Marco Ribeiro

"A vida não é um poema."

Drogas e saúde mental

Drogas, dependência química, criminalidade e sociedade. O que fazer e como lidar com este problema que atinge crianças, jovens e adultos. Como tratar esta doença que atinge família, ceifa vidas e lota hospitais? Afinal existe ou não cura para quem faz uso de álcool e outras drogas?

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Não fazer apologia ao consumo de drogas, mas deixar claro à sociedade que um usuário não é criminoso pelo simples fato de consumir tais substâncias, tem sido um desafio para qualquer profissional que atue neste segmento.

Como profissional da área, vejo que este conceito ainda está bastante difundido na cultura popular e que estes usuários normalmente estigmatizados por aqueles que desconhecem a realidade de um dependente químico. Vejo que adjetivos como marginal, criminoso e bandido são os termos mais difundidos, não somente pela população leiga, mas também por alguns agentes da lei e até mesmo profissionais da saúde, que deveriam no mínimo ter em mente que estes conceitos nem sempre refletem a realidade.

É importante compreender esta relação "drogas x saúde" como uma forma de conscientização e desmistificação. A descriminalização destes usuários é uma das formas coerentes de conscientização da população, já que não há qualquer relação entre descriminalizar quem consome e legalizar o consumo, o que são coisas distintas. Usuários de drogas não são necessariamente criminosos pelo fato de consumir drogas, assim como nem todo criminoso é um usuário de drogas ou dependente químico. Este é um erro grave, confundir estas duas questões.

Em sua grande maioria, dependentes de substâncias química são usuários de substâncias que de alguma forma, tem um quadro de saúde mental instável, abalado por algum tipo de transtorno ou trauma e vêem na droga uma forma de lidar com isso. Há quem faça uso de forma recreativa, mas estes normalmente apresentam um quadro de equilíbrio mental menos grave, não apresentando riscos para si ou aos demais indivíduos à sua volta. Lógico que com o tempo de uso, estes riscos se agravam e mesmo quem não tenha histórico de transtornos, pode vir a desenvolver algum tipo de sequela. Afinal viver por anos sob o efeito de compostos químicos que foram desenvolvidos para atuar diretamente no sistema nervoso central, cérebro, coração, pulmões e demais regiões, certamente terá algum dano.

Quando um profissional atua neste segmento, é importante que ele tenha muito claro o conceito de usuário, bem como o domínio das técnicas necessárias de abordagem, manejo e se necessário, contenção. Além disso, é importante compreender que por tratar-se de vidas humanas, não sendo concebível qualquer tipo de julgamento por parte deste profissional, principalmente no que se refere a atuação junto deste usuário. Cabe ao profissional de saúde mental, reconhecer que cada indivíduo deve ser tratado de forma única e ter seus direitos respeitados, lhe ofertando todas as formas possíveis de tratamento, objetivando não a cura mas sim o que em saúde mental é conhecido como "protagonismo". Ensinar o usuário a ser o protagonista de sua vida.

Diferente do que a maioria pensa, o tratamento dispensado a usuários e dependentes químicos tem como base o aprendizado constante, através de terapia, trabalhos em grupos, oficinas terapêuticas e quando necessário, o uso de medicação específica. Em tese, todo usuário é atendido em centros de apoio psicossociais (CAPS) e lá obter apoio psicossocial, como forma de motivação para reaver seu espaço na sociedade, buscando maneiras de se autogerir, de forma responsável e digna, com foco nos laços afetivos. Desta forma este mesmo usuário não corre o risco de vir a ser um eterno dependente destes centros de apoio, podendo gerir sua vida tranquilamente e em alguns casos até mesmo abandonar de vez tais substâncias.

O problema é que infelizmente nem tudo são flores quando se trata de atendimento a estes usuários. Ao lidar com pessoas, estamos atuando com base na subjetividade e isso impede que qualquer processo seja tratado de forma linear, já que cada indivíduo é singular. É muito comum ouvir de familiares que o tal pessoa é um caso sem solução, pois estes familiares se frustram diante da primeira recaída e acham que este usuário é um caso perdido e com isso deixam de apoiá-lo e consequentemente levar adiante o tratamento.

Pacientes frustrados pela falta de apoio, geralmente tendem a retornar ao vício e isso não está ligado ao fato de querer ou não estar em uso. Alguns destes casos são de pessoas que voltam ao uso não pelo prazer em si, pois na sua grande maioria estes usuários sequer gostam de consumir tais substâncias e o fazem por ser o único dispositivo disponível capaz de amenizar sua frustração. Alguns acabam em situação de rua, justamente pela falta de motivação e por desistir de tudo aquilo que para nós parece tão claro e objetivo. O prazer pela vida e a busca por satisfazer pequenos desejos do cotidiano (higiene, laços afetivos, trabalho, etc.). É importante também esclarecer que ninguém opta por ficar viciado e decide ir morar nas ruas, embaixo de uma marquise. Abrindo mão de todo um histórico de vida e de seus laços afetivos.

