Marco Ribeiro

"A vida não é um poema."

Sobre a felicidade

Ser ou não ser, ter ou não ter. O fato é que ser feliz hoje é quase uma obrigação e quem não se diz feliz, não é aceito, já que segundo o senso comum, felicidade é algo possível e todos temos este direito.

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Em tempos de internet, ser feliz tornou-se um objetivo. Paradoxalmente, a felicidade veio como o elixir da vida, atrelada a velha ideia da fonte da juventude e da busca incessante pela sanidade mental. Antigamente o conceito de felicidade estava centrado na ideia daquilo que hoje é culturalmente aceito como minimalismo, ou "menos é mais" e qualquer sujeito era considerado feliz por ter uma família, um lar, um emprego e comida.

Hoje a felicidade está direcionada especificamente para os bens de consumo, não limitando-se ao ato do consumismo, mas também do exibicionismo narcisista que é peculiar a cada um de nós. Não nos basta conquistar alguma coisa, temos uma necessidade mórbida e quase obrigatória de anunciar ao mundo que conquistamos o tão sonhado objeto de desejo. Não satisfeitos com a aquisição destes bens, precisamos esfregar na cara alheia nossas conquistas publicando em redes sociais cada uma delas.

Usamos do recurso outrora nostálgico da fotografia, obtidas hoje através dos mais caros celulares pagos à prestação (no plano pré-pago) com o objetivo de ostentar de uma forma pouco sutil, humilhar e esfregar no rosto alheio nossas conquistas. Ser feliz hoje é sinônimo de ter e não simplesmente ser. Não cabe em nosso egocentrismo faraônico, ser alguém dotado de qualidades, precisamos mostrar ao mundo que somos lindos, maravilhosos e perfeitos. Da mesma forma, precisamos acumular milhares de amigos espalhados pelas mais diversas redes sociais e ainda afirmar para o mundo que temos esta quantidade enorme de pessoas em nossa lista.

Também temos a obrigação quase religiosa de ostentar corpos sarados por meio de academias e modalidades esportivas da moda, bem como aliado ao alto consumo de proteínas, poucos carboidratos e tudo isso com direito a fotos de todas as refeições, das pausas entre os exercícios e principalmente dos suplementos alimentares que compramos, afim de acelerar o processo de aumento da massa muscular. O interessante é que até hoje não vi sequer uma pessoa postando fotos do próprio cocô, fazendo pose, joinha ou bico de pato ao lado de sua criação mais íntima e verdadeira.

No universo perfeito e sincero da internet, todos somos felizes e frequentemente vemos manifestações de afeto explícito e melancólico, dignos de um romance filmado em monocromático e cheirando a naftalina. O nível de sinceridade é tamanho, que frequentemente vemos declarações de amor eterno, com duração de aproximadamente um ano. Neste mundo fictício, existe ainda espaço para casos de sucesso, como amizades verdadeiramente sinceras e histórias de amizade que converteram-se em namoro ou casamento.

Segundo definições filosóficas, a felicidade é baseada na ideia um instante de prazer por si só. Dito isso, acrescento ainda que não há fórmulas mágicas e que ser feliz é algo subjetivo e difícil de mensurar, já que estes critérios não obedecem um ordem específica. Esta aleatoriedade é exatamente o que nos torna únicos.

Da mesma forma que é impossível ser feliz em tempo integral, não cabe a nós julgar a felicidade alheia, já que aquilo que para nós é motivo de prazer e deleite, para outros pode soar como um grande absurdo e totalmente desnecessário. Somos felizes de acordo com nossas conquistas e deixamos de ser a medida que estes objetivos são alcançados e nos vemos novamente frustrados com a ideia da monotonia. Desta maneira, partimos em seguida em busca de novas possibilidades de obtenção de prazer e aí se resume nossa felicidade. Uma busca constante por aquilo que não temos, mas que deixamos de gostar tão logo o obtemos. Uma espécie de código binário, ou um botão de "liga/desliga".


Marco Ribeiro

"A vida não é um poema.".
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