homúnculos lúdicos

Literatura e arte como a legislação oculta do mundo

Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados.

Artur Lescher: Contraditórias Narrativas Utópicas

A partir do dia 23 de março deu-se início a exposição Suspensão de Artur Lescher na Pinacoteca Estação, em São Paulo. A curadoria de Camila Bechelay possui como objetivo uma retrospectiva com obras pontuais, reunindo aproximadamente 120 trabalhos, entre eles instalações, esculturas, maquetes e cadernos com estudos e pensamentos do artista, e as dividindo em três eixos temáticos: Suspensão, Narrativas líquidas e Engenharia de Memória. Crítica feita pelas artistas visuais Aya Andrade, Daniela D'Errico, Luana Lousa e Sabrina Felippe.


Há mais de trinta anos, o artista discute em seus trabalhos questões como noções da gravidade e a relação da obra com o espaço, buscando limite entre eles. Questões que foram levadas à materialidade de forma desfavorável às obras. Até certo ponto, as obras correspondem com o intuito do artista. A primeira traz obras que falam a respeito da fluidez de materiais como os metais, e malhas de aço por exemplo, trazendo formas de como estes podem ser trabalhados de modo a desafiar os limites das matérias que são aparentemente rígidas e pouco maleáveis. Nesta parte da exposição destaca-se a obra composta por estrutura de ferro maciço e diferentes sais, que permanece em constante mudança devido à corrosão desses sais em contato com o metal e com sua exposição ao oxigênio, o qual acaba por desenvolver uma coloração azulada e esverdeada de saturação elevada, adquirindo uma cor chamativa, em especial quando colocada em contraposição com outras obras expostas na mesma sala – que carregam tonalidades menos saturadas dos metais polidos e trabalhados. Esta obra se torna interessante justamente porque esta reação está acontecendo a todo momento, e pode levar a obra à mundaças imprevisíveis, sempre se renovando com o passar do tempo. Apesar do artista definir como acabada para ser exposta, a obra ainda permanecerá corroendo, fazendo-a possuir um tempo próprio no qual irá se estender até todo o material ser corroído.

Em “Rio Máquina” (2011) e “O rio” (2006), as obras instigam o expectador para testar sua movimentação, porém, por serem esculturas, não é possível essa interação. O artista busca desafiar a rigidez de seus materiais, dando a eles fluidez, leveza e movimento. Em “Memória” (2006), o artista escreve em óleo as letras que existem na palavra “memória” que não são permanentes, pois o material é líquido, fazendo-me associar com acontecimento de uma memória que se esquece, ou com o tempo se esvai. Lescher tem em sua bagagem a influência da filosofia e da mitologia, de forma que o ambiente de “Suspensão” busca trazer um ar cósmico, de ruptura com o mundo terreno – devido ao seu posicionamento extremamente calculados e a forma de alguns pêndulos da instação remetendo ao formato das estelas – tentando levar o espectador ali presente a este local do não-tocável, reforçado pela polidez dos elementos.

