homo atlanticus

Homo Atlanticus

Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado.

Estereotipar e ajuizar em plena crise emocional: um erro fatal

Em crise emocional, ou em acesa discussão, podemos ter uma tendência para comparações infelizes e fatais, ou seja, para usarmos estereótipos que em nada nos ajudarão e muito poderão prejudicar a solução da crise.


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Permitam-me começar por transcrever um extracto de um grande livro de Andrew Solomon sobre a depressão, “ O demónio da depressão”:

“Não há duas pessoas que tenham uma depressão semelhante. Como sucede com os flocos de neve, as depressões são sempre únicas, baseando-se cada uma nos mesmos princípios essenciais, mas tendo cada uma formas complexas que não se reproduzem. Contudo, os profissionais gostam de agrupar as depressões: bipolar versus unipolar, profunda versus ligeira, traumática versus endógena, breve versus prolongada (...).

Segundo Solomon este processo, que facilita a actividade aos profissionais, tem limitado quer o diagnóstico, quer o tratamento. Mas o ponto, deste texto é outro, embora partindo do tema depressão, porque, por comodidade, a depressão é uma das formas de nos conhecermos, como antes dela não nos conhecíamos, e com uma profundidade útil, mas indesejada.

No entanto, a nossa unicidade é patente em tantas outras atitudes e tantas outras posturas, escolhas e, principalmente, na observação do Mundo. O que quer dizer, dos outros.

Somos únicos, todos. Neste momento, seremos uns 7 biliões de seres únicos a fazermos, consciente ou inconscientemente o mesmo esforço de classificação que é feito em Ciências biológicas, de estabelecimento de chaves de identificação, quer com fundamento em características morfológicas, quer com estabelecimento de padrões de comportamento. Já antes, noutro local, escrevi sobre a estereotipização. Uma comodidade que nos pode trazer imensos contratempos. E todos a usamos, ou abusamos dela. Podemos, sim, fazer o esforço de a vencer, e a desconsiderar, mas há sempre um momento, e milhares de momentos em que estereotipamos, classificamos e nesse processo de ancoragem de tipos de pessoas, nos aproximamos, ou afastamos, nos envolvemos, ou nos antipatizamos.

Concretizando, a nossa dificuldade, ou recusa do esforço, faz com que em momentos de escolha mais difícil, ou em plena crise de emoções, como numa acesa discussão num casal, surgem as comparações, e as comparações são classificações e catalogações em grupos, previamente por nós estabelecidos. Estereotipização. Um erro, por vezes, fatal. Uma atitude pode, assim, ser confundida com um carácter que está já definido num qualquer estereótipo na nossa cabeça preguiçosa e pouco atenta.

Pode ajudar, e tantas vezes é o caso, pelo apelo que fazemos à memória de momentos que não queremos voltar a viver. Mas pode ser o dia, o momento, em que fazemos o tal erro que nunca queríamos ter feito.

Goleman e as suas publicações sobre Inteligência Emocional, resultado também de outras investigações, de Gardner, de Damásio, e Kahneman e outros, alertou para os efeitos do escasso, ou ausente, controlo emocional, em momentos de grande tensão.

As nossas limitações de pensamento e reflexão atida e descomplexada, sem uso de estereótipos perniciosos, para o que refiro, contam os sobre pessoas, como sobre atitudes e comportamentos, são um perigo maior, quando duas pessoas que se amam, e o sabem, se deixam escorregar nas armadilhas de pensamentos e, muito pior, afirmações, nada correspondentes a sentimentos que se desejam incólumes e, provavelmente, eternos. A nossa mente é capaz de criar novos catálogos e grupos de pessoas, e bem assim, de comportamentos, mas a maioria das vezes, deixamo-nos ficar pelos já gastos pre-conceitos e pre-determinados tipos.

A experiência diz-me porém que o maior erro humano, na avaliação dos outros, está na confusão entre comportamentos e caracteres. Entre o que os outros fazem e o que realmente são. Se nós mesmos, com frequência, precisamos de uma forte crise, um depressão mesmo, para nos conhecermos, porque nos darmos à veleidade de ajuizar outros, pelas atitudes, se tantas vezes nada se compaginam com o carácter de quem as tomou?


Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado..
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