homo atlanticus

Homo Atlanticus

Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado.

Pais, filhos e novos relacionamentos

Hoje a sociedade muda todos os dias, por via de divórcios e de novos encontros e relacionamentos amorosos ou outros. Pais e filhos e novos relacionamentos, numa sociedade que sente dificuldades com a tolerância e aceitação de novas relações e novas tensões e formas familiares.


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Desde há uns anos, mais de um decénio, as uniões matrimoniais tradicionais têm vindo a alterar-se com os divórcios crescentes, em países onde uma mão cheia de motivos deixava casais presos numa relação que já nada tinha a ver com a que procuraram e acreditaram no início das suas vidas adultas. Não se trata de analisar as razões, que moralismos forçados podem logo estereotipar. Nesses novos relacionamentos, ou quebra de relacionamentos que foram surgindo, os filhos foram-se encontrando numa nova realidade e as forças entre as três partes, pai, mãe e filhos, têm sido testadas tantas vezes com conflictos, mas quase sempre em clima de tensão. De salientar que muitos casais conseguiram desfazer os seus matrimónios, mantendo um relacionamento cordial entre eles, e ainda conseguindo uma equilibrada relação neste novo triângulo familiar.

Mas nem sempre assim é, ou até arriscaria afirmar que, em geral, assim não tem acontecido.

O factor mais perturbador das novas relações entre gerações, de pais e filhos, tem-se verificado com elevada frequência, como sendo os novos relacionamentos dos progenitores, seja a mãe e o seu novo namorado, seja o pai com a sua namorada. Nem sempre os novos parceiros de pai ou mãe se esforçam por um sempre difícil novo relacionamento, com os filhos que não são os seus filhos naturais. Mas, com frequência, os adultos se esforçam por uma aceitação saudável e natural por parte dos filhos do outro, namorado, namorada ou mesmo novo cônjuge.

Ainda quando os adultos envolvidos se dedicam com extrema cautela a uma aceitação do novo elemento, após um divórcio, mesmo que pacífico, é frequente surgirem tensões e dificuldades por vezes inultrapassáveis por parte dos filhos, face a quem está de entrada numa relação familiar nova. E já o termo familiar é demais para muitos filhos.

Os filhos são, na essência, conservadores. Conservadores tantas vezes pela inconsciente segurança, pela desconfiança ou mesmo pelo ciúme. A sensação de perda de proeminência ou de primazia, é um dos medos de muitos filhos, principalmente quando ainda muito jovens, normalmente numa fase de pré-adolescência. Inconscientemente, pode desenvolver-se uma força nova e uma tensão desafiadora, surgida desse medo de perda de algo na sua relação natural com o pai ou com a mãe que agora encontrou uma outra pessoa e o argumento do tempo para aceitação é o mais ventilado. Algumas vezes é o medo de que os pais falhem num relacionamento que os deixa algo críticos, numa atitude nem sempre entendida, pelos progenitores. Outras vezes, nem o tempo serve de alguma justificação e nunca uma total aceitação é permitida por alguns filhos.

Muitos anos antes, quando os divórcios eram muito raros e com mais elevada frequência condenados social e familiarmente, os pais impunham como com quase tudo o faziam, os novos relacionamentos. A consciência de que um processo natural seria mais saudável, tem levado a generalidade dos progenitores a procurar uma aceitação do companheiro ou companheira, ou mesmo novo cônjuge, num esforço em geral bem conseguido, mas em muitos casos sempre rejeitado.

E se a idade do progenitor for um pouco mais avançada, a aceitação dos filhos pode tornar tudo mais difícil. Quando essa aprovação não era sequer procurada, os novos relacionamentos surgiam e se mantinham ao ritmo da vontade dos adultos. Ao procurarem uma aprovação, os pais vêem-se confrontados com a negação dos filhos, ou de parte deles.

Mas será que existe uma licitude e moral por trás de todas estas novas circunstâncias e relacionamentos?

Será que os filhos têm essa legitimidade de sujeitar um dos pais, ou os dois, a um processo de aprovação, antes inexistente? Onde mudaram as relações de força sociais e familiares?

Na realidade, e ela existe mesmo, os filhos não têm de sujeitar os pais a qualquer processo de aprovação de um novo relacionamento, antes de mais por se tratarem os seus progenitores de adultos, antes de mais por não deverem estes também conduzir os filhos a um processo idêntico e de nunca, praticamente, nos dias actuais, os filhos se deixarem sujeitar a esse processo, quando apresentam um namorado, ou namorada, ou informam que se pretendem casar. Mas ainda mais porque a primeira preocupação de todos deveria sempre ser a de ver os seus pais, e os filhos felizes, numa ginástica relacional que a todos compete dedicarem-se, sempre com o mesmo objectivo: a tranquilidade e felicidade, por vezes em equilíbrio delicado, mas necessário, de todos.

