homúnculos lúdicos

Literatura e arte como a legislação oculta do mundo

Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados.

os bisnetos dos niilistas

A temática é densa, desafia questões de moral e, tal como Nietzsche, faz duvidar de quaisquer ideia do bem e do mau. Uma série televisiva de produção brasileira, baseada em um livro de literatura alemã, que é uma adaptação de um dos maiores clássicos da literatura mundial. A séria A Menina Sem Qualidades é uma adaptação do livro de Juli Zeh de mesmo titulo; este sendo uma reinterpretação do livro O Homem Sem Qualidades de Robert Musil. Cada um deles tenta interpretar através de seus personagens como a sociedade reage ao seu tempo, como suas relações humanas se dão e como cada um nelas envolvido pode ser transformado.
Esta é uma análise testa interpretação feita em 2013 pela série produzida pela MTV Brasil.

ATENÇÃO: sendo uma análise, contém alguns detalhes da série, portanto se não a assistiu, fica o aviso de spoiler.


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“E que tal se os bisnetos dos niilistas já tivessem saído há tempo das empoeiradas lojas de artigos religiosos que chamamos de nossas visões de mundo? Se tivessem deixado os depósitos já meio vazios dos valores e das transcendências, do útil e do necessário, do genuíno e do correto, a fim de retornar ás trilhas de caça, na selva, lá onde não podemos vê-los mais, muito menos alcançá-los? Que tal se pára eles Bíblia, Constituição e Código Penal não tivessem mais validade na condição de manual e livro de regras para um jogo coletivo? Se eles entendessem política, amor e economia simplesmente como competição? Se “o bom” para eles fosse nada mais do que eficiência máxima sob mínimo risco de perda e “o mau” , ao contrário, nada mais do que um resultado subótimo? Se não entendêssemos mais suas razões, porque elas já não existem? Donde haveríamos de tirar então o direito de julgar, de condenar, e, sobretudo – a quem? O perdedor do jogo – ou o vencedor? O juiz teria então de se tornar árbitro. A cada tentativa de aplicar o aprendido e traduzir lei em justiça, ele se tornaria culpado do ultimo pecado mortal que ainda restou: a hipocrisia.”

Juli Zeh (1974), autora alemã, começa sua obra A Menina Sem Qualidades (traduzido em 2009 por Marcelo Backes, editora Record) com o trecho citado. O livro conta a história de Ada, uma menina de 16 anos que acaba de ser expulsa de sua escola e enviada a um colégio conhecido por ser capaz de reverter qualquer conduta inapropriada. A trama começa quando Ada conhece Alef; a relação deles é cercada, simultaneamente, de intensidade e frieza. O livro é, na verdade, uma versão “moderna” da obra de Robert Musil, O Homem Sem Qualidades. Juli Zeh buscou – e diga-se de passagem conseguiu, com grande maestria – colocar o cenário criado por Musil de uma forma menos ampla, levando uma trama complexa ao contexto de uma adolescência pouco vigiada, em um contexto político delicado, do pós-guerra, que em nada se equipara a gerações anteriores.

A obra de Juli Zeh recebeu, em 2013, uma adaptação televisiva, produzida no Brasil pela MTV (em co-produção com os Estúdios Quanta), dirigida por Felipe Hirsch, o que trouxe a trama a um cenário ainda mais próximo a realidade contemporânea.

A história gira em torno da relação de Alex, Ana e Tristán. Ana, é a protagonista. Com 16 anos e bibliotecas inteiras nas costas. Bem como no livro alemão ela é transferida de colégio após um comportamento violento com um colega. Na série, porém, a reação deu-se devido a uma desilusão. Telma fora sua grande paixão, a qual partilhou um diário o qual escreve todos os dias, mesmo após os pais da garota interferirem (e encerrarem) a relação. Alex, apesar de apresentar uma inteligência considerável, nunca fora bom aluno. Aos 18 anos é transferido para a sala de Ana. Um personagem que enxerga a vida como um jogo. Tal pensamento parte do principio de que não há nada a ser acreditado; que o comportamento humano não passa de um jogo bem estudado.

Jogo é, de fato, uma palavra que traça a linha desta ficção.

Uma moeda colocada em uma das mãos, fechadas em um punho, cruzadas. Você escolhe a direita e erra. Próxima tentativa. É intuitivo que a esquerda seja escolhida. Sabendo disso, a moeda é passada para a mão direita. O erro se repete. Partindo do princípio que ambos os jogadores possuem este raciocínio, a moeda é na verdade mantida na mão esquerda. A moeda é trocada novamente para a direita, tendo em vista que o pensamento anterior fora igualmente premeditado. “O que isso significa?”, indaga Alex. A resposta de Ana ilustra o pensamento: “Que não há motivo para que a direita ou esquerda seja escolhida. Não há nada que prove a favor ou contra. A decisão humana nada mais é do que um jogo bem estudado.”

