Marco Ribeiro

"A vida não é um poema."

O colapso da razão


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Em meio ao caos provocado pela pandemia do Corona vírus, fomos obrigados a assumir novos hábitos e abrir mão de uma cultura consolidada por séculos de modelagens sociais, na qual vivíamos sob uma quase normalidade, desenhada por uma falsa ideia de que as coisas seguiriam um script repleto de certezas e que tudo seria previsível. Só que não foi bem assim.

Céticos alienados pela doutrinação ideológica acham que a pandemia é uma farsa e que tudo não passa alarme falso e uma desculpa para que "vagabundos" fiquem em casa, enquanto empresas declaram falência. Alguns acham simplesmente que o vírus não existe, mesmo com todas as evidências e farto material a respeito do assunto nos mais diversos canais informativos ou sites de referência em análise e pesquisa biológica e médica. Geralmente esse grupo de pessoas opta por acreditar em postagens vindas de redes sociais ou canais de vídeos de algum suposto influenciador digital.

Crentes enxergam a pandemia como uma espécie de castigo divino, atribuindo-lhe o status de evento apocalíptico e tomam para si o direito e a responsabilidade de intervir à sua maneira, contrariando qualquer espécie de análise racional sobre o caso e ignorando qualquer informação contrária às suas crenças.

Teóricos da conspiração juram de pés juntos que tudo isso não passa de invenção da mídia, que o vírus foi criado intencionalmente para fins de uma guerra biológica ou e que o único propósito da suposta pandemia é a propagação de boatos, além de uma tentativa muito bem elaborada pelos governantes a fim de dominar a população. Uma espécie de delírio esquizofrênico.

Ufologistas e pseudocientistas defendem ideias absurdas sobre as possíveis origens do COVID-19, como a de que o vírus seja de origem extraterrestre, que os reptilianos seriam os verdadeiros agentes por trás da pandemia ou que tenha alguma relação absurda com o nível vibracional da energia de nossos corpos, devidamente medida em megahertz para que soe como ciência de fato.

A razão deu espaço a crença e esta enveredou para o discurso simplório das soluções simples, mesmo sem antes ser submetida a qualquer avaliação científica daqueles que se debruçam anos sobre artigos, análises técnicas, incansáveis testes em laboratórios e comparações entre esta e outras epidemias. Para alguns, a imposição de mãos, a mandinga, o amuleto ou um conta gotas contendo água saborizada pode vir a ser a solução de todos o problemas epidemiológicos do mundo.

De um lado temos crentes ferrenhos, certos do seu saber absoluto, que negligenciam os reais riscos da pandemia em nome de um posicionamento político ou ideológico. No extremo oposto temos a comunidade científica cheia de incertezas, que em vez de atribuir a si mesma o dom do saber absoluto ou das curas milagrosas, esmiúça com dedicação todas as possibilidades a fim de encontrar uma solução para o problema e trazer alívio ao sofrimento da humanidade.

O erro dos leigos doutrinados por ideologias é achar que toda verdade tem apenas uma única vertente, enquanto dá de ombros às demais possibilidades e encerra qualquer discussão a respeito, sem ao menos questionar suas próprias verdades. Um misto de ignorância, prepotência e rigidez mental.

Em meio a isso tudo sobra uma população desorientada em meio ao turbilhão de “fake news”, promessas de curas milagrosas, oportunistas dispostos a lhe arrancar dinheiro e óbvia incapacidade de um governante claudicante e absorvido pelo próprio delírio egocêntrico.

Marco Ribeiro


Marco Ribeiro

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