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De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

a dkw e a auto union dos dois lados do muro / 1 de 2

A DKW e a Auto Union [que incluía (e com o tempo se tornou) a atual Audi] haviam surgido antes da Segunda Grande Guerra. Em 1945 e, depois, com o surgimento do Muro de Berlim, as fábricas ficaram do "lado de lá" mas a DKW ressurgiu do "lado de cá". Como resultado, vários modelos seguiram em produção nos dois lados nas décadas seguintes com várias semelhanças.


A DKW surgiu em 1916 e se tornou a maior fabricante de motocicletas do mundo nas décadas seguintes. A Auto Union surgiu em 1932 quando houve uma fusão da DKW (que nessa altura dos acontecimentos também já produzia automóveis) e de outras três fábricas do setor automotivo, a Audi, a Horch e a Wanderer. As quatro empresas seguiram em atividade até que foram envolvidas com a participação da Alemanha na Segunda Grande Guerra, no início dos anos 40.

A DKW produzia motocicletas em Zschopau e automóveis primeiro em Spandau, em Berlim, e depois em Zwickau. A Horch produzia automóveis de luxo e esportivos em Zwickau e a Wanderer produzia automóveis executivos de alto desempenho em Chemnitz. A Audi produzia automóveis também em Zwickau. A Auto Union estava então concentrada na Saxônia. O mapa abaixo mostra a localização dessas cidades. Após o conflito, a DKW passou a produzir automóveis em Düsseldorf e a Auto Union foi instalada em Ingolstadt. Atualmente, a sede da Audi, antiga Auto Union, está em Ingolstadt, onde também está instalado o Audi Museum.

dkw-map-3.png Mapa da Alemanha, mostrando Düsseldorf e Ingolstadt, que ficaram na Alemanha Ocidental, e Zwickau, Chemnitz e Zschopau, na Alemanha Oriental.

O final da Segunda Guerra e a divisão da Alemanha entre os países aliados deixou as fábricas no território sob guarda dos soviéticos. Várias indústrias foram desmanteladas e levadas como compensação pelas perdas impostas pela guerra, mas na parte sul do lado oriental isso não aconteceu e as fábricas retomaram suas atividades mesmo antes da reorganização que aconteceu no lado ocidental. Essa evolução paralela será tema da segunda parte.

Os detentores dos direitos de produção e dos direitos de uso das marcas emigraram nas semanas finais do conflito para o lado ocidental e, após alguns anos, conseguiram se reorganizar e retomar a capacidade produtiva. Em parte com empréstimos obtidos com o Plano Marshall, em parte com recursos próprios e também com recursos de um banco suíço. Desse modo, utilizando a mecânica e a motorização do F-8 e a carroceria do prototipo do F-9, foi lançado o DKW F-89 em 1949.

1024px-DKW_F89_(2001-07-31_Sp2).jpg DKW F-89, produzido entre 1949 e 1954.

A infra estrutura na Europa estava bastante comprometida após o conflito e era necessário oferecer alternativas de mobilidade. A DKW então ocupou um nicho voltado às pessoas que não pretendiam os automóveis mais requintados, mas que ainda assim buscavam algo a mais do que o sedan da Volkswagen poderia oferecer. Além disso, o motor de dois tempos garantia uma performance um tanto esportiva aliada a uma mecânica simples e que exigia pouca manutenção.

DKW-F91_Front-view.JPG DKW F-91, produzido entre 1953 e 1957.

Em 1953, foi lançado o F-91, com melhoramentos em relação ao F-89 e com a intenção de alcançar outros mercados. Uma versão utilitária desse carro foi montado em regime CKD no Brasil pela Vemag, que depois montaria sob licença os modelos seguintes. Esse período viu poucos avanços tecnológicos, mas a oferta de novos modelos visando diversificar os mercados alcançados pela empresa. Assim surgiram um jipe "militar" (também produzido no Brasil) e uma van "comercial".

1024px-DKW_Munga_6_BW_1.jpg DKW Munga, produzido entre 1956 e 1968.

O Munga foi idealizado visando o mercado militar e, de fato, foi fornecido à OTAN até dezembro de 1968, adiante da ordem de encerrar a produção de motores de dois tempos, conforme será comentado adiante. A denominação "MUNGA" soa estranha e significa (do original em alemão) "veículo multi objetivo para todo terreno com tração integral". O Munga foi um relativo sucesso, com mais de 45.000 unidades produzidas na Alemanha (e pouco mais de sete mil no Brasil).

1024px-DKW_Schnelllaster,_Bj._1950_(museum_mobile_2013-09-03).jpg DKW F-800, produzido entre 1949 e 1962.

A F-800, também denominada como Schnellaster (ou "transporte rápido"), visava um mercado em expansão relacionado ao modal de transporte correspondente às entregas rápidas e ao transporte urbano de pequenas cargas. Este modelo, especificamente, teve dificuldades na concorrência com modelos de outros fabricantes principalmente pelo fraco desempenho dos motores utilizados. Apenas as últimas versões receberam os motores de três cilindros.

DKW_F93_1957.jpg DKW F-93, produzido em várias versões entre 1955 e 1959.

