimentá-lo por uma igreja essa sim condenável, destruído a vida a tanta gente.

Todos podíamos ter um dia na vida que fosse o da nossa libertação. Libertação intelectual, libertação de ideias anacrónicas e despropositadas ou, bem pior, de ideias que sempre serviram algum interesse, obscuro ou nada obscuro, mas um interesse que nunca foi o nosso ou dos nossos mais queridos, e que nem sabíamos não o ser. Podíamos, mas não temos. Nem sempre temos. E se não temos nós, não terá a sociedade.

A pornografia continuará a ser um negócio milionário ao qual nenhuma crise atinge, mas que será sempre altamente condenável e até ignorado. O sexo, é coisa para se falar baixinho ou mesmo nos impedirmos de falar. A Finança, como sempre terá poder, pode cometer os maiores crimes, destruindo empregos, vidas e famílias e até políticos e gente de valor, mas o dinheiro tudo justifica e a aura nobre dessa gente, evidentemente de muito baixa estirpe, não será maculada. O mesmo com grandes gestores que tudo acertaram e foram gente maravilhosa e superior até ao dia da desgraça total e a calamidade que provocaram e tudo arrasa. Claro que a maioria de gestores e financeiros, felizmente é gente normal e de trabalho apenas, e não as prima-donas com pés de barro, que um dia caem do topo, mas sempre sem se traumatizarem.

O problema das religiões que alteraram o curso da inteligência humana e, com isso, o desenvolvimento social saudável, não é só deles. O mesmo se passou com ideologias políticas, a pior de todas o marxismo, pela doutrina que tanta força ganhou, nunca nada demonstrou e se constituiu numa religião mais que tanto nega. O marxismo reescreveu a História, facto a facto, condicionou pensamentos e impediu expressão livre de tudo o que não fosse a sua doutrina. Nenhuma outra ideologia o fez tão bem, e muitas nem tentaram.

A humanidade só tem perdido com tudo o que tem sido o decepar de ideias e pensamentos diferentes, de tudo o que for permitir criatividade intelectual e libertação de uma Culpa literalmente inexistente.

E é assim que o dia do “chega” e do murro na mesa só vem para alguns e sempre serão vistos como mais uma marginalidade nas nossas sociedades.


Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado..
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