horizonte de eventos

De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

sobre as noções de tempo e espaço em 'battlestar galactica'

Entre as space opera's produzidas para TV a cabo (e mesmo em um contexto mais amplo), Battlestar Galactica é aclamada pelo público e pela crítica. Em grande parte, pelo modo sério e competente com que várias questões foram abordadas, inclusive questões científicas. Especificamente, as noções de tempo e espaço estão bastante coerentes com o que sabemos atualmente.


Houve um seriado "original" no final dos anos 70, seguindo o sucesso de Star Wars, que poderia ser caracterizado como um conto de fadas. Depois, acompanhando uma certa tendência por refilmagens, houve um novo seriado entre 2004 e 2009, após uma minissérie "piloto" no final de 2003. Esta refilmagem foi bastante realista, até adiante de onde um produto desse tipo pode ser caracterizado como realista.

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Este segundo seriado conta, como é prometido pelo título e talvez de um modo mais óbvio, a estória da nave espacial de combate Galactica. Ela não é a nave mais avançada da frota (como sempre foi o caso da Enterprise em Star Trek) e estava mesmo sendo aposentada e transformada em um museu espacial quando se dá o início dos eventos que são contados na minissérie e depois no seriado.

Em local remoto, os humanos ocupam doze colônias, aproximadamente dois mil anos após terem deixado o planeta Kobol (onde teria surgido a humanidade), por esgotamento de recursos naturais. É uma sociedade industrial avançada e sustentável que colonizou planetas e satélites em um sistema duplo de estrelas binárias. Segundo o seriado, as doze colônias somariam 70 bilhões de pessoas.

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Os eventos descritos se passam cerca de quarenta anos após o final de uma guerra contra os cilônios, que nesta segunda versão consistem em robôs criados pelo homem e que, após receberem inteligência artificial, decidem lutar contra os humanos pela possibilidade de serem livres. A minissérie começa justamente quando os cilônios retornam com a intenção de destruir a humanidade.

Sem descrever cansativamente os episódios ou entrar no mérito das questões sociais e políticas que são discutidas no seriado, "Battlestar Galactica" apresenta um tratamento bastante consistente para questões tecnológicas e científicas. Algumas concessões foram feitas, é verdade, em favor da qualidade do espetáculo (como afirmaram seus roteiristas), principalmente porque BSG esteve muito mais próxima do julgamento do público do que esteve 2001, A Space Odyssey.

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As cenas que retratam o espaço mostram ruídos e sons e essa talvez seja a maior de todas as concessões. Entretanto, os sons são retratados como percepções obtidas através das estruturas das espaçonaves. Além disso, muitas vezes as câmeras são focadas rapidamente reproduzindo o que ocorre em filmagens em tempo real em áreas conflagradas. Os sons no espaço são também retratados desse modo, aparecendo quando consistem em efeitos necessários.

É razoável entretanto aceitar que a sociedade retratada no seriado já tenha decifrado o modo como se entrelaçam a teoria quântica, a teoria da relatividade e o eletromagnetismo, a tal "teoria de tudo", e com isso dominam tecnologias avançadas para, por exemplo, viagens no espaço a grandes distâncias. E com essa referência é possível entender como várias questões cientificas e tecnológicas são abordadas com bastante consistência ao longo do seriado.

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Dentro desse panorama, as noções de tempo e de espaço foram construídas com uma coerência bastante satisfatória. As comunicações acontecem sempre ao "alcance de rádio", sempre respeitando o "tempo de viagem" de ondas eletromagnéticas. As naves podem se movimentar com propulsão convencional, para distâncias pequenas, e por meio de "saltos", para grandes distâncias; e a navegação com "saltos" é limitada por capacidade de navegação e por tecnologia disponível para processamento de dados. Essa tecnologia de viagem por meio de "saltos" já foi sugerida em outras obras de ficção científica e já vem sendo entendida com a nossa teoria da relatividade geral.

Alguns exemplos ao longo dos episódios comprovam esse tratamento cuidadoso com as noções de tempo e espaço. O mais emblemático aparece no vigésimo episódio da segunda temporada, quando os cilônios chegaram a uma colônia dos humanos que estava sendo estabelecida em uma planeta camuflado em uma "região nebulosa". Após dois anos do ataque devastador dos cilônios, os humanos sobreviventes viajavam em uma pequena frota em busca de um planeta habitável onde segundo algumas lendas antigas teria se instalado uma décima terceira colônia de Kobol. Após dois anos no espaço, todos queriam um recomeço.

O desembarque foi precedido de disputas políticas e uma cadeia de acontecimentos culminou na explosão de um artefato nuclear em uma das naves da frota. Essa explosão ainda em órbita, em parte interpretada como um ataque terrorista, precipitou o desembarque e o início da colonização desse planeta. Aproximadamente um ano depois, uma nave-base dos cilônios "saltou" para as imediações desse planeta e, após uma rápida invasão, um dos líderes comentou: "Nós estávamos próximos daqui, em missão exploratória por suprimentos, quando detectamos uma explosão nuclear a cerca de um ano luz. Então viemos investigar!"

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Enfim... BSG foi muito além de ficção científica, abordando temas universais e atuais com profundidade e com seriedade. Em março de 2009, houve um painel de discussões proposto pela Organização das Nações Unidas, inspirado pelo sucesso de público e de crítica alcançado pelo seriado e explorando temas como direitos humanos, terrorismo, conflitos armados e o exercício da tolerância.


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
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