Marco Ribeiro

"A vida não é um poema."

Sobre o conceito de felicidade

Em um mundo no qual o politicamente correto anda de braços dados com a ideia de liberdade e felicidade goela à baixo, é importante compreender o que de fato é a felicidade.

Thumbnail image for happy.jpg

O conceito de felicidade é relativo e está associado à capacidade com a qual cada indivíduo enxerga e administra seus prazeres momentâneos. Não há regra específica ou manual definitivo a respeito do assunto e qualquer tentativa a respeito não passa de mera presunção ou especulação.

Embora haja o temor de que a infelicidade corrobore para o desastre nas relações ou projetos de vida. Isso não passa de mito, pois existe diferença entre ‘ser’ e ‘estar’ feliz e há muita especulação sobre essas tais regras de conduta que definem o ser humano perfeito e feliz.

Por mais que certas correntes intencionem utilizar a ideia de felicidade como forma de incutir na mente alheia um ideal de felicidade plena, seja por meio de metodologias de caráter duvidoso ou discursos fervorosos sobre mudanças imediatas, tudo não passa de especulação e marketing voltado para a venda de livros e ingressos para grandes espetáculos, onde o protagonista apresenta-se como aquele cara que foi do lixo para o luxo, graças ao milagre da sua fórmula única de sucesso. Efeito placebo.

Isso soa familiar?

A ideia de um sistema revolucionário, gerador de seres humanos perfeitos com base no discurso do sucesso, serve somente para vender palestras, livros e criar uma geração de futuros indivíduos frustrados pelos repetidos fracassos e a certeza de que se dinheiro foi jogado no lixo.

O erro dessas fórmulas de sucesso imediato, é que são criadas justamente para vender produtos, não para desenvolver potencialidades reais. Note que por trás de todo discurso motivacional, há uma doutrinação a respeito de “felicidade e motivação” a todo custo e que tal sentimento deve ser cultivado como uma doutrina quase religiosa, detentora de poder absoluto e capacidade de transformação milagrosa e quase divina.

Defender a felicidade plena sem mensurar outros fatores importantes, soa leviano e obviamente oportunista, pois induz ao erro e não leva em conta outros fatores importantes que contribuem para a frustração de cada indivíduo. Me refiro a transtornos e outros tipos de desordens mentais que devem ser diagnosticados e tratados por profissionais de saúde mental. Não por palestrantes, gurus modernos ou escritores de livros de autoajuda.

Existe um abismo entre as ideias de SER e ESTAR feliz, além de um equívoco por parte de quem defende com unhas e dentes a ideologia de uma vida plena e ininterrupta de felicidade. Como se de uma cornucópia de prazer e plenitude, brotasse felicidade eterna e ininterrupta.

Se partirmos do pressuposto linguístico, tal tese cai por terra tão logo se analise a palavra ‘felicidade’. Seu significado faz referência a um estado de bem estar, prazer e plenitude e não uma condição constante e inalterada. Além disso, ao utilizarmos ‘ser’ ou estar’ antes de felicidade, daremos significados distintos já que ambas desempenham função distinta e antagônica na frase.

Ser feliz é diferente de estar feliz, pois enquanto uma define um sentimento momentâneo de prazer, a outra nos leva a um posicionamento diferenciado, com base no princípio de que nós humanos vivemos em constante gozo das plenitudes da vida. Uma utopia.

Normalmente estamos felizes por algo que nos propicie prazer momentâneo e este prazer tem prazo de validade. Se temos sede, bebemos água, quando sentimos fome, comemos e assim se completa o ciclo de satisfação pessoal. Porém, este prazer dura somente um período específico de tempo, pois logo precisaremos suprir novamente tais necessidades. Ninguém come ou bebe em tempo integral. Nem mesmo quem sofra de distúrbios alimentares.

Utilizando tal analogia, é possível perceber que é humanamente impossível alguém ser feliz o tempo todo. Caso fosse, certamente o indivíduo sofreria com crises de ansiedade e quadros de euforia que o levariam ao hospital ou talvez a um infarto fulminante.

E para quem achou até aqui que tal informação foi frustrante, entenda que não há nada de errado nisso ou motivos para sentir-se frustrado. A boa notícia é de que felizmente a vida é feita de momentos únicos e graças a isso temos a possibilidade de experimentarmos as mais diversas sensações ao longo da vida. Do contrário, amargaríamos uma vida entediante e sem propósito.

É importante compreender que nossa existência é marcada por estímulos diversos. Somos um caldeirão de emoções e experimentamos os mais diversos sentimentos. Somos os únicos capazes de chorar de alegria ou tristeza, rir de alegria ou nervosismo, irritar-se por motivos variados, nutrirmos amor e ódio pela mesma pessoa, odiar algo ou alguém, sentir saudade de pessoas ou momentos ou viajar de olhos fechado aos som de uma música que nos cause boas sensações ou lembranças..

Contudo, ainda conseguimos administrar tudo isso de um jeito singular afim de tirar proveito de cada momento e construir uma história de vida baseada em vivências. E justamente por meio de tais vivências nos tornamos eternos construtores, que a cada dia adiciona uma nova etapa a esta grandiosa obra que é ser um humano e ter consciência da própria existência.

No fim das constas, acaba por se tornar irrelevante o fato da felicidade ser ou não verdadeira, pois isso talvez seja perda de tempo para alguns, já que o tempo desperdiçado ao monitor nossos sentimentos de maneira crítica, bem poderia ser direcionado para outras atividades interessantes e úteis.

É desnecessário — se você não for um estudioso da área — avaliar cada detalhe teórico a respeito do que sentimos ou experimentamos. Devemos sentir em vez de conjecturar a respeito, pois o que nos mantém de pé é justamente a capacidade que temos em lidar com as dificuldades e superá-las quando necessário.

Não ser coadjuvante da própria existência e sim protagonista é importante, pois somos seres autônomos e dispomos de capacidade à altura para decidir até onde queremos chegar e quais ferramentas utilizaremos para este fim. Questão de aprendizado.

Nosso desejo de viver uma vida de plenitude e a consciência de que somos livres para pensar, são nossas fontes de energia e a receita para uma vida de realizações e se algo for motivo de alegria, lhe impulsionará a sair da inércia. Levantar da cama diariamente disposto a arregaçar as mangas e executar projetos de vida não é nenhuma novidade ou milagre. Faz parte da essência humana.

Talvez você não consiga ser feliz o tempo todo, mas certamente terá a oportunidade de experimentar as mais variadas emoções e prazeres possíveis e no fim de tudo, terá excelentes lembranças de cada um desses momentos únicos.

Você é o único responsável pela vida que tem e não seria justo deixar que outros tomem o controle das rédeas de sua existência.

Pense nisso!


Marco Ribeiro

"A vida não é um poema.".
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/Comportamento// //Marco Ribeiro