Marco Azevedo

"A vida não é um poema."

Drogas e saúde mental

O que fazer e como lidar com um problema que atinge milhares de pessoas ao redor do mundo, ceifa vidas e deixa sequelas? Será que todo usuário é um criminoso em potencial?

Não fazer apologia ao consumo de drogas, mas deixar claro para a sociedade que um usuário nem sempre é um criminoso  em potencial pelo fato de fazer uso de determinada substância, tem sido um desafio para familiares e profissionais da área da saúde mental e que atuam no segmento de álcool e outras drogas.

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Tive a oportunidade de integrar uma dessas equipes e lá presenciar um pouco da realidade vivida por esses profissionais. Como não tinha formação nas áreas de medicina, psicologia ou enfermagem, entrei como técnico e tive que participar de cursos específicos para profissionais do setor de saúde mental.  Participei de dois deles, que para mim deveriam ser obrigatórios a qualquer profissional da área de saúde. Eram cursos oferecidos pela escola pública de saúde do RS e outro pela Universidade Federal de Santa Catarina. Esses cursos tinham como propósito formar acompanhantes terapêuticos [para qualquer área da saúde mental] e redutores de danos, para fins específicos de casos que envolvessem pacientes com dependência química.

Através dessas formações continuadas, estes e outros cursos mais, que tive a oportunidade de aprender um pouco mais sobre o universo das drogas, suas consequências e sobre a importância de saber lidar com pacientes psiquiátricos como um todo. Aprendi diversas abordagens, técnicas e formas de enxergar, abordar e principalmente remanejar estes usuários para que buscassem acompanhamento médico, psicológico e também assistencial, uma vez que vários deles eram moradores de rua em situação de risco iminente por razões diversas.

Havia casos em que esses mesmos usuários, estavam distantes de sua cidade natal e ali encontravam-se por não haver outra alternativa. Eram pessoas que vinham do interior para a capital em busca de oportunidade, assim como pessoas que tiveram uma vida normal, mas que por razões diversas foram parar nas ruas. Sendo que a maioria tinha algum histórico de transtornos mentais, uso de drogas ou ambos.

Cotidianamente, saíamos em equipe para mapear regiões da cidade houvesse grupos de moradores de rua ou mesmo usuários com residência física, mas que ali se reuniam para o consumo de álcool e demais drogas.

Cada indivíduo possuía uma história, que era contada após a primeira abordagem, sempre seguida de desconfiança da parte deles, pois havia o receio de internação compulsória em clínicas de reabilitação, que na sua maioria eram clandestinas e geralmente vinculadas a alguma denominação religiosa.

Esses usuários contavam suas histórias cheias de aventuras, situações de risco, lembranças, saudade e algumas vezes acompanhadas de lágrimas por causa da saudade de um tempo que para eles não voltaria. Todos tinham algo em comum que era o companheirismo. Eventualmente um nos chamava para dar ajuda a um colega que estava passando mal ou que queria internar-se para tratar de algum mal. 

Nosso trabalho era gratificante do ponto de vista da satisfação pessoal, mas bastante complicado sob a questão legal, pois esbarrávamos em diversas questões que por vezes impedia que efetivamente conseguíssemos, por exemplo, uma internação para alguém que estava em crise de abstinência ou mesmo em surto psicótico.  

As práticas cotidianas envolviam o mapeamento de usuários, abordagem, cadastro e a chamada escuta ativa, pela qual levantávamos diversas informações que posteriormente serviriam de base para nossas pesquisas internas e encaminhamento para os órgãos responsáveis. A partir deste levantamento, conseguíamos também localizar familiares, já que muitos deles manifestavam o desejo de retornar às suas cidades natais e ao convívio familiar. Era frequente ouvir deles que a vida não fazia mais sentido e que a morte seria um alento, mas que antes disso, gostariam de voltar para casa, visitar parentes ou mesmo fazer uma ligação só para pedir desculpas, dizer que sentia saudades e que amava a todos.  

Como profissional da área, via que tudo isso era bastante revelador do ponto de vista daquilo que pensava saber a respeito deles. Havia uma dicotomia entre o que eu achava que fosse e o que de fato era ser morador de rua, embora eu tenha crescido em bairro de periferia e lá presenciado diversas situações, jamais tinha convivido com a realidade que era morar nas ruas e precisar adaptar-se a uma sobrevivência repleta de riscos.

Neste universo de pessoas que viraram usuários de drogas e moradores de rua, existem pessoas de todo tipo. De operários sem qualificação ou estudo a doutores em alguma área específica, mas que por razões emocionais ou pelo uso persistente de drogas, acabaram indo para as ruas e lá ficaram.

