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De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

a força em "star wars" e os primórdios do ambientalismo

Recentemente foi lançado o sétimo episódio de uma série iniciada em 1977 e que é um dos maiores sucessos do cinema. Entre os eixos principais do enredo, como uma personagem, está a "força". Um conceito ("uma energia que emana de todos os seres vivos") que surgiu em meados dos anos 70, quando o ambientalismo contemporâneo estava amadurecendo.


A série de filmes iniciada com Star Wars em 1977 é um dos maiores blockbusters do cinema. Um enredo relativamente simples mas envolvendo alguns conflitos básicos, personagens carismáticos, um amplo conjunto de produtos paralelos, um planejamento de longo prazo dos roteiristas, entre outros fatores, construíram um patrimônio cultural que atravessa gerações.

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Em paralelo ao sucesso, há correntes de admiradores do seriado que tentam localizar as fontes usadas para a criação do enredo, para a criação de cenas e assim por diante, entre declarações de seus criadores e comparações diretas. As fontes mais óbvias são alguns episódios de uma série de filmes de cinema sobre as aventuras de Flash Gordon e alguns filmes dirigidos por Akira Kurosawa.

George Lucas, idealizador da série e diretor de alguns dos episódios, admitiu ter se inspirado em livros de Joseph Campbell para criar personagens e situações dos episódios. Especificamente, The Hero with a Thousand Faces descreve alguns mitos relacionados com o renascimento de um herói após uma derrota e com a inspiração obtida com lindas donzelas. Além, é claro, das tensões entre pais e filhos.

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Uma das personagens desse seriado, certamente se pode dizer assim, é a "força". Ela é cultivada e manipulada por sacerdotes-guerreiros devidamente treinados. A Força é "uma energia que emana de todos os seres vivos". Esses sacerdotes-guerreiros, os Jedis, são treinados por um mestre e quando estão prontos eles assumem o treinamento de aprendizes, sempre um por vez.

Esse conceito da Força foi idealizado por Lucas em uma época na qual os conceitos modernos de ambientalismo (ou ecologismo) passaram por uma fase de amadurecimento. As ideias ambientalistas não são recentes. Desde a Antiguidade se sabe que o meio ambiente precisa ser protegido e que o homem precisa alcançar um equilíbrio no que diz respeito à exploração dos recursos naturais. Nunca houve unanimidade, é verdade, mas atualmente há motivos reais para preocupação!

Entre várias possíveis influências, o ecologista Garrett J. Hardin publicou na revista Science, em dezembro de 1968, um artigo intitulado The Tragedy of the Commons, no qual argumenta que os problemas ecológicos continuariam a se agravar se não houvesse uma tomada de consciência generalizada de que os recursos disponíveis para a humanidade são recursos finitos. Ele também argumenta que os espaços disponíveis para a humanidade também são limitados.

Além dele, o cientista ambiental Amory B. Lovins, entre tantos artigos e livros, publicou em 1977 o livro Soft Energy Paths, no qual discute alternativas para geração de energia e meios para um relacionamento saudável com o meio ambiente para construir caminhos viáveis para um futuro sustentável para a humanidade. O avanço do desenvolvimento da humanidade não pode ser freado, mas deve ser planejado para reduzir os impactos sobre o meio ambiente.

Talvez a ideia mais importante nesse sentido tenha sido a Hipótese de Gaia, proposta pelo químico inglês James E. Lovelock, em 1972, juntamente com alguns outros cientistas. Segundo essa hipótese, os seres vivos no planeta atuariam em uma espécie de coletividade no sentido de manter as condições necessárias para a manutenção de vida na Terra. É um conceito mais importante pelo seu poder de provocar debates sobre o assunto, principalmente fora do ambiente acadêmico, do que por suas consequências sobre o avanço dos trabalhos de pesquisa.

Nesse contexto surgiu então a ideia da "força". Uma ideia interessante e muito poderosa! Não é necessário temer a Força e nem é necessário submeter-se à Força. Por outro lado, é necessário o auto conhecimento para que a Força seja controlada e utilizada para o bem. E o conflito central de todo o seriado, que vai ficando cada vez mais claro ao longo de tantos episódios, é justamente o uso indevido da força por aqueles que detêm o poder de utilizá-la e que não concluíram devidamente seus processos pessoais de auto conhecimento.

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Algo interessante a ser comentado também, sobre o novo episódio e possivelmente sobre os próximos, é que houve uma espécie de inversão de polaridade. No passado, sempre o lado positivo da Força ("the light") parecia ameaçado pelo lado negativo ("the dark side"). Agora, o lado positivo parece brotar de todos os lados pronto a ameaçar e superar o lado negativo. Agora, os vilṍes tremem para se manterem vilões. Em tempos de crise e de aparente desorientação... isso é ótimo!

Que a Força esteja com todos!


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
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