A nomenclatura deste módulo convocam a junção das duas poéticas das obras expostas nesta seção. Essas palavras trazem temporalidade, fluidez, movimento, volatidade, ciclo, passagem, algo que se dissipa; trazendo o sentido de “passagem do tempo”. O material, em sua maioria apesar de sólido, remetem ao líquido; além associar à indústria, ao frio, mas ainda conectado ao orgânico, à vivacidade da natureza e das águas. O módulo “Suspensão” é o que dá nome à exposição. Nela, pêndulos de diversos materiais são expostos em pontos de referência do céu, sendo o conjunto uma possível constelação ou um mapa astrológico. Nada encosta no chão, passando uma sensação de equilíbrio e leveza para materiais comumente pesados. Aqui, o artista procura tratar da leveza também dos materiais tipicamente industrais como cobre, o latão e o aço. As obras, meticulosamente realizadas, com polimento impecável, que acabam por trazer uma ambientação imaculada, criando realmente um novo lugar, já que entra em um perfeito contraste com o que acontece do lado de fora na ruas. Ao entrar neste espaço, os pêndulos buscam trazer a leveza e a suavidade dos materiais pré-fabricados enquanto as pessoas, corpos orgânicos, presos ao chão pareciam ser os pesos que ali não pertenciam. Todo o lugar fora trabalho de modo a passar esta sensação, proveniente de uma amostragem que evoca ao de cubo branco, onde tudo que esta ali presente é tido como intocável, precioso. Diferente do que pode ser observado em “Narrativas Líquidas”, apesar de existir poética nos trabalhos de “Suspensão”, estes não ficam tão evidentes, evocando um caráter decorativo que passa pela possível leitura de que se trata de um conjunto de estudos de materialidade. Quando as obras em “Suspensão” foram expostas em Palais d’Iêna, Matthieu Poirier descreve que estas obras de Lescher conversam com a arquitetura do local ao refletir seus detalhes, fator que tentou ser reproduzido na exposição vista na Pinacoteca Estação em São Paulo. As colunas instaladas na exposição de São Paulo buscam reproduzir aquelas presentes na exposição francesa, porém estas tiravam um espaço que poderia ser de passagem para melhor observar as obras, atrapalhando sua leitura, enquanto as que estavam longe das colunas evocavam uma fluidez para circular entre os pêndulos, as que estavam próximas pareciam ter uma interrupção abrupta no momento de contemplá-las. As obras estão expostas com uma distância de aproximadamente um metro e meio de cada, ou seja, é impossível ver uma obra como única, além de que um pequeno afastamento distraído pode fazer com que o observador colida com alguma outra obra; neste momento as colunas novamente se tornam um empecilho para a absorção dos fatores que o artista tenta propor. Tal paralelo com a arquitetura apenas reforça a visão de que a obra não se sustenta para além de seus fatores plásticos. Para tal, o texto curatorial feito por Camila Bechelany se faz necessário para que haja uma leitura mais ampliada da obra e alcance aquilo que o artista pretendia. A relação com o celestial ou com o astrológico, por exemplo, como é dito em alguns momentos só se torna compreensível através dos títulos, mesmo quando as obras remetam á formatos de estrelas. É compreensível, inclusive, que grande parte dos observadores se sintam em lojas natalinas comprando penduricalhos para suas árvores de natal, possuindo inclusive a apreensão de quebrar algo. Este aspecto de suspensão e retração do espectador em relação às obras pode ser despertado também pelo formato pontiagudo destas esculturas. O módulo “Engenharia da Memória” possui obras com projetos irrealizáveis se transferido para a área que a nomeia. O local que ela foi exposto fica em contraposição com a realidade da cidade de São Paulo, fazendo que seção inteira possua uma ressignificação pois parece uma utopia sonhada versus realidade em degradação. Com esse novo significado, as obras que possuem projetos impossíveis parecem ainda mais distantes, se tornando ilustrações de ideias do artista. De fato, a exposição te leva a um outro lugar, mas isto justamente por estabelecer uma relação com todo o caminho que é percorrido para chegar ao prédio da Pinacoteca, levado novamente ao visitante pelas enormes janelas do local que permitem que este cenário urbano seja acessado mesmo que dentro deste “local suspenso“ que o artista busca trazer. Enquanto do lado de dentro encontram-se materiais caros, bem polidos, limpos, muito bem colocados e expostos, do lado de fora, podemos ver a pobreza do centro de São Paulo, e de como existem realidades opostas neste espaço. Nesta etapa da exposição, podemos também ver os sketchbooks do artista com croquis e maquetes de seus projetos, mostrando um pouco o seu modo de pensar e de como planeja realizar as suas obras. Depois seguimos para outro espaço o qual mostra esculturas de ferramentas utilizadas em processos arquitetônicos, mostrando esta forte relação do artista com estes meios matemáticos e de construção. A terceira e última sala é a Engenharia da Memória, onde a curadora descreve a produção do artista como uma cidade imaginada. A sala é constituída basicamente de projetos e estudos de Lescher. Apesar de serem interessantes, o modo de exposição não foi muito agradável. Sendo mais específica, existia um pedestal baixo com aproximadamente três metros de comprimento que expunha cerca de 18 obras juntas, como se as obras estivessem sobrando e a solução expográfica aparente ser puramente arbritária. O artista possui obras interessantes, mas seus trabalhos aparentam terem sido expostos no local errado. Ou seria algo proposital? Em um momento, estamos vendo obras que não são acessíveis a qualquer pessoa, que não são compreendidas sem uma base prévia e que claramente possuem um alto custo para serem produzidas, já que são materiais caros e, devido a seus tamanhos, são necessárias maquinas industriais para produzi-las, e em outro momento, olhamos para a janela e vemos pessoas desabrigadas nas ruas, pedindo dinheiro para a compra de alimentos ou para a compra de entorpecentes, pessoas essas que claramente jamais seriam permitidas de entrarem na exposição ou até no prédio. Seria esse o questionamento maior que a Curadora nos propõe sem deixar explícito em um texto de parede? Ou seria apenas algo não levado em conta ao escolher o local? Considero uma pena se esse “detalhe” não fosse levado em conta, pois acaba sendo o fator mais provocativo do que aqueles propostos pelo artista. Portanto, nessa exposição, apenas “Narrativas Líquidas” é capaz de levar ao espectador a poética proposta – que é, evidentemente, bastante elaborada pelo artista. Porém esta requer auxílio da curadoria para se fazer visível. O módulo de “Suspensão” é interessante apenas pela estética visual da seção como um todo; e a “Engenharia da Memória” deveria ser renomeada para “Engenharia do Sonho” pela ressignificação que obteve no local que foi exposto.


Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados. .
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