homúnculos lúdicos

Literatura e arte como a legislação oculta do mundo

Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados.

Relato: Entraves Oníricos Entre Arte e Vida

Do meu entendimento de arte e do meu entendimento de psicanálise, julgo que a descrição onírica aqui apresentada retrata o quanto que sei de ambos, de alguma forma, se entrelaçaram sem que eu tivesse qualquer controle. Uma jornada pela minha rotina e o papel da obra Guernica, de Pablo Picasso, tomou nesse cenário. E aí venho aqui te contar uma historinha de como a obra de um artista que eu não gosto fez parte de um cenário onírico conturbado, mas tão cheio de significado quanto a obra em si. Como nossa rotina se enrosca na nossa memória. Como nosso pensar é uma caixinha de retalhos que nossa próprio inconsciente pode nos surpreender.


Pic1937Guer465_Copy.jpg Guernica, 1937, Pablo Picasso

Deixa eu contar um segredinho aqui: eu detesto Picasso. Não estou falando da pessoa, da sua importância na arte, da relevância das suas obras, posto que todos esses reconheço. Mas eu detesto, e discorrer tim-tim por tim-tim em termos de crítica de arte seria mera redundância. Eu só não gosto mesmo (é possível sim, fica tranquilo, você não enlouqueceu se não gostou de um clássico).

E aí venho aqui te contar uma historinha de como a obra de um artista que eu não gosto fez parte de um cenário onírico conturbado, mas tão cheio de significado quanto a obra em si. Como nossa rotinha se enrosca na nossa memória. Como nosso pensar é uma caixinha de retalhos que nossa próprio inconsciente pode nos surpreender.

Do meu entendimento de arte e do meu entendimento de psicanálise, julgo que a descrição onírica aqui apresentada retrata o quanto que sei de ambos, de alguma forma, se entrelaçaram sem que eu tivesse qualquer controle. Se tratava de um período da minha vida bastante turbulento, em diversos aspectos, durante minha formação como bacharel. Neste período de tantas energias psíquicas flutuando, é comum que sonhos bastante intensos ocorram, e foi o caso nesta noite em particular.

Sempre tive apreço por ter as paredes cobertas de trabalhos artísticos. Fossem meus, fossem de meus amigos e colegas do curso de artes visuais, fosse adquirido em lojas de departamento no setor de decoração. Nessa fase em particular, acabara de imprimir algumas imagens de uma série de televisão cujos personagens possuo muito apreço pela conexão entre suas jornadas pessoas e as minhas.

Naquela sexta-feira em particular, estava preocupada com a aula de sábado, não frequente, que teria naquela semana e a tomada de decisão se iria ou não. Estava bastante preocupada também com alguns afazeres domésticos, como ir à farmácia, e a vontade que estava de comer chocolate – cai no sono pensando que se fosse a aula, poderia ir até a cantina e logo depois, voltando para casa, poderia parar na farmácia no caminho. Mas onde estava a receita, mesmo? Todos esses detalhes, de alguma forma, apareceram nesse sonho bastante intenso, onde acabei comprando o remédio na cantina da escola junto do chocolate, com uma receita feita numa folha de caderno durante a suposta aula – a qual eu não fui quando acordei no dia seguinte.

Mas não foram esses detalhes do cotidiano que claramente se entrelaçaram nas minhas estruturas mentais que quero destacar. Veja, sempre tive o sono muito leve, portanto acordar durante a noite e observar os trabalhos os quais tenho tanto apreço, pendurados no meu quarto ou no corredor, fazem parte da minha rotina noturna.

Naquela noite, sonhei com estes momentos de contemplação, mas de extrema frustração. Toda vez que eu acordava, o quadro Guernica de Pablo Picasso surgia em alguma das minhas paredes. Uma das vezes em que acordei e me deparei com ela, esta estava em tamanho original na minha sala de estar – gigante, majestosamente assombrosa. Pedi ajuda para meu pai – que não mora comigo há cerca de 12 anos - para retirar, pois aquela dor monstruosa não poderia ficar ali, em tanto destaque. Aqui, nesta postura, já podemos identificar em como minha psique interpretou a obra como um sentir que estava fazendo parte da minha realidade.

Devo aqui abrir dois parênteses sobre a obra em questão. A primeira consideração é que Guernica é uma obra de pintura com caráter cubista – portanto, cheio de formas marcadas e disformes - que retrata os horrores da guerra na Espanha. Seus tons de preto e cinza, exclusivamente, trazem um ar de dramaticidade para a obra bastante expressivos. O segundo parênteses que devo abrir é que, pessoalmente, não gosto das obras de Pablo Picasso.

Pois bem, nesta narrativa onírica, após pedir para meu pai retirar a obra, volto a dormir, para acordar novamente vendo meu pai pendurando Guernica, desta vez uma miniatura. E eu, insistindo, disse que aquela dor não poderia ficar ali. Na manhã seguinte – ainda estou tratando do cenário deste sonho – me deparo novamente com a obra em miniatura, ainda na minha casa, dessa vez no corredor. Começa então uma discussão com o meu pai. A obra já não estava nem em tamanho, nem em local de destaque, mas ainda estava ali. Me coloco para dormir, e acordo com a obra pendurada na parede oposta à minha cama, dentro do meu quarto, onde uma máscara veneziana se encontrava. Desta vez, apenas voltei a dormir, me conformando com a existência da obra no meu quarto (meu espaço íntimo), mesmo que me incomodasse.

Posteriormente pude ter uma leitura bastante significativa deste sonho. Como estudante de artes visuais, muitas obras poderiam ter invadido meu imaginário. Por que, então, um retrato de guerra, em cores tão intensas, particularmente de um movimento artístico e de um artista o qual pessoalmente não possuo apreço algum (apesar de reconhecer a importância), invadira meu íntimo?

Nesse momento vi como nosso inconsciente pode ser engenhoso ao relacionar a arte com nosso sentir. Eu estava passando por um momento de enfrentar minhas angústias, particularmente adentrando um momento na minha vida onde expor essas angústias poderia gerar diversos dilemas em minha vida social e pessoal. O vetor, no sonho, foi uma das intrigas que vivia com o meu pai – que com mentalidades bastante opostas quanto à academia, à universidade e o ato de estudar em relação à minha – se materializou imageticamente no sonho pela briga de onde, como e qual versão da obra estaria na minha casa. Me conformar que essa falta de conexão com o meu pai em um tema tão importante na minha vida também fazia parte desse momento: retratada no sonho, por simplesmente ignorar a obra de Pablo Picasso no momento em que foi colocada no meu quarto.

Em algum momento eu soube que minhas intrigas pessoais estavam me gerando uma guerra interna, e meu inconsciente escolheu uma obra para retratá-la.


Daniela D'Errico

Artista visual, escritora, estudiosa eterna e assídua que optou pela docência para nunca largar a sala de aula. Caminhando entre o verbal e imagético, sempre interligados, talvez levemente poetizados. .
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