homúnculos lúdicos

Literatura e arte como a legislação oculta do mundo

Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados.

Pensar o Frágil

Em tempos de incerteza, fomos colocados para refletir sobre vários aspectos no viver humano. Em 2015, no meu processo de pesquisa de Iniciação Científica, reservei algumas páginas para refletir o social e o psíquico que iriam refletir minha produção visual. Extraio, neste artigo, uma reflexão sobre a qualidade do frágil, inerente ao ser humano. É na incerteza que nos mostramos indefesos diante a nós mesmos. É através de autores como Jung, Fromm, Daine Arbus e Raduan Nassar que trabalho características deste frágil humano neste recorte de artigo.


Frágil Magnificência.png Fotografia da série Frágil Magnificência. São Paulo, 2015.

Segundo o dicionário da língua portuguesa publicado pela Editora Porto, existem cinco definições para a palavra fragilidade:

1. Qualidade do que é frágil, pouco resistente;

2. Debilidade física, aparência franzina;

3. Tendência para se submeter a vontade dos outros; fraqueza;

4. Falta de consciência, instabilidade;

5. Falta de bases, ausência de consolidação;

Dentre elas, há uma que interessa especialmente a este trabalho, Fragilidade (adj. Fem.): Falta de consciência, instabilidade.

Apesar de o dicionário nos indicar a sua definição, fragilidade é uma palavra que nos sugere um estado e nos oferece um ponto de partida para pensar a instabilidade.

O que seriam, fragilidade e instabilidade, quando conectados à psique humana? O psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) usa a definição de psique humana como sendo processos psíquicos conscientes e inconscientes, que reflete objetivamente na formação somática, sendo a verdadeira portadora e geradora dos princípios morfogenéticos. Estes processos são estruturados em três categorias: consciente, inconsciente pessoal e inconsciente coletivo (Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo – Vol. 9/11, 2011). O consciente se trata do aparelho psíquico que se mantém em contato com o mundo interior (processos psíquicos) e ao mundo exterior, sendo este o meio ambiente e o social; aqui estão contidos o senso de identidade, raciocínio, memória, bem como outras funções cognitivas e mentais. Com uma barreira imprecisa ao consciente, o inconsciente pessoal é a camada mais superficial do inconsciente. Nela estão contidos características derivadas da formação do indivíduo, posteriores ao nascimento. Nele estão conteúdos formados por percepções subliminares, combinados com idéias que não possuem energia psíquica o bastante para irromper no consciente. Memórias deixadas de lado pela consciência, além de desejos reprimido, repressões sexuais e experiências dolorosas a serem esquecidas; qualidades da personalidade, sejam essas positivas ou negativas. A manifestação destas, proveniente de uma forte carga emocional, é muitas vezes incompatível com o consciente do individuo. As bases dessa energia estão nos arquétipos, presentes no inconsciente coletivo. Essa energia, ao irromper o inconsciente, pode se manifestar através de sonhos, comportamentos, fantasias e devaneios. O inconsciente coletivo é a base da psique humana, sendo sua camada mais profunda. Nela, características anteriores ao nascimento são herdadas, como por exemplo os arquétipos – como o conceito de nascimento, mãe, morte, sol, lua, fogo, poder, entre outros.

Tendo em vista as definições já citadas, a fragilidade psíquica seria a instabilidade da consciência ou a total ausência desta. A ausência total ou parcial da consciência está longe de significar o não funcionamento da mente. Não se trata de entender a fragilidade como a falta de consciência fisiológica, tal como nos casos de estados vegetativos. O que nos interessa na ideia de fragilidade é que se por um lado ela é vista como um sintoma corriqueiro, portanto, tratada com pouca importância, por outro, ela é justamente o sintoma da opressão das mentalidades de nossa sociedade normopata – citando Flávio Carvalho Ferraz, de sua obra Normopatia, da Coleção Clínica Psicanalítica (2005, p. 21) “A palavra ‘normopata’, na acepção que sua criadora lhe deu, foi inventada para tentar retratar um certo tipo de paciente aparentemente bem adaptado e ‘normal’, isto é, sem um conflito clínico ruidoso, seja neurótico, ou psicótico. Mas o trabalho analítico com este paciente chegava invariavelmente a um impasse, pois ele tinha uma imensa dificuldade – quando não a total impossibilidade – de fazer um mergulho profundo em seu mundo interno, exigência básica para o sucesso de uma análise. Tal configuração psíquica se trata de ‘normopatia’, e não de ‘normalidade’, porque é uma normalidade falsa ou apenas aparente; melhor dizendo, é uma normalidade estereotipada ou uma hipernormalidade reativa, decorrente de um processo de sobreadaptação defensiva”. Esta adaptação é necessária pois a sociedade em que se é inserido exige uma forma de comportamento e pensamento predeterminado, não condizente ao ser humano.

Ao decorrer da história várias forças que agiam sobre o ser humano passaram a perder seu poder hegemônico, como a religião e a política autoritária. O psicanalista e estudioso alemão Erich Fromm (1900-1980) observa em sua obra O Medo A Liberdade (1965) que apesar de atingir liberdade de expressão, tal conquista ofuscou outras forças que agem sobre o ser. Estas são as autoridades anônimas, exemplificadas pelo autor como a opinião pública e o “senso comum”, “[...] tão poderosos devido à nossa profunda presteza em conformar-nos com as expectativas que todos tem a nosso respeito e nosso temor igualmente entranhado de sermos diferentes” (1965, p. 96)