É fato que eu desconhecia completamente este universo paralelo, até porque não faço uso de drogas e nunca tive familiares envolvidos ao ponto de ir parar nas ruas. Meu conceito a respeito era bem superficial e seguia a mesma visão difundida na cultura popular, dando conta de que estes usuários, normalmente estigmatizados por aqueles que desconhecem a realidade de um dependente químico, muitas vezes eram vistos como animais selvagens e perigosos dos quais precisamos manter uma distância segura. 

Vejo que adjetivos como marginal, criminoso e bandido são os termos mais difundidos, não somente pela população leiga, mas por agentes da lei e mesmo profissionais da saúde, que deveriam no mínimo receber treinamento específico para lidar com casos como este. A sociedade deveria ter em mente que esses conceitos nem sempre refletem a realidade de quem está lá, pois há casos em que há bandidos infiltrados, mas são uma minoria. Esses usuários são um caso de saúde mental e não de competência criminal, pois geralmente desejam sair do vício, mas acabam presos em um círculo de dependência, tentativas frustradas de reestruturação emocional e posterior recaída motivada pelos mesmo motivos de sempre. Falta de tratamento e acompanhamento psiquiátrico e terapêutico.

É fundamental essa relação "drogas x saúde" como forma de conscientização e desmistificação da imagem do usuário como sendo um viciado por opção. Ninguém resolve viciar-se em drogas. A descriminalização destes usuários é uma das formas coerentes de conscientização da população, haja vista que não há qualquer relação entre descriminalizar quem consome e a ideia absurda de legalizar o consumo. São ambas situações distintas e não cabe aqui defender o consumo ou não de drogas, pois isso está acima das questões legais ou morais. 

Outro ponto importante é compreender que usuários de drogas não são necessariamente criminosos pelo fato de consumir alguma substância que os leve a um estado alterado de consciência. Fato é que, quase todos nós consumimos drogas, mesmo sem perceber. Das tantas drogas lícitas, podemos citar o álcool como o mais consumido, depois vem o cigarro e daí por diante. Mas é interessante apontar que nem todo criminoso é um usuário de drogas ou dependente químico, o que derruba de vez a falácia moral sobre a relação entre drogas e criminalidade. 

Em sua maioria, dependentes de substâncias químicas são usuários contumazes de  certas substâncias que, de alguma forma, os levam a buscar ainda mais pelo mesma forma de prazer imediato. O que não dá para desvincular, é a gravidade da situação que envolve esse consumo a quadros de saúde mental instável. Indivíduos que manifestem transtornos mentais, algumas vezes buscam nas drogas uma forma de aplacar certos sintomas, justamente pela falta de um tratamento.

Existem também aqueles que após algum evento traumático, posteriormente enxergam na droga um caminho para libertação. Há quem faça uso de forma recreativa, porém nem sempre apresentarão um quadro de dependência ou de desequilíbrio, dependendo do tipo e da frequência com que utilizam. Pelo menos não a curto prazo, pois as consequências disso em um período prolongado, após anos sob efeito de compostos químicos que foram desenvolvidos para atuar diretamente no sistema nervoso central, cérebro, coração, pulmões e demais regiões, certamente trará danos importantes e muitas vezes irreversíveis.

Não podemos ignorar o fato de que ao descriminalizar o uso, essa ação possibilita uma maior compreensão a respeito de quem é o usuário de drogas e de que ele faz parte do processo. O problema é que a liberação do uso, não contempla parte destes usuários. Pacientes portadores de transtorno mental, quando em contato com algumas substâncias, tem seu quadro agravado. E este fator deve ser levado em consideração.

Quem já testemunhou pessoas alcoolizadas transtornadas e violentas após beberem, sabe do risco iminente. Este é apenas um exemplo que serve de referência para drogas mais pesadas como cocaína, lsd e alguns diazepínicos (quando utilizados de forma recreativa) e outros medicamentos utilizados ilegalmente.

Não se trata de combater drogas, mas de conscientizar a população sobre os prejuízos que qualquer tipo de substância que possa alterar o estado de consciência possa trazer. Vejo na liberação das drogas não somente uma forma de incentivo, mas um jeito burro e irresponsável de lidar com um problema sério, que destitui um indivíduo de sua própria dignidade e o leva mutilar-se e matar para conseguir manter o próprio vício. 

Milhares morrem ao redor do planeta e alguns ficam com sequelas físicas e mentais, então liberar o uso é incorrer no erro de dar arma para que o usuário aponte para a própria cabeça. Não podemos achar natural que o consumo de algo nocivo, seja tratado como natural e inocente. Isto é um retrocesso da racionalidade humana.

Por um pouco mais de senso crítico e menos senso comum.


Marco Azevedo

"A vida não é um poema.".
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