Marco Azevedo

"A vida não é um poema."

Resiliência e medo do mar

Surfar é algo que nos proporciona bem estar e contribui com o condicionamento físico e mental. Mas é preciso cautela e bom senso ao praticá-lo, para que não ofereça riscos ao praticante e as demais pessoas.


surf_466x350_solentnews_nocredit.jpg.jpg Recentemente retomei a prática do surf, após ficar longe do esporte por mais de vinte anos, em decorrência das muitas coisas que me afastaram da possibilidade de levar adiante essa modalidade esportiva. Da distância entre minha cidade e a praia, das inconstâncias da vida profissional ao trauma adquirido por conta de um incidente no mar, não faltaram motivos para que definitivamente eu deixasse de lado a praia para viver uma realidade oposta em meio ao caos do perímetro urbano e da correria diária das atividades profissionais.

Mas como sou resiliente, não desisti da ideia de um dia retomar a prática desse esporte, que proporciona momentos divertidos em meio ao cenário marítimo, do qual temos a oportunidade de experimentar instantes de paz e harmonia.

Foi então que por influência do nosso filho, decidimos morar em Santa Catarina na intenção de mudar o estilo de vida e ficarmos próximos dele. Nosso filho havia mudado para lá antes e frequentemente nos narrava sobre as belezas naturais do lugar, da paz que era viver na ilha catarinense e principalmente da diferença na questão de qualidade de vida e principalmente segurança. Então após nossa mudança definitiva do RS para SC, resolvi que era hora de encarar o mar novamente e enfrentar de vez o receio de entrar no mar novamente.

Foram diversas tentativas, desde idas a praia com a prancha debaixo do braço, algumas entradas no mar para sentir como seria e várias desistências por receio de passar a zona de arrebentação e achar que algo de ruim poderia acontecer.

Medo? Lógico! Covardia de minha parte? Jamais.

Essas foram apenas algumas tentativas de sensatas de reaproximação, após tantos anos distante do mar. Era um constante ir e vir, entrar e recuar e tentativas de entrada com um pensamento firme do tipo: “Dane-se! Vou tentar novamente!”, que cheguei a questionar se estava fazendo a coisa certa. Cheguei a pensar em desistir da ideia maluca de voltar a surfar, por achar que já tinha passado da minha época de surfar e que talvez essa fosse apenas uma teimosia minha, que certamente não levaria a nenhum resultado efetivo e positivo. Não me acovardei, apensa questionei se estava realmente sendo sensato ao querer encarar a imensidão do oceano, em busca de ondas e em um local arriscado como é a praia próxima ao local em que moro. Realmente a praia do Moçambique não é para os fracos e prova disso é a quantidade de casos de afogamentos no verão, justamente pelas diversas valas, correntezas e correntes de retorno que podem carregar qualquer incauto para dentro do mar.

Desde que passei por algumas situações difíceis na vida, tenho comigo que enquanto houver medo - e repeito - nada de ruim acontecerá, pois percebia que normalmente os excessivamente corajosos e confiantes que se ferravam. Jamais fui adepto da ideia do "não dá nada", "azar, vamos nessa" e "se joga", pois entendia que o ímpeto de ir adiante durante situações de risco, sem um conhecimento mínimo do que está fazendo, ou por iniciativas prepotentes, geralmente não acabavam bem. Tudo pode acontecer no transcorrer dessas ações.

Quando era skatista, vivi um pouco dessas experiências sobre como é agir por impulso. Fui inconsequente o suficiente para descer ladeiras à noite, sem ligar muito para os riscos, ou ainda, descer avenidas no estilo roleta russa, sem importar-me com os cruzamentos, pois queria adrenalina e certamente um pouco de autoafirmação. Talvez por ser um adolescente incompreendido, que se achava um alienígena em um mundo de pessoas estranhas, além do fato de que impressionar amigos e meninas era algo de fato relevante para mim nessa fase de idade.

Mas entre tantas tentativas e decisões sobre voltar ou não a surfar, tive meu retorno ao mar de forma gradativa. E mesmo conhecendo teoricamente todos os fundamentos do surf, da dinâmica das marés, formações de ondas, correntes e condições meteorológicas, havia um receio e um medo irracional do mar. Temia que algo pudesse acontecer de errado [ e geralmente acontece com todo surfista], desde um leash rebentar, eu ser levado por uma correnteza ou até mesmo de um mal súbito. Tudo passa pela cabeça ansiosa de alguém traumatizado com o mar.

Apesar de tudo, entendia que apesar de toda a experiência teórica adquirida, precisava lidar com esse fantasma do medo de entrar no mar e não ser mais uma vítima da morte. Algo de certa forma irracional mas também coerente e necessário para meu equilíbrio emocional, que levaria ao exercício da resiliência. Não seria fácil, mas valia a tentativa.

As coisas começaram a mudar a partir do momento em que me propus a ensinar meu vizinho a surfar. Topei o desafio, pois sabia que minha experiência seria útil para que ele tivesse uma curva de aprendizagem gradativa e sem riscos excessivos, o que me obrigaria a explicar o passo a passo sobre todas os riscos que envolve a prática do surf. Ensinei a ele desde as condições meteorológicas ideais, até sobre correntes, tipos de fundo marítimo e principalmente noções de segurança para casos de perrengue dentro d'água, como o famoso leash rebentando bem na hora de uma queda, de como sair de um buraco sem riscos [mesmo sem prancha], perceber correntes fortes ou séries de onda anormais e grandes. Com isso, também fui reassimilando essas informações, de como que comecei a me tornar mais analítico e menos medroso, afinal o que poderia dar errado, já que eu conhecia bem a teoria. Faltava apenas retomar a prática.

E assim fui aos poucos ganhando confiança, a medida em que ensinava ele a surfar e precisava entrar junto no mar para acompanhá-lo no passo a passo da prática esportiva. Hoje consigo passar a zona de arrebentação com segurança e desfrutar novamente do prazer desse esporte. Antes, tudo isso ainda estava ofuscado pela barreira do medo e precisava sentir o fundo para entrar em segurança, pois toda vez que não dava pé, logo vinha a lembrança de eu tentando me desvencilhar de uma rede de pesca presa nos meus pés.

Uma das regras que sigo quando ensino sobre surfar é: respeitar o mar e não alimentar o excesso de confiança, pois mesmo nadadores experientes e surfistas profissionais podem morrer ou sofrerem acidentes graves. Nem tudo depende das habilidades enquanto atletas bem preparados fisicamente. Alguns eventos estão relacionados com as circunstâncias do local e do momento, do olhar atento e bem treinado e principalmente da percepção de que estamos em ambiente inóspito e sujeito a riscos.

Surfar é um esporte incrível, mas oferece riscos que podem levar a sequelas físicas e mentais importantes. Então é bom evitar o excesso de confiança e deixar que o medo do mar seja nosso aliado na prática do esporte, pois o bom senso deve prevalecer sempre.


Marco Azevedo

"A vida não é um poema.".
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