Marco Ribeiro

"A vida não é um poema."

A fantástica fábrica de idiotas

Não somos zumbis, animais domesticáveis ou produtos de uma indústria. Somos seres humanos dotados de livre pensar e de uma relativa liberdade para expressar o que somos e sentimos.


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Juro por todos os deuses que faço um certo esforço para compreender o que leva um ser humano dotado de um cérebro magnífico, com bilhões de neurônios devidamente funcionais, elaborado através de milhares de anos de evolução, seguir certas ideias e princípios. Mais grave ainda quando essas ideias não possuem qualquer objetivo prático e não trazem melhorias na evolução da espécie humana.

Tenho notado um número crescente de idiotas funcionais, na mesma velocidade de uma pandemia - aproveitando a onda das pandemias para fazer essa analogia esdrúxula. Essa leva de seres humanos desprovidos de qualquer coerência na forma de pensar e agir faze com que a civilização dê alguns passos atrás no processo evolutivo.

A quantidade de situações envolvendo este aparato de imbecis recrutados por movimentos ideológicos estranhos e bizarros demonstra o quão volúvel pode ser o homem ao aderir a qualquer besteira que surja através da mente transtornada de algum personagem psicopata que se autointitule intelectual e atribua a si mesmo o dom do saber universal, devidamente sabotado com propósitos específicos e nem sempre bem intencionados.

A civilização anda estranha e o que se vê, apesar de todos os desenvolvimentos tecnológicos e científicos, é um cabo de guerra entre a racionalidade de alguns e a imbecilidade de outros. No meio disso tudo temos as incertezas e o que resta as vezes para algumas pessoas é acreditar naquilo que lhe é apresentado como “verdade”, ainda que soe absurda ou cause estranheza por conta das formas como nos são apresentadas certas evidências e argumentações.

Esse cabo de guerra é muito bem definido, pois de um lado temos a comunidade científica disposta a somar esforços no sentido de manter firme a evolução da própria espécie, e mergulhada de cabeça em estudos, testes, análises científicas e que a partir daí tentam proporcionar a humanidade novas maneiras de evolução e garantias da própria integridade física e mental. No canto oposto desse ringue imaginário temos os idiotas que se valem da própria ignorância como forma de sustentáculo para teorias que nem eles acreditam. Algumas dessas deixam evidente que o propósito é o de simplesmente arregimentar o maior número possível de seguidores alheios a qualquer outra possibilidade. O que lhes garantirá fama, sucesso e lucro - não necessariamente nesta mesma ordem.

Desprovidos de conhecimento teórico, a população comum segue às cegas pela trilha do desconhecido, na ânsia de buscar uma integração social e assumir sua própria identidade, embora não saibam que para assumir a própria identidade como ser humano e fazer parte de uma sociedade, não seja necessário fazer parte de uma ideologia específica, grupo ou tomar para si um rótulos, pois não somos produtos e sim seres humanos.

A ânsia pela autoaceitação toma formas de armadilha aos incautos aventureiros do mundo das ideias, uma vez que barganham pouco e usam sua própria autonomia como moeda de troca, sem suspeitar que na próxima esquina o que lhe aguarda é um enorme leão de chácara disposto a lhe dar um porretaço na cabeça, lhe amordaçar e privá-lo de qualquer ímpeto de livre arbítrio. Você será coagido a pensar da mesma forma que os demais e qualquer manifestação contrária será tida como um ato intransigente e as vezes sujeito a algum tipo de represália, se for o caso.

O linguajar rebuscado, os jargões de sempre, as formas de apresentação de ideias e a doutrinação seguida de grande comoção através de discursos inflamados e cheios de dizeres copiados de livros, são apenas algumas das formas apresentadas por quem queira arregimentar um exército de idiotas úteis que servirão como “massa de manobra”. Tudo isso é parte de uma suposta agenda cultural, não comprovada e não oficial, mas fartamente disseminada em ambientes nos quais é prolífera a manifestação de pessoas sedentas por informação ou pela busca do seu espaço no qual possa definir sua própria identidade, obter um pouco de autoestima e fugir das frustrações de uma existência na qual a dor precede o prazer e que da qual precisamos escolher entre sair da inércia ou sucumbir ao tédio de uma vida infame.