A família dos F-93 e F-94, uma evolução (menos) em design e (muito mais) em tecnologia dos F-91, foi colocada no mercado em 1955. Pelas suas características, não tinham concorrentes diretos e ofereciam mais em desempenho e conforto que concorrentes indiretos como o VW Sedan. Aproximadamente cem mil unidades desse modelo, entre sedans e peruas, foram produzidos a partir de 1958 (e até 1967) pela Vemag no Brasil. Mas esse modelo precisava ser atualizado!

DKW_Junior,_vorn_(museum_mobile_2013-09-03).JPG Dianteira de um DKW Júnior, produzido em várias versões entre 1959 e 1965.

A Mercedes-Benz assumiu o controle da Auto Union a partir de 1957 e isso transparece na oferta de alternativas aos modelos anteriores, principalmente aos modelos de passeio e seus derivados, ainda concebidos nos anos 30. Desse modo, pouco tempo depois são lançados o sedan Júnior e seus derivados, o primeiro com o capô do motor na mesma altura dos paralamas, e o esportivo 1000Sp, com design fortemente inspirado pelo norte-americano Ford Thunderbird.

DKW-Junior_Rear-view.jpg Traseira de um DKW Júnior.

O Júnior e, depois, o F-11 e o F-12, pretendem ocupar o espaço dos F-93 e F-94, oferecendo um conceito mais moderno e contemporâneo aos anos 50, com melhoramentos também na parte técnica. Os carros agora recebem freios a disco e transmissão homocinética já na linha de produção e não mais como opcionais. E também é oferecido um sistema de dosagem automática de óleo de lubrificação. O F-12 teve inclusive uma versão roadster que fez relativo sucesso.

Auto_Union_1000s-02.jpg Dianteira de um Auto Union 1000S, produzido até 1963.

Uma versão glamurosa do modelo anterior foi mantida em produção, principalmente para consolidar um relativo sucesso alcançado em alguns mercado estrangeiros. Desse modo, o 1000S foi produzido em Ingolstadt até 1963 e por isso denominado como 'Auto Union 1000S'. Esse modelo tinha um parabrisa mais abrangente, sem a ccoluna A, com um formato apropriado ao mercado norte-americano. Esse modelo tinha duas portas e trazia alguns refinamentos em design.

Auto_Union_1000s-01.jpg Traseira de um Auto Union 1000S.

Uma das características mais interessantes desse modelo é o painel de instrumentos. Diferente dos anteriores, este trazia um painel que já era empregado pela Mercedes em seus modelos de linha naquela época, especialmente no 300 SL 'Gull Wing'. Esse painel tinha um componente central que indicava a velocidade em uma escala linear e colocada na vertical. Alem desse refinamento, esse modelo também trazia um aquecedor de ambiente e um dosador de óleo lubrificante.

1024px-Armaturenbrett_DKW_1000S_de_Luxe.jpg Interior de um Auto Union 1000S.

Ainda nos anos 50, um dos diretores da Auto Union esteve nos Estados Unidos e teve oportunidade de conduzir um Ford Thunderbird. Quando retornou, ele insistiu em conceber um Thunderbird em miniatura, para receber motor de dois tempos. Assim foi dada partida na concepção do 1000Sp, produzido em Ingolstadt até 1965, inclusive com uma versão roadster. O resultado foi um esportivo muito interessante, atualmente bastante cobiçado por colecionadores.

1024px-Auto_Union_1000_Sp_(2008-07-12)_ret.jpg Auto Union 1000Sp, produzido entre 1958 e 1965.

O início dos anos 60, por vários motivos, foi especialmente duro com os motores de dois tempos. A Mercedes via na DKW um meio de oferecer modelos mais baratos que os seus próprios modelos, para um segmento diferente de mercado, mas a opção pelo motor de dois tempos começava a perder terreno e um novo motor, com quatro tempos, já se encontrava em desenvolvimento. Enquanto isso, a DKW preparava um último produto para o seu nicho de mercado.

1024px-DKW_F_102_(museum_mobile_2013-09-03).jpg DKW F-102, o último, produzido entre 1963 e 1966.

O F-102 foi sem dúvida o melhor carro produzido pela DKW. Era um monobloco, oferecido em versões com duas e com quatro portas, equipado com um motor de 1.175 cc que produzia 60 CV, com 2.490 mm de distância entre eixos e com cerca de 950 kg. Era equipado com dosador de óleo lubrificante mais avançado que os modelos disponíveis anteriormente. Seu projeto era consistente e deu origem ao primeiro Audi, quando a Auto Union foi adquirida, em 1965, pela Volkswagen.

A produção do F-102 foi encerrada em 1966, quando a Volkswagen decidiu aposentar o motor de dois tempos e encerrar o uso da marca DKW. Ambos demonstravam esgotamento! Entrou em cena a marca Audi e a empresa passou a produzir automóveis de alto desempenho, como parte da estratégia do Grupo Volkswagen. O F-102 foi transformado em F-103 (e depois em Audi 60 e assim por diante) e ali foi iniciado um capítulo novo e diferente do automobilismo.


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
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