horizontalidades

Navegando fundo nas linhas do oceano imaginativo.

Noédson Santos

Acadêmico em Direito pela Universidade Federal da Bahia, em Regime de Dupla Titulação com a Universidade de Coimbra (Portugal). Vivo entre o chão e o céu. Jogo a vida com calma. Brinco de ser sério. Nego as certezas, eu ando na pista

LEITURAS FÍLMICAS E MULTIVISÃO EM “A TERAPIA DE FAMÍLIA VAI AO CINEMA”

Tomando o cinema como o contexto para construção de sentido, Célia Nunes e Sílvia Guerra, terapeutas familiares e autoras deste livro, entrelaçam, com maestria e estética, conceitos teóricos que permeiam distintas abordagens da terapia familiar e a vida vivida por protagonistas de distintos gêneros literários de filmes exibidos nos nossos cinemas.


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O ser humano é um ser simbólico e possui uma capacidade ímpar na natureza, a de se representar e ser representado de diversos modos, utilizando uma infinidade de códigos e signos. Valendo-se da arte, da literatura, de histórias e mitos para expressar suas ideologias e cargas valorativas.

Emerge deste contexto a linguagem fílmica, que é dotada de uma pluralidade de vozes e consegue agremiar diversos elementos (que muitas vezes estão difusos) num mesmo ambiente, funcionando como um catalisador que nos ajuda a visualizar como as sociedades se comportam e se transformam (ou se transformaram ao longo dos tempos), potencializando deste modo a percepção dos fatos sociais e históricos. Por isso:

“[...] ver um filme é, antes de tudo, compreendê-lo, independentemente de seu grau de narratividade. É, portanto, que, em certo sentido, ele ‘diz’ alguma coisa e foi a partir dessa constatação que nasceu, na década de 1920, a ideia de que, se um filme comunica um sentido, o cinema é um meio de comunicação, uma linguagem” (AUMONT; MARIE, 2006, p. 177).

O cinema, enquanto recurso pedagógico, demonstra-se incrivelmente eficaz para ilustrar comportamentos e congregar uma gama de informações capazes de transmitir ao receptor ideias e mensagens. Oferecendo aos espectadores a oportunidade de compreender alguns fenômenos, mitos, ritos e particularidades dos povos e culturas ao redor do mundo.

No livro “A terapia de família vai ao cinema”, as autoras, Sílvia Anastácio e Célia Nunes articulam de modo inovador e bastante didático a linguagem própria do cinema com as teorias, conceitos e terminologias advindos da psicologia e filosofia utilizados nas abordagens feitas pela terapia familiar.

Conforme ressaltam as autoras: “família é um tema atual, urgente e cujas implicações acabam sendo muito comoventes para aqueles que buscam entendê-la. Atual porque as transformações que tem havido no mundo globalizado não poderiam deixar de atingir visceralmente a sua estrutura, importância e até mesmo o seu papel na sociedade. Urgente porque a sua própria existência tem sido questionada, indagando-se até da necessidade de, hoje, continuar a existir a entidade família”.

A obra se divide em sete capítulos, cada um deles traz uma obra fílmica que serve como suporte para levantar questões importantes dentro do contexto das relações intrafamiliares, mas que também suscitam abordagens muito pertinentes sobre diversos outros temas muito relevantes e que de algum modo estão intimamente atrelados à família.

Por exemplo, ao se falar em outras instituições sociais como igreja, escola, governos e grupos auto-organizados invariavelmente somos confrontados com a dualidade de forças e valores que emergem de cada um destes setores, ou seja, somos convocados a perceber como o ser social vive numa grande trama de ideologias, ou melhor, como vivemos de um modo imbricado e totalmente imerso num grande circuito de inter-relações.

A utilização do cinema como recurso didático possibilita aos leitores uma aproximação fluida e tranquila em relação a conceitos acadêmicos muitas vezes densos e complexos. Assim, de forma dinâmica e bastante instigante Sílvia e Célia vão percorrendo os enredos e as tramas fílmicas, utilizando-as como caminho para a promoção de reflexões importantes e atuais.

As personagens de cada trama vão sendo colocadas a serviço do leitor como uma forma de ilustrar, ao vivo e a cores, os dramas, os dilemas, as crises, mazelas sociais, problemas de diversas ordens e fazendo-as de espelho, que refletem nossos próprios traumas e preconceitos velados.

A importância dos assuntos desenvolvidos no livro “A terapia de família vai ao cinema” e a originalidade como são tratados temas tão tensos e muitas vezes vistos como tabus na nossa sociedade, fazem desta obra um ótimo instrumento de reflexão. Por isso, o passeio proposto pelas autoras vai muito além de meras leituras fílmicas, na verdade, esse olhar multidisciplinar com recortes tão próprios e sóbrios suscita uma multivisão dos fatos.

Aos leitores da Obvious fica o convite para a leitura deste excelente livro, que pode facilmente ser baixado através do site do Repositório Institucional da Universidade Federal da Bahia. Por meio deste link: https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/17849.


Noédson Santos

Acadêmico em Direito pela Universidade Federal da Bahia, em Regime de Dupla Titulação com a Universidade de Coimbra (Portugal). Vivo entre o chão e o céu. Jogo a vida com calma. Brinco de ser sério. Nego as certezas, eu ando na pista.
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