homúnculos lúdicos

Literatura e arte como a legislação oculta do mundo

Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados.

um jogo de chá nunca é apenas um jogo de chá: a ação estético-política das sufragistas

Política e arte sempre andaram juntas. O movimento feminista mais do que nunca encontra espaços de fala e ação. Bem como o filme dirigido por Sarah Gavron (Universal Studios, 2015) a artista argentina Carla Zacagnini destacou a ação política das Sufragistas, grupo que lutou pelo direito de voto às mulheres na Inglaterra no início do século XX, sendo precursoras de um movimento que se estende pelo tempo em diversos países. Mais do que vidros quebrados, a artista explora o significado por trás de cada ação destas mulheres.


1912parade.jpg Passeata das Sufragistas circa 1912

Desde de 2014, a artista argentina Carla Zaccagnini trabalha na obra Elements of Beauty: Um Jogo de Chá Nunca é Apenas um Jogo de Chá. Esta obra encontra-se exposta no Museu de Arte de São Paulo (MASP) até o dia 14/02/2016.

A obra se estende em um único corredor; neste, diversos dispositivos de reprodução de áudio são distribuídos, em frente a molduras pretas, pintadas na parede, de diversos tamanhos, sem nenhuma imagem dentro destas.

Cada áudio conta uma história. No início de cada um, é dito o nome da suposta pintura ali representada. Estas obras, pertencentes a séculos e décadas distintos, tem algumas características em comum. A primeira delas é que todas as obras possuem a representação do feminino; todos elas mostrariam “mulheres em seu papel adequado baseando-se em uma Inglaterra Edwardiana”. É através deste audioguia que Carla Zaccagnini aponta os motivos de esta obra ser atingida ao em vez de outra, e qual a relação com o tipo de golpe em relação com a obra selecionada. Há por exemplo uma relação entre a escolha da obra O Ultimo da Tropa (1875, óleo sobre tela, Briton Rivière) ter sido atacada com um martelo. A pintura representa o término de uma batalha. Após a ação, é definido neste guia que “as cicatrizes justapostas na tela justapondo-se aquelas pintadas, rastros figurados da ação humana sobre a matéria inerte”.

Outro ponto em comum é que estas obras foram atingidas pelos ataques do grupo militante das Sufragistas. O grupo era formado por mulheres que lutavam pelo direito do voto feminino. As ações aconteceram dentro de galerias de arte, especificamente na Manchester Art Gallery, National Gallery, British Museum, Royal Academy, Royal Scottish Academy, Dore Gallery, Birmingham Museum and Art Gallery e a National Portrait Gallery. Os ataques começaram na Manchester Gallery, decorrentes de outra ação feita pelo grupo. Em 1913, começaram a quebrar vitrines de lojas e janelas de casa, quebrando a separação simbólica do ambiente público e privado. As sufragistas diziam que este limite só poderia ser respeitado no momento em que as mulheres tivessem o direito de voto. A ação delas era em busca da democracia; cansadas de ações verbais que apenas geraram respostas verbais insuficientes, a busca pelo ato ao em vez da palavra se iniciou.

"A justiça é um elemento de beleza assim como o são a cor e o traço sobre uma tela" Mary Richardson, 1914, no julgamento decorrente ao ataque proferido à obra de Velàzquez Vênus ao Espelho. Segundo Richardson, os cortes feitos a faca na obra são “hieroglifos” capazes de expressar algo “para as gerações do futuro”.

Utilizar as obras de arte pertencentes a galerias como meio desta ação tem algumas explicações. A primeira delas está relacionada ainda com os ataques a vitrines e janelas, dizendo que barreiras não são capazes de proteger nem mesmo as tão renomadas obras pertences a grandes museus. Mais que isso, segundo Zaccagnini, as Sufragistas entendiam a arte como agentes dos papéis sociais e desta forma capazes de uma função política e histórica ativa, inclusive durante sua existência museológica.

O papel da mulher e o cenário socioeconômico atuam de forma intensa neste projeto. É largamente trabalhado pela artista a participação de minorias em decisões democráticas. Ao listar quais funções as mulheres exerciam relatadas pelo sensu de 1851 ela ressalta que mesmo que em ampla atuação, não havia nenhuma visibilidade ou representatividade significativa para o gênero feminino. Como dito pelo curador da exposição, Fernando Oliva, questões como “o conservadorismo das elites políticas que resistem ás mudanças, a crise de identidades sociais e da representação na esfera pública do século XX, o ativismo e o confronto às estruturas de opressão e por fim e especialmente o desafio do poder constituído pelo sistema de arte e suas instituições, do qual faz parte o tratamento desigual dado às artista do sexo feminino” são questões que movem o projeto.

São citados os locais onde mulheres trabalhavam (quando assim lhes era permitido pelo cônjuge) segundo o sensu de 1851. Dentre eles Bares, bibliotecas privadas, cervejarias, comércio de carvão, milho e batata, confeitaria, escolas primárias mistas, hotéis, livrarias, lojas de tecidos, pousadas, revistas, tabacarias, tavernas, teatros. Neste sensu foi registrado que na Inglaterra haviam mais mulheres do que homens. Mesmo que estas fossem responsáveis pela produção de água mineral, água com gás, algodão, arreio, artigos de lã, azulejos, balanças, bolos, biscoitos, brinquedos, cachimbos, cadeados, cadeiras, charutos, cerveja de gengibre, colheres, comprimidos, cordas, cortiças, dedais, fios, freios para montaria, garfos, instrumentos musicais, joias, lanolina, linguiça, maquinaria, martelos, molho, óculos, papel, prataria, pregos, quadrantes, ração para gado, rendas, relógios, roupas de bebê, roupas de gala, sedas, selos, tabaco, tambores, tapetes, tijolos, utensílios para lareira, vela e vidro, fora registrado somente cerca de 10 funções exercidas em maior número pelas mulheres, como por exemplo bailarina, cartomante e modelo para artistas.

Citar todos estes utensílios possui direta ligação com o título da exposição. A tradição de beber chá era alastrada pela Inglaterra em todas as camadas da sociedade. Durante muito tempo, a tradição de servir chá dizia que o leite deveria ser servido primeiro. Isso porque o material da porcelana era muito frágil; em contato direto com a água fervente, poderia se romper. Com o passar dos anos e o desenvolvimento de novas técnicas, a forma de servir o chá se tornou um ato de elitismo. O leite passou a ser servido impreterivelmente por último, de forma que ficasse claro se tratar da mais fina porcelana.

Um jogo de chá nunca é apenas um jogo de chá; uma janela nunca é apenas uma janela. Uma obra nunca é apenas uma obra.


Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados. .
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