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Literatura e arte como a legislação oculta do mundo

Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados.

Acerca do Processo Criativo

O processo criativo é sempre único. Cada criador tem seu caminho de chegar à sua criatura. Mas o que todos tem em comum é que nenhum processo é curto, muito menos simples.


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Todos que fazem parte de alguma área criativa – vou me focar aqui naqueles que são criadores de artes visuais – já ouviram de alguém que não tem proximidade com criação artística coisas do tipo “qualquer um faz isso”, “até meu filho pode fazer um desses", “isso não tem sentido nenhum” e até questionamentos sobre algumas criações serem ou não uma obra artística. Bem, não vou entrar no mérito de que algumas dessas alegações podem ser facilmente desconstruídas se colocarmos cada criação, cada obra, no contexto em que nasceu, nem que o momento histórico tem muito a ver com as transformações ocorridas nas artes – do realismo renascentista às obras geométricas de Mondrian ou mesmo o famoso read made trazido à tona por Duchamp. O que pretendo aqui é falar um pouco do processo criativo através da criação de uma serigrafia feita por mim, a fim de demonstrar como o processo criativo vai muito mais do que o momento de materialização com papel, tinta, tela, ou qualquer que seja a linguagem utilizada.

Meu caso foi a serigrafia, linguagem gráfica que é também utilizada para a estamparia, mas que aqui foi utilizada para gravura. Decidi utilizar o processo fotográfico, onde o desenho é feito em papel vegetal e transferido para a tela de serigrafia através de uma emulsão fotográfica. Quando exposta à luz, a emulsão seca e a área que estava desenhada em preto no papel vegetal, se torna a área que não recebe luz e mantém o tecido com as tramas abertas para que a tinta possa passar. Por isso a linguagem gráfica é bastante usada na estamparia: a possibilidade de reproduzir uma imagem por diversas vezes a partir de uma matriz.

010.jpg Tela serigráfica, já bastante desgastada e o registro de separação de cor.

Optei pela utilização de três cores para o meu processo. Por que? Bem, eu estava lendo Pelas Paredes, memórias da performer Marina Abramovic quando comecei o projeto e ela conta que suas primeiras pinturas, suas primeiras criações, tinham muito a ver com três cores específicas se perpassavam o imaginário dela (verde-musgo e azul marinho). Eu tinha uma relação bem parecida com o magenta, o rosa e o roxo, então resolvi evocar isso. Até aqui já deu para perceber que não são só de tinta e papel que algumas obras são feitas. Mas o processo não terminou aqui.

000.jpg Foi bem frustrante perceber que o processo não estava finalizado pela má escolha de cores..

Na primeira tiragem percebi que os tons que haviam no ateliê não fizeram jus a minha concepção. Portanto, para chegar no resultado final, foram necessárias mais de 60 impressões para chegar numa tiragem final com 4 gravuras. E tudo isso foi necessário porque a cada cor, o encaixe da tela precisava ser refeito, bem como o encaixe do papel embaixo da tela já gravada. E mesmo com marcação na mesa, é bem fácil de errar por alguns milímetros e deformar sua imagem. Eis alguns exemplos de impressões que deram errado.

Thumbnail image for erros de impressão.jpg Exemplos de erro de impressão

E depois de várias horas de ateliê, alguns dias na verdade, além do processo de gravação, leitura e concepção da ideia, foi o seguinte resultado alcançado:

0000.jpg "That Change from G to E minor", serigrafia sobre papel, 2018. Daniela D'Errico.

Caro leitor, trago este exemplo para que reflitam sempre que se depararem com um fato, uma conquista, uma criação, independente de qual tipo, tenham uma certeza: ela não surgiu do nada.

*Processo orientado pela professora e artista visual Katia Salvany


Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados. .
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