Marco Ribeiro

"A vida não é um poema."

Uma reflexão sobre o tempo

Vivemos como escravos do tempo, mas será que sabemos o que isso significa?


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Você acorda pela manhã, olha o relógio, pisca algumas vezes para enxergar corretamente e dá-se conta de que está atrasado para o trabalho. Mas por milésimos de segundo ignora o fato e fecha novamente os olhos e eis que como em uma erupção vulcânica e com o coração quase saindo pela garganta, você levanta rapidamente, sai pela casa calçando um pé de meia ao mesmo tempo em que veste a roupa, escova os dentes e se sobrar tempo, engole o café da manhã e sai em disparada para não perder o horário.

Em um dia qualquer de trabalho, seu chefe lhe pergunta sobre aquele projeto com prazo definido, escrito em um vidro da divisória da sala de reuniões e seu local de trabalho e o qual você invariavelmente olha diariamente, mas você como bom procrastinador, deixa de lado e pensa: “Depois resolvo isso!”, para só então perceber que não existe depois, já que o prazo estoura hoje e você precisa se virar para apresentar algo. O mesmo ocorre durante a faculdade, quando deixamos para os 45 minutos do segundo tempo a apresentação de trabalhos ou do trabalho de conclusão.

Seus amigos, familiares ou colegas lhe cobram aquela visita que nunca se concretiza, que acaba sempre na base do “qualquer hora dessas a gente se encontra”, até que alguém lhe pergunta sobre e você diz que não teve tempo, pois sua vida é uma loucura; que caiu um meteoro em Marte; que o terremoto no Hawaii lhe deixou sem clima ou que o acasalamento dos ursos pandas tem lhe causado insônia. Puro papo furado!

Familiarizou-se com os acontecimentos?

Se você respondeu que o tempo era o objeto principal dos exemplos citados acima, está de parabéns. Você é um expert no assunto e certamente passou por situações semelhantes, além de ser um procrastinador nato e um excelente criador de desculpas esfarrapadas para justificar sua conduta antissocial.

Nós humanos possuímos a incrível capacidade de gerenciar o tempo e talvez por isso nos acomodamos e nos atrasamos para compromissos importantes. Esse excesso de confiança por vezes nos causa problemas pois ilusionamos poder dominar nossa percepção temporal, como se fôssemos deuses. Só que não!

Mesmo que de forma não intencional, as vezes perdemos a hora por conta de eventos que independem de nossos desejos. Por exemplo: Se você depende do transporte público, certamente deve ter xingado Murphy (me refiro ao criador da lei de Murphy) pelo menos um milhão de vezes ao perder o ônibus para ir ao trabalho. Experimente sair de casa atrasado para tomar o próximo ônibus. Certamente ele estará passando no exato momento em que você estiver saindo de casa. E para quem utiliza transporte próprio, certamente encontrará em meio ao seu atraso um enorme congestionamento causado por um caramujo capotado em meio à rodovia. Note que “perder o horário”, “deixar para a última hora” e “não ter tempo” são referências ou indicações temporais e indicam que nossa percepção as vezes deixa a desejar no quesito linearidade temporal. Observem que para nós o tempo passa, o tempo voa só que nossa conta poupança não continua mais tão numa boa - assunto para outra pauta –.

Isso se dá por conta de uma falsa impressão de domínio do tempo, que consegue desorganizar até mesmo os mais bem organizados e obsessivos adoradores de agendas, listas e calendários. É simplesmente impossível tentarmos dominar o tempo, pois mesmo em um projeto bem elaborado, no qual há previsão de imprevistos, certamente haverá algum contratempo que o estenderá; e quem trabalha com análise de projetos, desenvolvimento de sistemas ou planejamentos de qualquer ordem, saberá do que falo. Sempre [eu disse SEMPRE] faltarão horas para cumprir à risca qualquer agenda ou projeto.

Diante deste cenário caótico apontado por mim... Tá! Reconheço que exagerei nos exemplos, acima mas foi por uma causa nobre, afinal preciso teorizar a respeito das diversas vezes em que saia de casa no horário e mesmo assim chegava atrasado ao trabalho e recebia aquele olhar malicioso por parte do chefe, que olhava para o relógio e lhe sorria logo que entrasse na sala, sem lhe dizer uma palavra sequer. Ou quando lhe dizia, resumia-se a algo como: "Pô Fulaninho! Acordou em cima da hora hoje?". Continuando...

Uma das poucas certezas que temos na vida é a de que o passado não nos pertence mais – não no sentido de domínio temporal, pois a única coisa que nos resta do passado serão as lembranças - e que nosso futuro está intimamente ligado às ações do presente. Do agora e do hoje.

É como plantar uma árvore: Se semearmos laranjas, não colheremos maçãs; ao menos não no mundo real em que vivemos.

É perceptível a qualquer ser humano, que tentar manter algum tipo de controle sobre a linha do tempo é algo relativamente difícil, já que nada podemos fazer em relação aos acontecimentos do passado ou do futuro; exceto no que diz respeito às nossas ações presentes, que certamente surtirão algum efeito futuro de curto ou longo prazo, dependendo da circunstância.

Ter domínio sobre a ideia de tempo é mais fruto do nosso imaginário do que algo possível nos sentido físico. Ninguém consegue viajar no tempo e voltar ao passado para buscar algo que esqueceu ou tentar modificar eventos que possam refletir na realidade presente. De igual maneira, é impossível viajar até o futuro e trazer de lá novidades quentes sobre tendências da moda, da música e da gastronomia.

