Marco Ribeiro

"A vida não é um poema."

Sobre viver o hoje


ampulheta_01.jpgNascemos, crescemos e morremos tentando achar razões para dar valor e significado a única vida que nos resta. Nessa busca obstinada por algo que nem sempre sabemos realmente do que se trata, esquecemos de viver e em vez disso nos apegamos ao tempo das coisas que giram em torno dos nossos desejos. Corremos em uma maratona incessante contra o relógio e não dispomos de tempo para viver o hoje, já que vivemos aprisionados entre o passado e o futuro, como se estivéssemos em uma ponte prestes a desabar, sem saber para que lado correr.

A vida escorre por entre nossos dedos enquanto nos vemos vítimas das lembranças de um passado que não voltará e pela pressa de chegar um futuro incerto e do qual não temos nenhuma certeza em relação ao que acontecerá - e se acontecerá. Enquanto isso a ampulheta da vida segue derramando seus grãos finos de areia, diante dos nossos olhos incapazes de perceber que por mais que tenhamos qualquer ilusão em relação ao controle da própria vida, não passamos de meros coadjuvantes de uma existência da qual não restará nada mais do que simples lembranças, que certamente se perderão com o tempo.

Temos pressa para crescer e lamentamos a infância perdida; deixamos a saúde de lado na busca obstinada por dinheiro para, depois, gasta-lo na tentativa de garantir um pouco mais de saúde. Corremos contra o relógio, temos pressa para crescer, estudar, acumular títulos, conquistas, riquezas e tudo que for possível nos poucos anos que temos de vida produtiva, para em seguida nos darmos conta de que tudo isso foi, de certa forma, em vão e que nada disso fará sentido, pois restaram apenas lembranças de momentos não vividas, de tempos que se foram, de pessoas que deixaram saudades, de erros cometidos e que não poderão ser reparados. São essas as lembranças que surgem no leito de morte. Vivemos em cima de uma ideia equivocada e sobre pensamos compulsivos em relação a um futuro glorioso, cheio de conquistas e prazeres, rodeado de frases de efeitos e promessas de milagres imediatos e enriquecimento fácil, mas esquecemos de viver o hoje e o agora e isso nos leva a não viver nenhum dos dois.

Somos apenas um espectro de nossa própria realidade, um arremedo de um ser que idealizamos, mas que não sustentamos justamente por sabermos que somos uma farsa. Não somos máquinas, somos apenas humanos com todos os defeitos possíveis, que na ânsia de se igualar aos demais, jogam pela janela todas as possibilidades de uma existência digna, saudável e equilibrada. Não somos heróis.

Vivemos em função de uma falsa expectativa de imortalidade, na qual nos vangloriamos de conquistas e esfregamos na cara dos demais tudo aquilo que eles não foram. Se não estiver à altura do clã dos vendedores, logo será taxado de perdedor, pois segundo dizem alguns farsantes da nova era da psicologia corporativa e mentirosa: “Precisamos pensar e voar como uma águia”, mas como não sou alienado a este ponto, prefiro estar com meus pés fincados em solo, como um mero frango, e ciscar pelo terreno, sem correr o risco de ser abalroado por um Boeing 747.

Lutamos por causas que não são as nossas, vivemos vidas que não nos pertencem e assumimos compromisso que não são nossos, sob a alegação de que precisamos ser super produtivos e vencedores. Somente após anos de tentativas e erros, perceberemos que nunca fomos perdedores, mas apenas iludidos por propostas e sonhos que só funcionam em palestras motivacionais e livros de autoajuda.

Somente após isso tudo desceremos do mundo encantado de Peter Pan para enfim descobrirmos que não vivemos tudo que gostaríamos e que daríamos qualquer coisa por alguns momentos a mais com familiares e amigos para enfim dar o último suspiro diante de todos que um dia lhe amaram e tiveram suas expectativas frustradas pela falta de tempo ou paciência de um homem ou mulher ocupado em construir seu próprio castelo de cartas.

Somos o efeito daquilo que idealizamos e desfrutar do presente deveria ser a melhor parte da vida. Olhar o nascer ou o por do sol, ver seu filho dar os primeiros passos dizer as primeiras palavras, ouvir o barulho do mar ou da chuva podem ser bem mais gratificantes do que vestir um terno e viver em ponte aérea, dentro de hotéis e não ver o tempo passar e quando piscar o olho perceber que está velho, obsoleto e doente demais para tentar recuperar o tempo perdido. Todos passamos por dificuldades, mas também vivemos dias gratificantes que devem ser levados em conta. Isso equilibra a balança da vida e serve de aprendizado, pois as vitórias servem de motivação, enquanto que derrotas nos ensinam a ser resilientes e termos forças para recomeçar sempre que necessário..


Marco Ribeiro

"A vida não é um poema.".
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