Em boa verdade, os filhos não podem ser juízes dos novos relacionamentos dos pais. E estes, devem, responsavelmente saber fazer as suas escolhas, também tendo em conta a responsabilidade de serem pais. E ainda devem os pais afirmar de forma inequívoca a sua determinação com um novo relacionamento, se esse é o entendimento do novo casal. Mas devem todos saber procurar, com acrescida responsabilidade para os pais, assegurar a mais serena transição para uma nova relação.

Os filhos, por vezes, tecem sentenças de condenação de novos companheiros dos seus progenitores, numa atitude de inversão das antigas famílias e das tradicionais relações.

Porventura, está-se a viver um tempo de transição entre as relações tradicionais mais rígidas, em que progenitores impunham uma vontade numa passível de ser questionada, e as novas famílias onde a procura da compreensão e aceitação de difíceis relações leva à criação de novas tensões e, no extremo a dificuldades inultrapassáveis. Há casos de progenitores que deixam cair algum relacionamento em que os sentimentos estavam totalmente empenhados, a bem de uma manutenção de bom relacionamento com filhos, numa total inversão de valores, em que o desprezo pela felicidade com uma vida renovada nunca é valorizado. Há, efectivamente, perdas irreversíveis de relacionamentos por via destas dificuldades e pelo não entendimento do papel de cada um, pai, mãe e filhos.

O mesmo clima de tensão pode surgir por via de mau entendimento com os outros pais, os de algum, ou dos dois novos companheiros, após um processo de separação e divórcio. E, de novo, por falta de entendimento do papel de cada um e do bem maior que é a felicidade dos envolvidos.

As sociedades sempre viveram tensões deste teor e sempre a mais tradicional ou até retrógrada mentalidade pôs em causa novas oportunidades, em vidas que apenas terminam quando o fim dela surge pela morte de um ou de dois.

Parece que as sociedades ocidentais muito avançaram e, no entanto, todos os dias se vivem tensões e até dramas, totalmente despropositados, pela incompreensão, pelo estabelecimento de braços de ferro ou orgulhos desmesurados, pela defesa de moralismos descabidos e injustos, e sempre cegos ao fundamental, que é a felicidade de quem se escolheu mutuamente, de forma responsável, ou mesmo que de forma menos responsável, mas sempre com o direito que se lhes assiste por de adultos se tratarem. Opinões são um lado, críticas ou condenações são outro lado, que se torna inaceitável para os envolvidos e interessados.

Na súmula de tudo isto, constata-se que há pessoas que sempre estão disponíveis e imediatamente preparadas para a critica alheia, sem olhar a si mesmas, sem olhar a que a manutenção de estados de infelicidade deviam ser a preocupação maior dos elementos de uma família, começando por filhos, mas incluindo os pais, ou seja, os avós.

Mas não podemos deixar de referir que há crianças que denotam uma maturidade invejável e um discernimento que envergonha alguns dos seus familiares supostamente mais sensatos e mais maduros e reflectidos, aceitando e até incentivando os seus progenitores a encontrarem novos relacionamentos e uma nova felicidade.

Por toda esta multiplicidade que hoje se vive, parece que de facto nos encontramos na encruzilhada das novas tendências, que um dia conduzirão eventualmente a uma sociedade mais cordial e mais tolerante, mas os actuais adultos em vidas de transição ainda terão, porventura de viver momentos difíceis e enfrentar da melhor forma que souberem os processos de rejeição ou de condenação injusta ou totalmente inaceitável.

As sociedades mais avançadas sempre defendem a felicidade e bem-estar de todos, mas quando o assunto lhes toca em família, todas as premissas e boas vontades podem cair por terra, e vêm à tona os velhos conceitos gastos, da vergonha, da honra da família, da desnecessidade de procurar novos companheiros ou novos amores, dos tempos e prazos que nada nem ninguém sabem definir o que são e quanto são, das desconfianças sobre a lealdade, das desconfianças sobre a responsabilidade e tantos outros anacronismos, sempre conducentes a uma infelicidade que a poucos, senão aos novos apaixonados interessa. Mesmo o termo paixão e apaixonamento é chocante quer para filhos, quer para pais dos interessados e novos relacionamentos. Uma estranha e injusta relação de forças em sociedades que parecem querer rejeitar a tolerância e o respeito mútuo, ou a preocupação fundamental com o bem-estar e felicidade de tanta gente.

Os tempos actuais ainda serão de transição para essas novas sociedades e os novos encontros terão de saber resistir a processos que roçam as condenações inquisitoriais de há quinhentos anos.


Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado..
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