homúnculos lúdicos

Literatura e arte como a legislação oculta do mundo

Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados.

E o que você fez?

E nessa época do ano todos olham para trás e pensamos no que vivemos e começamos a refletir, então devemos refletir sobre esse momento também.


c5b85967fd65f8aae9fee845a0cd0ad9.jpg E nessa época do ano todos olham para trás, então devemos refletir sobre esse momento também.

Festas de fim de ano começando. Comerciais cheio de encenações de amor, de famílias felizes, de presentes, refeições grandiosas... Mas cada um tem sua tradição e sabe o que fez, o que queria fazer e o que deixou de fazer. E é sobre todas essas expectativas que eu queria falar.

Se me perguntassem há um ano atrás que estaria onde estou, com quem estou, e principalmente, como estou, eu não acreditaria. E quem convive comigo sabe o quão grata sou à todos que estiveram comigo; à todos aqueles que conheci. Ás batalhas que venci, e as que perdi também. A oportunidade de poder lutar todas elas até vencer. Mas o que vejo muito, também, são as decepções.

Pela primeira vez em muitos anos, pessoalmente, não tenho nenhuma. Absolutamente nenhum arrependimento ou decepção. Mas sei o quão raro esse sentimento é.

Sei o que é encarar um fim de ano onde, bem, o ano não se concluiu. Uma das nossas grandes tradições dessa fase do ano é traçar metas para o próximo ano e, se chegamos no fim do ciclo dos 365 dias sem ter atingido tudo o que almejamos, há vários sentimentos dúbios. Ainda mais hoje, com as famosas postagens com foto de família, as selfies com a legenda “gratidão!”, das viagens.

Bem, a verdade é que nunca sabemos o quanto disso tudo é real. E se é, nós não sabemos o quanto custou. Não falo em valores materiais apenas. Não sabemos quantas horas extras aquele colega fez para conseguir levar a família para viajar no fim do ano. Quantas festas deixaram de ir para cuidar da família. E também não sabemos o quanto alguns precisaram se recolher para se recompor e enfrentar o próximo dia.

Cresci muito com o que vivi neste longo ano que foi 2018 – que, realmente, pareceram vários anos dentro de um. Mas o que mais aprendi é que essas épocas não são para agradecer ou esbanjar. Nesse fim de ano, não internalize o que deixou de fazer, se precisou deixar de fazer, se fez mais do que precisava e não recebeu o retorno que queria, ou se simplesmente não aconteceu como gostaria que acontecesse. Tente aprender com as perdas, por mais marcantes que elas possam ser.

Viver seu próprio tempo é que deve ser tradição. Respeitar-se deve ser rotina. E agradecer que, pelos próximos dias, pode continuar a tentar – seja lá o que desejar. Agradeça por ainda poder aprender.

Agradeça que você ainda pode tentar.


Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// //Daniela D'Errico