homo atlanticus

Homo Atlanticus

Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado.

Um amor pela metade?

Como nos devemos sentir e que lições retirar de uma relação que se pretendia ter iniciado e por força alheia a nós mesmos, tudo se ficou pela metade, pelo caminho? Devemos rejeitar uma experiência mal conseguida, ou dela retirar os melhores momentos e a experiência que nos deixou.


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Somos, alguma vez na vida, apanhados numa relação nova, em que os sentimentos são questionados e a nossa primeira confusão residirá na identificação dos mesmos. Se, subitamente, somos abordados, ou se tendemos a nos aproximarmos de alguém, e nos contactos sucessivos nos vamos dando conta de alguma sensação fora das nossas rotinas e dos nossos pensamentos normais, podemos seguir na procura de posteriores contactos, conversas, desenvolvimento de curiosidades e, um dia, nos daremos conta de o pensamento incidir com uma frequência anormal sobre a pessoa objecto da nossa alteração relacional.

O que começou por ser uma empatia, desenvolveu-se em procura de mais momentos e logo se podem começar a levantar as nossas dúvidas da importância que esse alguém pode ter, nesse momento, para nós.

Com a prossecução de contactos um interesse mais forte, uma atracção já estabelecida e a procura de mais momentos em comum deixam a dada altura a sensação de que um enamoramento nos está a acontecer, eventualmente uma paixão a desenvolver-se. Com as sensações e sentimentos em crescente evolução e as ideias a se tornarem pouco a pouco menos claras, queremos entender, queremos estabelecer algum tipo de relacionamento.

A nossa mente diz-nos que nos podemos estar a apaixonar. As nossas sensações físicas deixam-nos antever um novo amor. Mas o amor necessita de uma resposta na mesma nota musical, algo que nos faz vibrar em acorde por simpatia, ou até uma melodia que se vai tocando nas mesmas cordas, com as mesmas notas, compassadamente, em harmonia espontânea e natural. Para ganhar solidez, o amor que se quer dar precisa de receber. É um altruísmo no dar, com a esperança permanente da satisfação do nosso egoísmo saudável. É o que eu chamo o egoísmo necessário, que pede ao outro, uma resposta de valor muito igual.

Pode existir um quase-amor? Ou um amor que é quase correspondido, mas nunca o é completamente? Existem meias medidas e meias soluções para nos sentirmos amados, quando já percebemos que podemos estar a amar, mas falta aquele quase nada para nos confirmar, e esse não chega porque o outro não nos dá?

Sempre pensei que o amor é mesmo um dos sentimentos mais absolutos e que precisa de se alimentar de um egoísmo para conseguir ser altruísta. Um amor existe por completo, na totalidade, ou não chega mesmo a ter vida em si. Um meio-amor, um quase-sentimento de algo tão exigente, não consegue subsistir. Pode manter-se por muito tempo, mas em sofrimento e esse, um dia, se transforma em algo que cria uma rotina de constante conflicto, ou de incompreensão nunca respondida, porque nunca correspondido.

E se não se conseguiu atingir esse patamar de não retorno num amor que deu os primeiros passos, e se um dia nos confrontamos que ele, o amor tão desejado, não encontrou caminho e recuou, porque alguém, um dois dois, também não soube, não percebeu, ou não quis seguir nesse caminho que leva dois e sempre dois, a um novo sítio que só eles conhecem, e que chamam de paixão e esquecimento do mundo em volta, terá alguma coisa valido a pena?

Não vale a pena, pela certa, prosseguir num esforço que um faz e o outro nem entende, nem pretende. Não vale a pena qualquer forçar de uma situação cujo desenvolvimento natural não acontece.

Mas terá valido a pena, em restrospectiva uma relação tentada, um amor que não chegou a ser? Nunca se pode saber se uma relação que se inicia tem caminho para percorrer se ela fica pelo início do mesmo. Não há forma de se reconhecer um amor, se não se tenta esse mesmo amor. Mas ter tentado é sempre importante e deve ser valorizado. Não é coisa vã ou desperdício. Com a vontade de se ter pretendido iniciar uma coisa nova, a que um dia se podia chama de amor, ou mesmo de um grande romance, deu-se um impulso na nossa cabeça e novas facetas de nós mesmos, capacidades e predisposições surgiram, num processo de uma tal importância que não se deve menosprezar. Ninguém sabe ao certo o que pode ter iniciado com uma mudança de atitude que um dia empreendemos. Mas cada passo inovador numa vida deixará marcas que um dia poderemos eventualmente retomar e, quase de certeza, um ensinamento que uma experiência que se ficou por menos do que a metade, que de uma forma ou de outra nos servirá para alguma situação idêntica, que nos venha a surgir. Nisto, as vivências sentimentais não serão muito diferentes de outras quaisquer que impliquem um forte envolvimento emocional.

Há marcas negativas com algo que não tem continuidade. E há-as também positivas. As situações mal conseguidas trazem consigo uma certa, ou uma pesada, frustração. E podem deixar-nos mais cautelosos para situações futuras. Mas a consciência disso mesmo é um dos ensinamentos que a dura realidade nos traz, e se há algo que se deve evitar é o medo de voltar a cair em situações de que não se conhece o desfecho. Pelas mesmas razões anteriormente explicadas, se não se arrisca um caminho, nunca se saberá como ele segue, por onde nos leva e onde poderemos acabar. Positivamente, as situações de grande empenho emocional dão-nos um conhecimento de nós mesmos, como nenhuma outra. E também nos ensinam muito sobre os outros com quem nos relacionamos.

O balanço de uma relação que não teve sucesso não pode ser positivo, mas há que saber guardar os bons momentos como algo que não se teria experienciado se nos tivéssemos deixado, pelo nosso lado, ficar pela metade. Nunca nos devemos arrepender de termos sido sinceros nos nossos sentimentos, pois sem isso não nos teríamos permitido momentos que nos ficam e uma predisposição e preparação para muito que ainda podemos vir a viver.

Do que fica, de um caminho que mal se percorreu, pode haver uma coragem especial para descartar tristezas ou eventuais rancores, e dar uma volta a nós mesmos, mantendo uma cordial relação. Ou, simplesmente, reconhecer que o objecto da nossa dedicação não merece tanto esforço. Mas essa não deve ser a nossa decisão central, mas antes a preocupação connosco mesmos e em juntarmos os restos dos nossos sentimentos e esforços e nos mantermos, com isso, em alerta, pois já mudámos, já outra pessoa somos.

Depois de tudo, nunca esquecer que amores pela metade não existem. O amor só existe na forma total, completa.


Alexandre Bazenga

Português, Engenheiro Agrónomo, em Lisboa. Apaixonado irremediável e doentiamente por Livros e leituras, procurando a cura pela Escrita, num jorro de ideia em busca de disciplina. A Pintura, a Fotografia, a Culinária, e esta dispersão toda dando uma vida rica, preenchida, mas difícil de encaixar no tempo disponível. A Escrita é, definitivamente, um caminho sempre me parecendo em início de caminhada. Uma busca sim, mas, afinal um prazer pessoal com que espero contagiar mais alguém. Se ao menos contribuir um pouco para trazer mais alguém ao amor pela Cultura e Leitura, o esforço foi compensado..
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