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Literatura e arte como a legislação oculta do mundo

Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados.

Porque aula online não é aula: nós queremos estar com nossos alunos

Esse texto é um desabafo. Não é para desmerecer aulas online, muito menos aqueles que estão fazendo parte deste universo. Mas existe uma gratidão muito grande na rotina do docente que a telinha só faz o coração sangrar.


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Sou uma docente bebê, em formação. Mas uma verdade que é real para aqueles apaixonados pela docência como eu é o que nos leva a lecionar. Salário? Não. Prestígio? Onde?

É que, na nossa rotina, o conteúdo acaba sendo um detalhe. Não no sentido de ser um capricho, isso seria errôneo, mas que, na rotina da sala de aula há um universo que vai muito além de cumprir o ano letivo. A cada dia vejo relatos e mais relatos de colegas professores ao redor do mundo dizendo o quão exausta essa nova rotina é, o que é fato. E isso tudo me lembra um texto que li em um livro didático de língua portuguesa sobre o futuro da educação com a tecnologia. Eu o li em 2010, mas acredito que o texto era de 2005. Infelizmente não terei acesso a ele para citar, mas lembro que cheguei a reescrevê-lo em meu caderno. O motivo? Pavor.

Aquele texto que contava com que a professora era um robô, e as lições eram recebidas em casa, em um quarto isolado, era a realidade dos alunos me deixava em pânico. Já naquela época eu via a escola como eu lugar seguro e reinventa-la neste formato me parecia impensável. Frio. Sozinho. Ficar sem meus passeios à biblioteca? Não, não, não. Conversas com os professores no fim da aula não existirem? Quero não! Depois que tive a experiência de estar do outro lado da moeda da sala de aula, o sentimento se intensifica.

E é esse meu pavor da adolescência que estamos vivendo.

A escola precisa se reinventar, nesse momento tão atípico, é um fato.

Só espero que, quando eu puder me chamar de professora experiente, eu possa voltar a contar dos casos dos alunos ao chegar em casa. Como quando aquela criança de chupeta que se escondia no canto do berçário se aproximou da roda depois de algumas aulas. As peripécias de alunos subindo nas carteiras. A arte dos pequenos querendo colorir minhas tatuagens. O colo que dei aquele aluno choroso que se frustrava e que pude dar um alento.

É o olho no olho, o sorriso, as risadas, os erros e acertos feitos em conjunto. As discussões sérias e as conclusões ingenuamente descabidas. É o conhecer o jeito da letra de tal aluno, as manias do outro; adentrar cada mini universo que entramos em contato a cada ciclo letivo.

Nós sentimos falta dos nossos pequenos. Mas acima de tudo, queremos eles bem. Então enfrentaremos a frieza, a solidão, para que nossas histórias sejam coloridas e nossas salas de aula, completas - no sentido mais literal possível.


Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados. .
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