horizonte de eventos

De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

uma atualização d'a máquina do tempo' e os clãs da lua alfa

'A Máquina do Tempo' foi lançado em 1895 e conta a estória de um viajante que avança quase um milhão de anos para o futuro e encontra a sociedade humana dividida em duas. Um retrato das indústrias daquela época, mais simples que as atuais, que consistiam em máquinas operadas por funcionários em condições sub humanas de trabalho. As indústrias entretanto mudaram, evoluíram, e... como seria a jornada do viajante do tempo nesse novo contexto?


"A Máquina do Tempo" foi lançado por Herbert George Wells em 1895 e já recebeu algumas versões cinematográficas. É uma obra que hoje em dia parece um tanto desatualizada, como acontece com vários textos de ficção científica do século XIX, mas que contribuiu fortemente para consolidar seu autor como um dos autores clássicos desse gênero literário. Um gênero que foi e segue responsável pela antecipação de vários avanços científicos e tecnológicos.

time-machine.png Capas de diferentes edições de "The Time Machine". À esquerda, a capa da primeira edição inglesa; à direita, de uma edição norte-americana dos anos 50.

O livro conta a história de um cientista que construiu uma máquina do tempo e que avançou quase um milhão de anos para o futuro e encontrou a sociedade dividida em duas castas. Uma delas é desprestigiada, vive nos subterrâneos e mantém costumes antropófagos. A outra é privilegiada mas vive na superfície uma vida de ilusão, sem entender exatamente tudo o que acontece. A casta subterrânea sequestra integrantes da casta da superfície em ataques periódicos.

Essa trama foi certamente elaborada após uma extrapolação feita pelo autor sobre como poderia ser um futuro distante a partir de um ponto de partida, seu contemporâneo, no qual a sociedade industrial estava dividida entre engenheiros e operários. Então obviamente os engenheiros e suas famílias evoluiriam para essa casta que vive na superfície, enquanto por sua vez os operários e suas famílias evoluiriam para a casta que vive nos subterrâneos.

Várias interpretações podem (e de fato foram) formuladas, mas este artigo está focado apenas nessa projeção simplória para um futuro distante a partir da forma de organização das indústrias no final do século XIX. Houve a identificação de uma realidade em seu tempo e a partir daí a criação de um romance para dar divulgação a um determinado ponto de vista. E, claramente, inserido em um ambiente (de antecipação ou neste caso) de especulação científica comum a esse gênero.

Pois bem... as indústrias até o final do século XIX e início do século XX (até onde se estendeu aproximadamente a 'primeira fase da Revolução Industrial') se organizavam de um modo bastante simples, sendo compostas basicamente por engenheiros e por operários. Os engenheiros eram responsáveis pelo projeto e pela manutenção das máquinas. Os operários por sua vez eram responsáveis pela operação dessas máquinas, muitas vezes em condições sub humanas de trabalho.

No que se convencionou denominar como 'segunda fase da Revolução Industrial', as indústrias se tornaram entidades mais complexas. Surgiram os setores associados com publicidade, com vendas e relações públicas, com ouvidoria, entre outros. Surgiram também as preocupações com o meio ambiente e a necessidade de enquadramento em legislações cada vez mais restritivas. E engenheiros de várias especialidades diferentes foram se tornando necessários.

Na primeira fase, um critério fundamental era o custo de produção; na segunda, um parãmetro fundamental passou a ser o custo global. Na primeira fase, o engenheiro poderia encontrar satisfação pessoal dominando os processos do início ao fim; na segunda, os profissionais acabam buscando uma satisfação diluída, por fazerem parte dos diversos processos de produção e da empresa. As empresas da primeira fase são simples enquanto na segunda se tornaram mais complexas.

O livro Technics and Civilization, de Lewis Mumford, pode fornecer muitos mais detalhes sobre essas questões relacionadas com a Revolução Industrial. Um exemplo de indústria da segunda fase é a indústria automobilística, que opera efetuando uma transformação ampla de diversos materiais, exigindo conhecimentos científicos e tecnológicos, manipulados por técnicos de diversas áreas, para colocar no mercado um produto que é bastante complexo.

É claro que nem todas as empresas migraram (ou, mesmo, precisam migrar) da primeira para a segunda fase da Revolução Industrial. Em alguns setores, não ocorreu essa migração, enquanto em outros essa migração é obrigatória. Em países desenvolvidos, essa migração estabeleceu a passagem para a segunda fase. Em países em desenvolvimento, essa migração ainda está sendo efetuada ou então ainda existem muitas empresas ainda operando na primeira fase.

"A Máquina do Tempo" foi portanto baseado em uma concepção de indústria que, mesmo ainda podendo ser encontrada em qualquer parte do mundo, é um conceito já ultrapassado. E é possível afirmar que essa concepção moderna de indústria deverá com o tempo corresponder à concepção da maior parte das indústrias, desfazendo desse modo influências que a concepção antiquada possa ter no sentido de viabilizar um futuro conforme o que foi vislumbrado pelo autor.

Em uma atualização d'A Máquina do Tempo, em um exercício de imaginação, seria portanto possível encontrar um futuro mais complexo (sem a intenção de desfazer a contribuição do livro original ao gênero literário no qual se insere), formado quem sabe por castas diferentes oriundas possivelmente dos vários funcionários componentes das indústrias conforme a concepção que atualmente vigora entre as empresas que atuam no mundo. É claro que esse exercício de imaginação talvez não levasse a um futuro distópico como o que foi imaginado.

Seguindo uma mesma linha de raciocínio, ainda um exercício de imaginação, algum caminho possivelmente alternativo, levando ao extremo essa composição das indústrias atuais por vários tipos de funcionários, especialistas com formações distintas e diversas, levando ao extremo e imaginando que em um futuro distante esses diferentes especialistas pressionados por resultados quem sabe dessem origem a diferentes castas ou facções, seria possível quem sabe chegar ao livro lançado originalmente em 1964 por Philip K. Dick... Clans of the Alphane Moon.

clans.png Capa de uma das primeiras edições de "Clans of the Alphane Moon", à esquerda, e capa da edição brasileira, em português, à direita.

Nesse livro, uma lua no sistema planetário da estrela Alfa do Centauro abriga um hospital psiquiátrico. Anos após um rompimento com a Terra, uma missão é enviada a essa lua para que sejam retomados os contatos e o controle sobre essa colônia. Surpreendentemente, essa missão encontra a sociedade dessa lua reorganizada em facções surgidas a partir de grupos que se formaram por pessoas que enfrentavam problemas semelhantes. Desse modo, essa lua estava organizada em facções de esquizofrênicos, de paranóicos, de depressivos e assim por diante.

Apenas um exercício de imaginação...


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
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