Marco Azevedo

"A vida não é um poema."

Por onde anda a liberdade?


Amor e liberdade

Quando pensamos sobre o conceito de liberdade, o que vem em mente é a ideia de que para sermos verdadeiramente livres, precisamos estar diante da possibilidade de escolher aquilo que melhor satisfaça nossos desejos ou perspectivas de vida. Entendemos que ser livre pressupõe o direito de transitar pelos diversos aspectos da existência humana, sem qualquer tipo de imposição ou influência externa que nos impeça de seguir pela via da autonomia.

Somos movidos pelo ímpeto da liberdade, pelo fato de nos originarmos de processos evolutivos ocorridos sob condições específicas, em um ambiente no qual a liberdade sempre fez parte da condição de sobrevivência humana, mesmo que em estado selvagem. Essa foi uma das formas que tivemos para sobreviver enquanto espécie, o que garantiu o êxito da nossa evolução e nos levou a transpôr as diversas etapas evolutivas para chegarmos enfim ao ponto de construir civilizações, conquistar a maioria dos continentes e sermos a espécie dominante que somos até então.

Contudo, o sentimento de liberdade ultrapassou esses limites e foi além da simples ideia de circular livremente entre savanas, campos e montanhas atrás de alimento, para dar lugar a outras formas de pensar a própria existência, ao observar como eram as coisa em nosso entorno.

Ser livre é estar diante da possibilidade de tomada de decisões, que repercutirão ao longo da existência e levarão a refletir sobre todos os aspectos da existência humana. Quando mal avaliadas, essas decisões tendem a causar consequências catastróficas. Por exemplo: se um governante tomar decisões erradas, poderá levar uma nação inteira ao caos; um médico que decida por utilizar métodos específicos, pode tanto salvar quanto levar um paciente ao óbito. Tudo dependerá do contexto ao qual a situação demande determinada atitude e das condições de quem tomará a decisão. 

Individualmente somos livres para pensar, refletir, questionar ou ilusionar qualquer coisa. Entretanto, devemos ter clareza de que nossa liberdade está condicionada a algumas variáveis externas, ditadas por normas, regras e limites impostos, de modo a amenizar certos impulsos. Somos livres para pensar o que quisermos a respeito de qualquer assunto, porém, levar ideias para o campo das possibilidades e das práticas, requer um certo ponderamento sobre quais as consequências disso.

Ao longo da história da humanidade, diversas pessoas morreram justamente por defenderem aquilo que acreditavam. Principalmente quando isso implicava em bater de frente com os regramentos impostas pelos governantes e religiosos da época. Dentre outros eventos, a Santa Inquisição foi um marco na história da humanidade, por seu antagonismo com relação ao princípio de liberdade. Inúmeras pessoas foram julgas e mortas pelo fato de pensarem diferente e por não aceitarem como verdadeiras as doutrinas da época. Hoje o conceito de liberdade é amplo e não está mais restrito ao ato de pensar diferente ou expor aquilo de pensa. E as coisas começaram a mudar desde o momento em  que houve a necessidade de criar formas para mediar conflitos, através da criação de leis que serviram de base para a organização social do modo que conhecemos hoje.

Ao organizar a sociedade através de normas de conduta, o homem criou estratégias para deliberar sobre o comportamento alheio, para assim ditar regras de convívio social, que contribuíram para um melhor ajustamento da conduta e das relações interpessoais. Mas conforme dito anteriormente, a liberdade é uma faca de dois gumes e há uma linha tênue que separa a organização social por meio de regras e doutrinas, da imposição de formas rígidas de controle da liberdade humana por meio do cerceamento.

O direito romano nos deixou como legado o direito, responsável por definir leis que legislam sobre as formas como nós humanos devemos nos portar em sociedade, a fim de manter um equilíbrio saudável entre as diferentes formas de enxergar o homem em sociedade, assim como respeitar cada indivíduo sem intervir de forma radical ao privar a sociedade de algumas formas de manifestação. Algumas dessas formas de controle são necessárias para que não voltemos aos tempos de selvageria, quando cada um ditava suas próprias regras de conduta e o conceito de justiça era confuso, inconsistente e frágil.

Gozar de liberdade é ter a oportunidade de estar em equilíbrio. E para que isso seja possível, é necessário que tenhamos respeitadas nossas forma distintas de ver o mundo. É importante ter bom senso ao observarmos que nossa visão de mundo jamais deve bater de frente com as demais, visto que cada indivíduo ou cultura possui sua forma específica de ver compreender como são as coisas, ainda que em certos casos isso divirja daquilo que fomos moldados a pensar como normal e natural.

Respeitar a condição humana sem desprezar as diferentes formas de pensamento é uma maneira de pensar a liberdade na prática. Ser livre não é somente dizer ao mundo tudo que pensa, mas dizer o que pensa sem transgredir certos valores. 

A liberdade está onde o ser humano é capaz de notar que somos todos iguais, apesar das muitas diferenças e visões de mundo.

É isso que nos torna legitimamente humanos e racionais.


Marco Azevedo

"A vida não é um poema.".
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