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De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

nós realmente precisamos da energia de usinas nucleares?

Alguns incidentes e acidentes e a permanente preocupação com resíduos estão levando a um movimento contrário às usinas nucleares. Uma certa euforia com as energias renováveis e a redução dos preços do petróleo, entre outras coisas, vêm contribuindo com essa tendência. Mas, dentro do contexto atual, de população (e expectativas) em crescimento e de recursos em esgotamento, é possível abrir mão da energia que pode ser obtida com as usinas nucleares?


A energia nuclear pode ser obtida em usinas baseadas no processo de fissão. As usinas a fusão ainda não existem por conta que ainda não se tem certeza se elas serão viáveis economicamente e porque de fato ainda não dominamos a tecnologia para tanto. Existe a possibilidade do que se convencionou denominar como fusão a frio, mas esse processo ainda não foi comprovado experimentalmente (ou pelo menos ele ainda não foi aceito pela comunidade científica).

A energia obtida de fissão nuclear foi desenvolvida no início do século XX principalmente durante o desenvolvimento da bomba atômica pelos norte-americanos, ainda nos anos 40. O primeiro reator experimental foi desenvolvido pelos alemães ainda no final dos anos 30, mas seu desenvolvimento não foi continuado. Nos primeiros anos de desenvolvimento dessa tecnologia, não se sabia ao certo quanta energia poderia ser obtida e quais as consequências envolvidas.

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O processo de fissão nuclear realizado de modo controlado em usinas nucleares exige segurança com alto nível de eficiência. O processo consiste na quebra de núcleos de átomos pelo bombardeio com nêutrons, levando ao surgimento de átomos “menores”, com a liberação de energia conforme esse processo seja moderado, continuado e controlado. Vários tipos de acidentes podem acontecer, desde o vazamento de radiação até a perda de controle sobre o processo.

O acidente ocorrido em Fukushima, no Japão, em março de 2011, é o evento realmente preocupante mais recente em uma sequencia que passa por Three Miles Island, nos anos 70, e por Chernobyl, nos anos 80. Em Fukushima, houve inundação de um reator pelas águas de um tsunami provocado por um terremoto, provocando liberação de quantidades razoáveis de radiação para a atmosfera e de água contaminada para as imediações dos reatores nucleares.

Esses acidentes levaram a reações como a do governo da Alemanha, que anunciou a intenção de desativar completamente seus reatores nucleares nas próximas décadas. O governo japonês também fez anúncio semelhante após o acidente de Fukushima. Um processo que vai exigir vários anos e que implicará no desenvolvimento de alternativas para obtenção de energia e, durante esse período, na importação de energia, principalmente de gás natural, de países vizinhos.

Alguns países, entre eles a Alemanha e o Japão, além da França, entre vários outros, apresentam grande dependência da energia obtida de reatores nucleares. Na verdade, esses países apresentam atualmente uma demanda por suprimentos de energia bastante superior ao suprimentos que podem ser obtidos com outros recursos energéticos disponíveis em seus territórios e, em determinado momento do passado, eles optaram pela obtenção de energia a partir de usinas nucleares.

A dependência da energia obtida de reatores nucleares se estabeleceu principalmente pela falta de outras alternativas, seja pelo simples esgotamento de recursos seja pela decisão em favor de geração interna ao invés da importação de energia de países vizinhos mas nem sempre aliados econômicos ou políticos. Nesse panorama, também é importante reduzir a dependência de combustíveis fósseis, tanto por questões ambientais quanto por questões geopolíticas.

Em alguns casos, as usinas nucleares podem ser apoiadas e em outros casos podem mesmo ser substituídas por empreendimentos de geração baseados em energias renováveis. As usinas eólicas apresentaram grande evolução nos últimos anos e vários empreendimentos de grandes proporções foram inaugurados. As usinas solares fotovoltaicas e térmicas também apresentaram grande evolução. Além dessas, ainda podem ser consideradas as energias geotérmica e oceanotérmica, de ondas e de correntes oceânicas, de marés etc.

A grande questão é que poucos tipos de usinas podem fornecer a energia na concentração fornecida por usinas nucleares. Essa é a grande diferença entre usinas nucleares e outros tipos de usinas, principalmente as usinas baseadas em recursos renováveis. Poucos empreendimentos de geração de energia podem fornecer a energia necessária (em quantidade e em concentração) nos padrões atuais para atender grandes centros urbanos e grandes consumidores industriais.

A resposta então à pergunta apresentada neste artigo, simples e direta, é: SIM. Nós precisamos da energia de usinas nucleares!

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É possível dizer que a energia de usinas nucleares não é necessária sempre e também não é necessária em todos os lugares. Mas deve ser possível considerá-la como uma alternativa para obtenção de suprimentos de energia em locais distantes de outros recursos energéticos e em locais onde mesmo havendo outros recursos, a demanda por suprimentos de energia se apresenta concentrada e em perfil de crescimento, apresentando picos elevados de consumo.

Além das usinas nucleares, esses suprimentos concentrados de energia também podem ser obtidos com usinas hidrelétricas de grande porte e com usinas termelétricas. As usinas hidrelétricas não se encontram disponíveis em qualquer lugar e, na verdade, os locais mais promissores já foram identificados e aproveitados. As usinas térmicas exigem menores custos e menores prazos de construção, mas também apresentam impactos ambientais consideráveis.

No caso do Brasil, por exemplo, não é a toa que as usinas nucleares encontram-se instaladas na região de Angra dos Reis. É uma região encravada entre os centros mais populosos do país, onde estão concentrados os maiores consumidores, tanto pelos grandes centros urbanos quanto pela concentração de grandes complexos industriais, localizados na região que inclui a região leste do Estado de São Paulo, o Estado do Rio de Janeiro e o sul do Estado de Minas Gerais.

1024px-Angra1.jpg Usina Nuclear de Angra 1.

No mundo existem atualmente pouco mais de 200 usinas nucleares, em 32 países diferentes, totalizando aproximadamente 400 mil MW de potência instalada. Essa potência total instalada em reatores nucleares é cerca de três vezes a potencia total instalada atualmente no Brasil, considerando usinas hidrelétricas, usinas termelétricas e usinas eólicas. As usinas nucleares em operação atualmente no Brasil, Angra I e Angra II, não representam mais que 2% da potência total instalada.


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
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