O jogo de forças que se operam na Autoridade Anônima – conceito trabalhado por Erich Fromm - intensifica o processo do constante embate entre a configuração e reconfiguração das subjetividades. De modo que quando se "ignora" o jogo de forças em constante atrito, e não se tolera habitar o lugar de instabilidade, dúvida, medo, angústia, imediatamente cola-se a um ideal de identidade e altera-se a forma de pensar com o objetivo de adequar-se, adaptarse, integrar-se. Esta necessidade de adaptação vem do instinto humano (gregário) de manter-se pertencente à sua espécie, ao seu grupo, aos ideais vigentes. A autoridade anônima trabalhada por Erich Fromm está diretamente relacionada com o inconsciente coletivo de Carl Gustav Jung. Tendo em vista que o inconsciente coletivo carrega ideias que são anteriores ao nascimento (os já citados arquétipos), é nele que residem forças aquém do ser, já que é pela vivência cultural que estes arquétipos – predefinições - adquirem forma concreta. Nesta camada não existe nada de único ou individual, tais adjetivos se aplicam às outras camadas, da consciência e do inconsciente pessoal. Luiz Fernando Carvalho (1960), cineasta brasileiro, dirigiu a versão cinematográfica do livro Lavoura Arcaica, escrito pelo imigrante libanês Raduan Nassar (1935), que conta a história de uma família provinciana, de estrutura estritamente patriarcal. O protagonista, André, um dos sete filhos (quatro mulheres e três homens), se vê sufocado pela rotina da fazenda e dos exaustivos ensinamentos do pai, bem como atormentado pela paixão que nutre por sua irmã, Ana, o levam a fugir da fazenda e buscar um vilarejo. Seu irmão mais velho, Pedro, parte em busca de André, e tenta convencê-lo de que sua partida desmantelou a estrutura familiar. É neste momento que André se posiciona e confessa que a família já há muito não funciona. É então que a discussão de valores se torna o centro da trama. André é um personagem exacerbadamente sensível, o que torna a rotina de labuta da fazenda e rigidez da família insuportáveis a ele. Na ânsia familiar de manter-se em tradição, surge a este personagem uma frustração que nada mais é que um assombro abstrato, tendo em vista que a forma de vida em que pudesse encontrar a plena satisfação é longínqua o suficiente para ser uma incógnita perturbação. A fuga marca o momento em que os escape imaginário dos momentos de isolamento tornam-se irrisório.

Um momento marcante na vida desta família é a reunião a mesa de jantar, onde, na ponta destas, o pai proclama os sermões que ouvia de seu pai. Para grande parte da família, se tratava de um momento de conforto e pausa da rotina maçante de afazeres domésticos e trabalho agrícola. André descreve, em um destes sermões, como enxerga a distribuição da família diante a mesa, colocando-os como uma grande árvore. Nesta árvore, o pai simboliza o tronco, a estrutura familiar, as raízes. Do lado esquerdo, está Pedro, o mais velho, seguido de suas irmãs; o personagem descreve esta “ramificação de galhos” como saudável, aquela que tem ligação direta com as raízes, capaz que seguir todos os ensinamentos provenientes desta. Já o lado direito da mesa, iniciado pela matriarca, marca uma quebra na ligação (já que ela não possui ligações sanguíneas com o patriarca, enfatizando também o tipo de estrutura imposta no ambiente), e os “galhos” que a segue (André, Ana e Lula, o caçula, que também planeja sua fuga) está apodrecido, condenado pela relação de André e Ana, a “rebeldia” de ambos e a renuncia de Lula ao trabalho na fazenda. Esta descrição da estrutura pode ser vista de forma que explica como a imposição de ideias e valores (sejam essas institucionais ou outras) podem agir em um grupo de indivíduos. Há aqueles que acreditam nos dizeres que lhe são impostos, acatando-os sem questionar e, mesmo que haja questionamento, a posição em relação a estes continua sendo de passividade e aceitação. Enquanto, por outro lado, há indivíduos cuja realidade não se encaixa ao que foi imposto o bastante para que a vida dentro desta torne-se insuportável e insustentável. É neste momento que a perturbação se transforma em fuga, onde surgem as contraposições e movimentos alternativos aquilo que é propagado. A todo momento estes são colocados como doentios (do ponto de vista da saúde alienada, descrita por Erich Fromm como “aqueles que são capazes de cumprir seu papel perante a sociedade que lhes é imposta” (Psicanálise da Sociedade Contemporânea, 1967, p. 188) e há todo momento há algo que descaracterize a oposição – marcado na história pela busca de Pedro por André e a tentativa de convencê-lo a voltar.

Há outro exemplo cinematográfico marcado pela estrutura familiar aprisionadora e seus efeitos no indivíduo. A Pele: Um Retrato Imaginário de Diane Arbus (2006), filme dirigido pelo cineasta americano Steven Shainberg (1963), conta uma história fictícia tendo como protagonista a história da fotógrafa nova yorkina Diane Arbus (1923-1971). Na trama é contado como Diane adentrou o mundo da fotografia, através do estúdio de seu marido. Ela se encontrava em uma rotina sufocante e insatisfeita, até que Lionel, pertencente ao circo, torna-se inquilino em um apartamento acima do seu. É através de um romance com Lionel que Arbus começa sua busca pelo excêntrico, pelo desconhecido. Pela imagem de pessoas deformadas ou pertencentes ao circo é que ela explora essa população considerada a escória de Nova York, fugindo de sua rotina.

Com os modos de vida produzidos pelo modelo econômico no mundo contemporâneo ocidental, estabeleceu-se um padrão de comportamento moral relativamente restrito. Assim, há diversas formas do pensamento humano que acabam sendo reprimidas para encaixar-se nestes padrões. Caso não o faça, a pressão e dificuldade de ser, de existir, na convivência destes ambientes tornase caótica e frustrante. Igualmente frustrante torna-se o abafamento dos comportamentos e pensamentos divergentes.


Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados. .
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