Universidade públicas são campos férteis para a disseminação dessas culturas, pois contam com jovens de mentes abertas e dispostos a dar o melhor de si em prol de um mundo melhor. Eles caem como camundongos em ratoeiras, motivados pela imagem inabalável do mestre e professor, tido como um quase semideus para e que as vezes pode ser o verdadeiro vilão da história ao trazer para sala de aula suas preferências pessoais e no lugar de preparar o aluno para o mundo, os trata como parte de sua doutrina ideológica e assim os transforma em soldados militantes. Nada diferente do que era realizado pelo nazismo na segunda grande guerra ao forma sua tropa de soldados da juventude nazista.

Toda forma de doutrinação é prejudicial e deve ser evitada, sob o risco de nos tornarmos meros animais de rebanho. Isso lesiona nosso caráter e enrijece o discernimentos das coisas. Percebam que toda doutrinação tem em comum entre si o fato de que seus seguidores são levados a crer que toda verdade está contida em sua doutrina específica, seja ela religiosa, política ou comportamental. Eu bem que poderia citar inúmeros exemplos colhidos por mim através de pesquisas comportamentais - e alguns testes realizados através de postagens polêmicas em redes sociais, com intuito de medir o retorno e as reações do público alvo que eu buscava atingir. O teste consistia em mensurar e avaliar a reação das pessoas e o nível de senso comum em suas reações diante de fatos polêmicos [respostas imediatas sem análise prévia do contexto]. Confesso que o resultado foi bem além do esperado e não fiquei surpreso ao perceber que a maioria respondia no ímpeto de apenas dar uma resposta e as vezes não prestava atenção a mensagem que era transmitida.

Mas de qualquer forma o ser humano é um animal como qualquer outro, que teve a "sorte" de evoluir e tomar as rédeas do mundo. Só que se pararmos para pensar sobre tudo isso, perceberemos que poderia não ter sido nós, que somos minoria em relação a outras espécies e somos realmente frágeis do ponto de vista do mundo animal. Nossa única vantagem foi ter evoluído ao ponto de criarmos para nós mecanismos de defesa [física e mental] com o propósito de sobreviver em um planeta selvagem e repleto de riscos e a uma condição física aquém dos outros animais, pois não dispomos de recursos físicos para garantir nossa autodefesa.

Hoje, após anos de estudos e leituras sobre comportamento humano, ciência, tecnologia e religião, percebo que nossa capacidade de discernimento ainda está engatinhando. Não somos perfeitos, dotados do saber absoluto ou de livre arbítrio. Somos animais gregários e temos para nós que nossa condição de “donos do planeta” seja um fato, mas isso tudo é apenas parte de um grande delírio, misturado a um ego inflado.

Não somos donos de nada, nem mesmo da nossa própria existência. Basta uma gripe, uma mosquito ou uma escorregada no boxe do banheiro e logo estaremos mortos. Esses delírios de grandeza são parte de uma construção mental engendrada por mecanismos de recompensa. Nosso cérebro é uma máquina quase eficiente, pois ainda nos engana com ilusões sobre poder, dominação e divagações fantásticas sobre seres de outros mundos, vidá pós morte, entidades mágicas dispostas a nos punir ou nos proteger de todo mal que há na Terra. Aliás, o sinônimo de “mal sobre a Terra", poderia ser também traduzido por: “Seres humanos dispostos a fazer mal a qualquer outro ser vivo, inclusive seus semelhantes”.

Então se seu desejo é não fazer parte da tribo dos idiotas produzidos em série nessas fábricas criadas por outros idiotas psicopatas, atentem para a vida real. Duvidem das supostas verdades, das boas intenções daqueles que notoriamente não são bem intencionados, das curas milagrosas, das receitas de sucesso repentino, das promessas de dinheiro fácil e principalmente dos personagens e gurus da moda, pois até mesmo eles podem ser tão idiotas quanto qualquer um de nós já foi um dia.

Não seja um idiota, acorde para a vida!

Marco Ribeiro


Marco Ribeiro

"A vida não é um poema.".
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