Grande parte da trama se baseia no pensamento niilista; como citado, se trata de um momento político delicado. O bem e o mal é colocado a prova durante qualquer tipo de conflito. O grande questionamento aqui é, na verdade, se há de fato uma grande diferença entre os dois lados de um mesmo abismo. Para eles, “existem tantos motivos que podem incentivar um ato de bondade tanto quanto um assassinato”. Durante uma discussão política em uma aula de história, Ana e Alex desenvolvem um pensamento acerca do niilismo e da vida humana. É dito por eles que, os niilistas, aqueles elucidados no romance de Musil, estes acreditavam que existe algo a ser acredito, para que, então, pudessem acreditar no nada. Os personagens se intitulam, porém, como bisnetos dos niilistas. Dizendo que eles, na verdade, acreditam em tudo ao acreditar no nada, colocando a indiferença como valor igual de qualquer variável. A postura de Alex quanto a tal pensamento elucida uma das grandes criticas ao pensamento niilista. Já que a indiferença é valor igual a tudo e nada passa de um jogo muito bem calculado, ele se faz da indiferença e destes cálculos para obter poder – sem ter, na verdade, qualquer objetivo com isso. Além, claro, de “jogar um jogo”, altamente manipulador e com consequências incalculáveis na vida dos envolvidos.

Alex convence Ana a participar de um jogo que só possui as regras impostas por ele – não definidas e que podem mudar a qualquer momento. A proposta é que Ana tenha relações sexuais com seu professor de espanhol, Tristán.

Tristán é um imigrante argentino. Leciona literatura espanhola e vive no Brasil com sua esposa. Este é um personagem que carrega a luta em suas costas. Preso político da ditadura argentina, ele crê que seja necessária a busca pela verdade, e a luta do bem por sobre o mal, mesmo em sociedade onde “a verdade tem cada vez menos importância”. Esta frase fora dita pelo professor Hoffman, colega de trabalho de Tristán. Hoffman carrega a relação com o nada cercado pela descrença e a indignação; não crê que haja alguma espécie de esperança ou salvação diante de um mundo onde o certo e o errado será sempre dependente de seu eixo.

Tristán possui um interessa especial na inteligência instigante de Ana, o que torna sua manipulação pelos alunos consideravelmente mais fácil. Alex cria uma armadilha e grava as relações do professor com a aluna no ginásio, ameaçando-o com as gravações, de forma que, se ele se recusasse a continuar, as imagens chegariam a sua esposa e direção do colégio.

O desfecho disso se dá pela confusão de Tristán e sua revolta, incapaz de entender as motivações de Alex (o que seria impossível, afinal elas não de fato existem).

Acredito valer a pena relatar uma conversa entre Ana e Alex, e a escolha de Ana a participar do jogo. Sendo uma simples luta por poder para Alex e Ana sendo apenas uma peça do jogo, Alex se questiona o porquê de ela ter aceitado tal envolvimento inegavelmente problemático. Lembrando a postura já citada de viver entre os abismos da moral - e do que é considerado como bom ou mau - para ela, participar ou não de um jogo amplo como este teria a mesma importância entre escolher a mão direita ou esquerda para encontrar a moeda.

Bianca e a reação de desespero ao nada

Os personagens apresentados na série carregam diferentes posturas em relação ao niilismo e a teoria do nada, como já fora apresentado. Há ainda a visão de uma personagem que deve ser citada. Bianca, a esposa de Tristán. Também refugiada da ditadura na Argentina, Bianca carrega o peso da perda. Seus pais foram mortos pela ditadura. A mulher vive em extrema depressão e é vigiada atentamente pelo marido. Em uma excursão escolar onde Bianca acompanha o marido e seus alunos, um pequeno momento de descuido e Bianca tenta se matar em um lago, sendo resgatada por Ana. Nos poucos momentos em que Bianca aparece em cena, sua postura é de inercia. Sempre olhando para frente, fitando o nada. Nos poucos momentos em que elucida suas emoções, chora pela perda dos pais. “No tengo padres, no tengo ninõs, no tengo nada.” A depressão de Bianca é a resposta humana ao vazio. Seria, possivelmente, uma resposta até romântica. Faz parte do instinto humano querer se reproduzir, além de ser uma construção social já intrínseca no inconsciente coletivo a necessidade de se estar junto a seus semelhantes. A postura desta personagem nada mais é do que ser humano sem uma motivação ou objetivo, provando que a relação humana com o vazio absoluto não há de ser saudável para a mente – ou até mesmo para a própria espécie.


Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados. .
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