Quem afirmar tal possibilidade certamente tem um parafuso a menos ou possui fortes tendências à pilantragem, já que isso é pura invencionice de grupos que cultuam teorias conspiratórias e ilusionam que haja alguma possibilidade de viagem no tempo, através de outras dimensões e sabe lá o que mais.

Mas o ponto fundamental dessa questão, e que poucos questionam é: O que é o tempo? Será que podemos mensurá-lo, pode ele ser medido, pesado, movido, desfeito ou refeito? Quem inventou o tempo e como sabemos que nossa concepção de tempo é verdadeira e não apenas uma mera função cerebral, com a finalidade organizar nossas ações com base nos estímulos do meio, afim de dar fundamento à nossa existência e das coisas que nos cercam?

São diversas perguntas e quase nenhuma certeza, pois grande parte das teorias científicas que versam sobre a questão do tempo são também conjecturas a respeito, já que ainda não dispomos de tecnologia para lidar com a transposição temporal.

Pensar a respeito da nossa relação com a ideia de tempo é algo que exige esforço mental, discernimento e estudo, pois não é como mensurar - sem relativizar - a quantidade de gases suspensos na atmosfera, de carbono existente no solo, de células em nosso corpo ou de planetas de nossa galáxia.

Todas as respostas são formuladas com base em estudos e pesquisas, tendo como foco o viés da teoria científica, onde não há certezas e verdades absolutas (hermetismo), mas sim a relatividade daquilo que hoje é fato, mas futuramente pode ser contestado, talvez modificado e até mesmo ridicularizado pela comunidade científica futura.

Assim funciona a ciência; sempre em constante mutação.

Se analisarmos com coerência, perceberemos que a noção de tempo é subjetiva e que cada um possui uma forma distinta de percepção em relação a isso. Podemos facilmente nos enganar com a ideia de que essa temporalidade adotada por meio dos ponteiros do relógio, pode na verdade ser uma forma ilusória de medição. Uma forma de referência de tempo para que possamos nos localizar e assim mensura-lo de modo que nossas rotinas sejam organizadas de acordo com nossas necessidades, além de uma maneira de nos localizarmos no espaço. Tal qual o calendário.

Einstein afirmava que a distinção entre passado, presente e futuro não passa de mera ilusão e teimosamente persistente, o que parece de certa maneira uma ideia sensata. O tempo não é um objeto, dotado de massa, que possa de alguma forma ser medido e pesado, apesar de parecer contraditório e talvez incoerente, na verdade a concepção de tempo vem de uma ideia atemporal, justamente com o intuito de organizar a vida humana, conforme dito antes.

De uma forma relativamente simplória, o tempo pode ser categorizado como algo etéreo e sem forma definida. Mas por outro lado, sabemos que nossa concepção de tempo está relacionada a algo linear, com começo meio e fim, ainda que não seja possível afirmar onde se encontra e como é sua aparência, mas certos de que dele dependemos, seja por necessidade de organização/percepção de espaço.

É provável que tenhamos determinado o cálculo de tempo não somente com o intuito de melhor perceber os dias, meses e anos, mas também para que nossa existência tenha algum sentido, a partir do momento em que conseguimos calcular nossa expectativa de vida, por exemplo.

Temos a percepção temporal, com base em começo, meio e fim, embora essa percepção não seja literal, pois o passado pode estar paralelamente alinhado ao presente e ao futuro, de acordo com a percepção de quem o vivencia. Por exemplo: Se em uma sala houver um relógio e duas pessoas, cada segundo contado no relógio será uma fração de tempo do passado, logo quem vive o presente, também está vivenciando o passado juntamente com o futuro (próximos segundos) mas essa percepção não será igual para ambos.

Dessa maneira, cada segundo passado, terá uma efeito diferente para quem observa o ponteiro do relógio, de acordo com o contexto do momento.

Isso explica o porquê de as horas ‘voarem’ para uns, enquanto que para outros cada minuto demora a passar, mesmo que estejam participando da mesma situação e compartilhando do mesmo ambiente.

Existem muitas definições de “tempo”, pois cada pesquisador, filósofo, cientista ou cidadão comum, terá sua percepção e sua teoria a respeito, mas nenhuma delas encerra em si a questão.

A única certeza que temos é de que o tempo é uma divisão do espaço, é linear, transcorre em um único sentido – do passado para o futuro – e independe de nossa intervenção. E que explicar o tempo sem definir nossa existência é outra tarefa árdua e pauta para outro texto.

Excluindo o fato de que alguns fantasiam coisas sobre viagens no tempo, e isso qualquer psiquiatra resolve, precisamos ter clareza a fim de compreender que tal percepção não é fruto de uma invencionice, crença de qualquer gênero, fruto da metafísica, sofisma, sabedoria extraterrena ou evolução cósmica com base em seres fantásticos. O que precisamos entender que tudo isso é fruto de nosso sistema sensorial, com o qual atuamos através da percepção espacial e que por meio desta mensuramos distância, tempo e velocidade.

“O tempo é relativo e fruto da necessidade de orientação no espaço." - Marco Ribeiro


Marco Ribeiro

"A vida não é um poema.".
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