Um ponto fundamental deste processo é com relação ao conceito de "droga" e "vício". Já que isso ainda não é um tema bem esclarecido. Isto tem gerado diversas discussões sobre o que de fato é droga e quando esta substância torna-se algo prejudicial. O mesmo ocorre com o conceito de vício, pois assim como a droga, é um conceito um tanto abrangente. Segundo a ANVISA; "Droga - substância ou matéria-prima que tenha a finalidade medicamentosa ou sanitária.", enquanto que Organização Mundial da Saúde (OMS), defende que "é qualquer substância não produzida pelo organismo que tem a propriedade de atuar sobre um ou mais de seus sistemas, produzindo alterações em seu funcionamento.". Com relação ao conceito de vício, que algumas pessoas associam ao ato de consumir ou obter algo, na verdade deriva do latim( "vitium", que significa "falha ou defeito") e que por muitas vezes resume-se a um hábito repetitivo que degenera ou causa algum prejuízo ao "viciado" e aos que com ele convivem. Lembrando que nem toda droga é necessariamente algo que cause malefícios a quem a consuma, afinal para algumas pessoas o café, refrigerante e até mesmo chocolate são considerados droga. Da mesma forma que o vício pode se dar até mesmo dentro do conceito de afetividade (vício em uma pessoa, animal ou bem material).

Um ponto questionável é a forma como algumas pessoas enxergam o consumo de substâncias psicoativas, preferindo defender este consumo, ignorando anos de pesquisa e comprovações de que a maioria delas é prejudicial, mesmo em doses mínimas. É interessante observar que enquanto parte da população prefere manter distância delas, justamente por saber dos efeitos nocivos ou ter tido experiências negativas com familiares, há os que defendam seu uso e liberação, sob a alegação de que estas lhes trazem mais benefícios que prejuízos. O preocupante é ver que esta ideologia não parte somente de usuários leigos, mas de profissionais da área da saúde, pessoas estas que deveriam justamente ser o exemplo, atuando em prol da preservação e integridade destes usuários. Tais profissionais deveriam realizar um trabalho de conscientização, com o intuito de evitar o ingresso no mundo das drogas ou a redução do consumo e até mesmo o abandono, se possível. Mas o que vejo em alguns espaços de trabalho é justamente o oposto. Presenciei em certos locais, profissionais da saúde mental militarem em prol da liberação do consumo de entorpecentes, mesmo sabendo dos riscos a quem justamente não pode ter contato com qualquer tipo de substância, devido ao seu diagnóstico mental.

Não cabe aqui julgar o usuário destas substâncias, já que isto envolve outras questões e não trata-se somente do "querer parar", mas sim da irresponsabilidade por parte destes "profissionais" que mesmo sabendo das graves consequências, a ignoram e justificam o uso, utilizando-se de teorias nem sempre plausíveis, ora justificando, ora fazendo comparação com outras substâncias legais, conforme referenciado anteriormente.

Não podemos ignorar o fato de que a descriminalização é de certa forma algo salutar, já que o ato de descriminalizar o uso, possibilita uma maior compreensão a respeito de quem é o usuário de drogas e de que ele faz parte do processo. O problema é que a liberação do uso, não contempla parte destes usuários. Os paciente portadores de transtorno mental, que em contato com algumas substâncias, tem seu quadro agravado. Este fator deve ser levado em consideração.

Quem já testemunhou pessoas alcoolizadas transtornadas e violentas após ingerir tal substância, sabe do risco iminente. Este é apenas um exemplo, mas que serve de referência para drogas mais pesadas como cocaína, lsd e alguns diazepínicos (quando utilizados de forma recreativa).

Não é uma questão de combater as drogas, mas sim da conscientização de que qualquer tipo de substância que possa alterar o estado de consciência, pode vir a ser o algoz do próprio usuário que tenha algum tipo de transtorno mental. Seja ele severo ou não. Vejo a liberação das drogas não somente como uma forma de incentivo, mas como liberar o volante a uma criança, que pode vir a cometer qualquer ato e consequentemente ser penalizado por isso.

Ao liberar o consumo, incorremos no erro de dar arma para que o usuário aponte para a própria cabeça. Não podemos achar natural que o consumo de algo nocivo, seja tratado como algo natural e inocente, esquecendo de que graças a elas, muitos jovens perdem suas vidas, além de todo o mal que causa não somente para si, mas para toda sua família.

Drogas matam sim, seja de forma direta ou indireta e quando não o fazem, trazem sérios prejuízos físicos e principalmente mentais.

Por um pouco mais de senso crítico e menos senso comum.


Marco Ribeiro

"A vida não é um poema.".
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