homúnculos lúdicos

Literatura e arte como a legislação oculta do mundo

Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados.

Emite. Corpo. Transmite.

Texto desenvolvido a partir de uma dinâmica performática. Cada participante anonimamente dispôs no espaço um objeto que metaforicamente lhes representasse. Palavras foram atribuídas a estes. De palavras soltas a própria sorte, um texto costurado, moldando personalidade. Disso, exibir metáfora, sem marca ou máscara. Corpo e palavra.*


woodman.jpg A fotógrafa Francesca Woodman largamente utilizou do recurso do próprio corpo como matéria, tornando-o uno com o ambiente, camuflando e explorando esta interação.

Olá, eu sou fragmentação.

Objetos, palavras, metáforas. O corpo é nossa ferramenta de maior carga de expressão e memória. Marca, cicatriz, um roxo, uma postura, um gesto, uma mania, um tique transmitidos metaforicamente pelo ser, pelo ter, com a única certeza de manifestar - sem perceber.

Eu sou algo pesado, disposto de forma delicada. Sou controladora, metódica, racional. Sou doença, sou cura, sou detalhista e delicada, delicadeza com a cabeça cheia. Sou um mapa mental e sentimental do relacionamento com uma situação de saúde. Sou tristeza, depressão, viúva de um milhão. Sou camuflagem. Espere, não olhe agora, é só o tempo que demora. Sou o branco superstição, sou louca, contramão. Eu sou um Dèja Vú. Sou a síntese, o que corrói, consome, dói. Sou o que modifica o olhar e intensifica o mundo. Letras nem sempre são palavras. Eu sou memória, sou sentimento, sou angústia e sou saudade. Qualquer coisa pela qual fui taxada, é só uma parte pequena de mim, assim como não saber assobiar ou conseguir anota o alfabeto. Não sou apenas algo sobre mim. Sou a intervenção que trata da luta, uma luta imensa. Uma luta para aceitar, uma luta para entender.

A performance como linguagem carrega em si a presença do artista sem a permanência. Estar para fazer, sendo a permanência sem o ser. Vociferar sem acatar. Transparecer o que, não necessariamente, faz parte do que há dentro. Ausência do corpo presente. Marcas do marcador. Dissipação.

Seu corpo não carrega só seu corpo.

*Dinâmica guiada pela Profa. Dra. Juliana Martins Rodrigues de Moraes


Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados. .
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